“Livro do Desassossego” | Fernando Pessoa

“Livro do Desassossego” | Fernando Pessoa

Work in progress à portuguesa

No prefácio à nova edição do “Livro do Desassossego” (Tinta da China, 2013), obra maior de Fernando Pessoa, Jerónimo Pizarro – o editor desta edição – refere que «a língua portuguesa talvez nunca se tenha visto tão desassossegada como neste livro.»

Livro de natureza fragmentária, tem sido objecto de estudo constante entre os críticos pessoanos, apesar de estar longe da consensualidade – nomeadamente sobre a melhor forma de o organizar. Teresa Sobral Cunha, por exemplo, considera que existem dois autores do livro: Vicente Guedes, numa primeira fase que abrange os anos 1910-1920, e Bernardo Soares, numa segunda fase entre os anos 1920-1930. António Quadros, numa outra abordagem, partilha a ideia de que a segunda parte pertence a Bernardo Soares, mas confere ao próprio Fernando Pessoa a escrita da primeira parte. Pizarro parece partilhar um pouco das duas visões: «Em última análise, o autor será o próprio Pessoa e assim deve, a meu ver, ser arrogado. Só que existe um autor interno ao Livro, que primeiro foi o próprio Pessoa ou uma das suas figurações ortónimas, depois Vicente Guedes, num primeiro acto de despersonalização, e finalmente, ao que parece, outra vez Pessoa.»

Para Pizarro este será, à semelhança de alguns livros de James Joyce, um work in progress onde «há pelo menos três autores à procura de um livro.» Nesta edição Jerónimo Pizarro propõe, sem que isso implique uma descaracterização da obra, a alternância entre os textos da primeira fase com os da segunda, mantendo a ortografia original  e acrescentando-lhe inúmeras notas de rodapé.

“Livro do Desassosego” é um pouco de tudo: diário intimista, conversa filosófica, passeio entre a prosa poética e a narrativa com um toque épico (nem que o seja apenas pela qualidade da escrita).

Entre a inquietação, o tédio e a angústia mas sempre uma grande lucidez e análise crítica, Fernando Pessoa construiu aqui um diário ficcionado de um ajudante de guarda-livros – ele que foi correspondente de línguas -, revelando, nesta obra, muito de si mesmo enquanto escritor e, sobretudo, enquanto pessoa, radiografando-se a si próprio e à cidade de Lisboa. Um livro fundamental da literatura portuguesa que chega agora numa capa a preto e branco, que estará certamente entre as mais belas deste ano de 2013.



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