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Load aspas aspas #1

Todos os meses, a Rua de Baixo lança o seu olhar sobre alguns novos lançamentos na indústria dos vídeo-jogos (e um clássico). Este mês, as novas aventuras de Link, o regresso do explorador Nathan Drake e lembranças da Dreamcast.

Zelda: Skyward Sword

É do conhecimento geral da malta dos jogos que “Ocarina of Time” continua a ser uma espécie de medida de qualidade, não apenas da série “Legend of Zelda” mas do catálogo de todos os jogos já feitos. A verdade é que todos os títulos da série posteriores sofrem a inevitável comparação, e claro que a resposta dos fanboys nunca foge muito ao “este é o melhor título desde ‘Ocarina of Time’”, tal é a vontade de se sentirem outra vez com doze anos a jogarem maravilhados na sua N64.

Deixo-vos com a minha humilde perspectiva, isenta desta ansiedade de igualar títulos e sensações, já que me enquadro no patamar do “gajo que jogou o ‘Ocarina of Time’ e até gostou, mas que se consegue lembrar na boa de dez jogos que curtiu mais”.

Arranco a consola, jogo dez minutos e deparo-me com duas coisas que muito abomino. Não, Link não virou racista nem homofóbico, mas frequenta uma escola parecida com a do “Harry Potter” e voa nuns pássaros como os do “Avatar”! Desabafo feito por ter referido estas duas influências, que estou certo agradarão a muitos jovens possuidores de Wii e fãs de longa data do Zelda com mau gosto no que toca a cinema e literatura; centro-me na jogabilidade.

Com um arranque demorado, repleto de cutscenes ambiciosas a conferir uma atmosfera cinematográfica, lá se vai construindo o cenário de “Skyward Sword”. Link e Zelda, desta feita amigos de infância, vivem num calhau a flutuar no céu que não é um asteróide, e claro que Zelda é raptada e o pai que é o maioral do calhau pede a Link para a ir salvar porque ele é o “the chosen one”… desculpem se a história não está bem contada mas a introdução era demasiado extensa e a já tradicional “ausência de voz”, juntamente com diversas personagens estereotipadas de RPG, deram-me um pouco de sono. Afinal eu quero é entrar numa dungeon, dispenso bem ouvir ler a história típica do rei que ficou sem filha pela milésima vez.

Quando Link adquire a espada a coisa muda de figura; é aqui que “Skyward Sword” adquire o seu brilho. A utilização do Wiimote para os movimentos da espada está sublime. Basta dedicar alguns momentos para poder observar como Link reproduz todos os movimentos efectuados pelo jogador. E como a característica não foi incluída apenas por excibicionismo, o sistema de combate faz uso dos diversos movimentos possíveis, já que muitas vezes será necessário atacar com determinado golpe para poder atingir um inimigo numa área em que este não se consiga defender!

O visual colorido poderá parecer um passo atrás depois do esplendor gráfico de “Twilight Princess”, fazendo às vezes lembrar um jogo bem feito de primeira geração de PS2 ou até mesmo de Dreamcast. Mas sacrificar o visual em prol de uma melhor jogabilidade pode ser positivo.

“Skyward Sword” será um jogo a incluir em qualquer top10 de melhores títulos da Wii, mas não penso estar perante o melhor jogo de sempre. É um jogo que consegue manter-se em linha com os outros títulos da série e ainda assim incluir algumas inovações, deixando assim os fãs da saga satisfeitos, bem como qualquer pessoa que queira saborear a afinação e detalhe que os cinco anos de vida da Wii proporcionam aos controlos deste jogo; no departamento narrativo confesso que não me prende.

Com cinquenta horas de jogo, “Skyward Sword” é a prenda de Natal para o ano inteiro. Ah e lembrem-se: precisam de um Wii motion plus para jogar este título. Está lá escrito na parte detrás da caixa, em letras muito pequeninas para ninguém ver. Já pensaram na quantidade de miúdos que vão experimentar o seu novo jogo na manhã de Natal, para descobrirem que terão de esperar até ao dia seguinte para comprar o adaptador e poder jogá-lo?

Francisco Abrunhosa

Uncharted 3: Drake’s Fortune

O Indiana Jones dos videojogos está de volta e em grande estilo. Como tem sido hábito, a Sony apostou muito no lançamento deste jogo (o primeiro episódio fez parte do line-up de lançamento da PS3), sendo ele um exclusivo da marca nipónica. Neste terceiro capítulo, para além da habitual aventura “à procura da cidade perdida”, é desvendado um pouco da história de Drake, sendo possível jogar com o adolescente Nathan durante alguns níveis.

Para quem não conhece, Uncharted é um jogo de acção-aventura, criado pela Naughty Dog, jogado a partir de uma perspectiva de terceira pessoa. Tendo como objectivo desvendar um “segredo” arqueológico/histórico, o herói, Nathan Drake, percorre diversos locais do mundo onde necessita de desvendar quebra-cabeças e fugir dos seus inimigos que perseguem o mesmo objectivo. Para o ajudar, Nathan conta a com a ajuda do seu mentor, Victor Sullivan, e de outras personagens que foram sendo conhecidas durante os dois primeiros jogos. Para além do modo “História”, Uncharted apresenta, desde o segundo capítulo, um modo multiplayer, com um enorme conjunto de opções que passam pelo tradicional “Capture The Flag” a outros modos mais específicos de cooperação.

A nível gráfico Uncharted 3 sobe mais uma vez a fasquia (que já se encontrava muito alta). Níveis com detalhes deslumbrantes, paisagens de arrepiar e um cada vez mais perfeito “jogo de câmaras” que nos primeiros dois episódios complicavam um pouco a jogabilidade. A luta corpo-a-corpo foi também substancialmente melhorada sendo possível efectuar dezenas de variações de golpes e contragolpes que dependem sempre da posição onde se encontram as personagens e das acções que as mesmas estão a efectuar (ao fazer um contragolpe quando um inimigo tem uma granada na mão, Nathan coloca a granada no bolso e… Kabummmm).

Frenéticas estão também as cenas em que somos obrigados a fugir de algo ou apanhar alguém. A complexidade dos habituais quebra-cabeças também aumentou, o que é um factor positivo (faz bem parar um pouco para pensar e não andar sempre aos tiros). Mais que um jogo, Uncharted 3 é uma experiência audiovisual altamente cinematográfica que deixa colados ao ecrã mesmo os menos apaixonados por vídeo-jogos (comprovei isso mesmo em minha casa).

Para quem gosta de completar todos os troféus que o jogo disponibiliza, será necessário apanhar os 60 tesouros que se encontram espalhados pelos diferentes capítulos do jogo. Naturalmente que já existem muitos sites que indicam onde podem apanhar os troféus, mas sinceramente isso é batota.

Já acabei o jogo e agora?

Depois de uma primeira experiência no episódio anterior, Uncharted 3 apresenta uma grande variedade de opções multiplayer. Naturalmente que os menos habituados nestas andanças de andar a dar tiros online com um comando nas mãos poderão desesperar nas primeiras horas. Frases como: “Como é que este gajo me matou?”, “Onde estava o ca***o?”, “Porra para estes putos”, são naturais. Nada que umas boas noites sem dormir não resolvam. Com o tempo a nossa personagem vai ganhando alguns trocos e adquirindo alguns utensílios importantes para combater de igual para igual.

Os modos: Team Deathmatch, onde se defrontam três equipas de dois jogadores; Free-for-All que tal como o nome indica é um salve-se quem puder; Team Objective onde teremos de cumprir em equipa alguns objectivos; Hardcore onde não há lugar a melhoramentos ou bónus adquiridos – apenas podemos contar com a nossa perícia.

Ainda no multiplayer há que destacar dois aspectos: a personalização e o split screen. Para além de ser possível personalizar a personagem e armas, a Naughty Dog inseriu uma componente “social”, sendo possível fazer upload de vídeos para o youtube ou ligar o jogo ao facebook permitindo encontrar “amigos” e partilhar os feitos na rede social. Em relação ao Split Screen, esta nova funcionalidade permite que duas pessoas joguem online na mesma consola e televisão. Pela primeira vez na PS3 dois jogadores podem fazer login em simultâneo na PSN e depois jogar em modo de ecrã dividido online. O progresso de cada um fica registado na conta PSN pelo que, de volta a casa, podemos continuar a subir a nossa personagem de onde a tínhamos deixado. Boa ideia!

Será o jogo do ano? Sinceramente penso que este ano é muito difícil indicar “o melhor” porque existem candidatos muito fortes em todos os géneros. Garantidamente é o melhor jogo do seu género e o melhor que eu joguei em 2011.

Pedro Marques


Kirby: Mass Attack

Depois do meu último contacto com o amigo cor-de-rosa em “Kirby: Mouse Attack”, fiquei com a impressão que a série estava a começar a esgotar a fórmula. Confesso que esperava “mais do mesmo”, um bom jogo de plataformas mas ainda assim uma mera expansão das anteriores incursões de Kirby pelo GBA e DS. A juntar a esse facto, comecei o jogo com uma desilusão ao perceber que o controlo de Kirby iria ser feito exclusivamente com o stylus da DS.

No entanto foram apenas necessários um par de níveis para me aperceber que este método de controlo é sem dúvida o ponto forte de Kirby Mass Attack. Com o stylus delineamos o percurso e as tarefas que o nosso personagem tem de fazer, estando os controlos afinados ao pormenor, como vem a ser hábito nos jogos com o selo Nintendo.

A premissa é simples. Por alguma razão que eu não me preocupei muito em saber (passei à frente as opening scenes), temos agora sob o nosso controlo não um mas dez Kirbys. OK, não são dez logo assim do início, mas conforme vamos coleccionando frutinhas vamos aumentando o nosso exército. Claro que todos estes Kirbys podem ir falecendo e acreditem que se pode tornar bem desafiante manter dez amigos cor-de rosa debaixo de olho. No entanto, um maior número de Kirbys significa maior facilidade em remover obstáculos ou em combater inimigos. O nível de dificuldade mantém-se semelhante ao dos outros títulos de Kirby, ou seja, a tender para o fácil. O backtracking é no entanto incentivado já que para aceder aos níveis superiores espalhados por cada um dos cinco mundos é necessário um maior número de Kirbys (ou até mesmo activar um switch escondido num nível anterior – alô nível da floresta do “Super Mario World”), bem como coleccionar umas tais de rainbow medals que permitem o acesso ao último mundo.

A ter em conta também estão os mini-jogos, desbloqueáveis conforme o jogador vai coleccionando medalhas nos níveis. Variando entre shooter, pinball, RPG (sim, RPG como mini-jogo!) e uma cena parecida com aquele arcade de dar com um martelo no crocodilo, estes jogos tornam-se uma agradável adição ao pacote, uma vez que são extremamente divertidos e ideais para entreter entre duas estações de metro.

A DS conta já com uns valentes anos em cima e começa a ser ultrapassada pela nova geração de consolas portáteis. Titulos como “Super Mario 3D Land” ou “Mário Kart 7” prometem disparar o número de utilizadores da mais recente 3DS, o que pode bem significar o eventual fim da produção de software desta plataforma. Mas se tal acontecesse com Kirby Mass Attack, a Nintendo fechava com chave d’ouro.

Devia recomendar este jogo, mas confesso que tenho algum receio… pode tornar-se viciante.

Francisco Abrunhosa

Cantinho dos Cotas: Shenmue 2

Mesmo nos meus tempos de juventude, quando jogava “Shenmue 2” na Dreamcast, já sabia um pouco a derrota – a sensação melancólica de quem sabia estar do lado dos perdedores na guerra das consolas. Este sentimento underdog justifica, em grande parte, o culto que se gerou em volta da série “Shenmue”, jogos que por um lado apresentam falhas bastante óbvias (a repetição nauseante de tarefas pouco interessantes que mais tarde viria a aprender que se chama grinding, uma ilustração do quotidiano por vezes demasiado fixada no realismo), mas que brilham pelos divertidos combo moves e, acima de tudo, pelo seu sentido de atmosfera.

Sejamos honestos: o factor principal que valoriza “Shenmue” (e o seu sucessor espiritual, a série “Yakuza”) é o facto de nos dar um vislumbre de uma cultura absolutamente exótica, não só por momentos dramáticos e sociedades secretas, mas pela forma como o mundano de outras terras parece mágico aos nossos olhos. “Shenmue 2” supera o primeiro jogo neste respeito, porque já de si é uma exoticização japonesa da cultura chinesa. O jogador ocidental está portanto perante um clusterfuck de fetishismos, ideias feitas e tímidas tentativas de aproximação cultural genuína – tudo isto com uma excelente banda sonora, um enredo excitante e gráficos que, apesar da sua idade, ainda conservam a sua beleza. Que mais se pode desejar?

Daniel Reifferscheid

ILUSTRAÇÃO DE JOÃO RODRIGUES.



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