Lomo

Uma marca, um conceito, um culto. As máquinas que mudaram o mundo da fotografia.

Não pretendo de todo fazer uma apologia da marca, mas a coisa está tão bem articulada que nos obriga a falar das máquinas como sujeitos e, assim, todas têm o seu nome próprio e um único apelido comum sempre indispensável, de renome internacional. Deste modo, não será fácil que isto não soe a panfletário, mas não passa de uma opinião não remunerada pela marca inevitavelmente presente em cada parágrafo.

Mas era bom que a vida fosse como nos livros lomográficos que folheio… O que me atraiu numa primeira impressão foi, sem dúvida, a faceta quase onírica que o mundo da imagem-lomo por vezes transmite.

Não pense, lomografe.

Dentro do “frenetismo imagético” que nos trouxe sobretudo o mundo digital, a lomo conseguiu just in time criar um conceito, ou mesmo um filosofia do fotografar, assente no velho sistema analógico dos rolos de 35 mm, mas com o espírito de aventura mais característico da era digital, o disparar sem pensar. O lema da lomo adequa-se, fica bem, mas talvez seja sensato não o levar assim tão à letra.

A “máquina-mãe” da instituição austríaca é uma pequena câmara portátil com aspecto e cheiro de maquinaria da velha guarda, com um funcionamento algo sui generis, mas de fácil habituação. Conhecendo minimamente as implicações do que é fotografar e sobretudo as limitações que existem, o desempenho desta máquina pode de facto ser surpreendente.

Além deste tradicional modelo de inspiração soviética e a sua característica luminosidade da lente, a marca oferece um sempre crescente número de máquinas de baixo custo – materiais de não muito alta qualidade – e resultados que podem ser mágicos e, regra geral, bastante agradáveis. Quatro lentes paralelas com quatro disparos descontínuos, quatro lentes em cruz, oito lentes, nove lentes, máquina estanque para actividades na água, flashes coloridos, adicionais de efeitos para as lentes, máquinas de médio formato, máquinas descartáveis, etc… A verdade é que dá vontade de ter todas.

Devo frisar que é bastante comum que ao início possa haver decepções com o resultado dos rolos… embora às vezes o desconhecimento de causa também possa ser uma vantagem. Só a experiência com cada um dos modelos pode definir capacidades e limitações para cada fotógrafo, e dizer o que resulta melhor em determinadas condições.

A maior parte das lentes destas máquinas não têm um bom desempenho com condições de luz pobres. Mas para contornar e tirar vantagem desse problema, hoje já quase todos os modelos têm um flash, incorporado ou não.

Embora não deixe de ser uma fotografia do real, a lomografia pode ser algo mais, conferir algo mais a esse real. Seja no realce apetecível que dá às cores fortes, seja na sua absorção das luzes artificiais, ao esfumado que por vezes tão bem se adequa aos ambientes, seja pela composição do disparo descontínuo das suas quatro lentes, ou das oito…

A experiência com a lomografia é uma permanente luta de descoberta e de adaptação a cada uma das diferentes máquinas, o que faz com que se represente o que se vê de uma forma diferente. Ou seja, com certeza que um mesmo objecto será fotografado de forma diferente consoante a máquina que se está a utilizar, para que se possa tirar obter um melhor resultado.

Por norma, lomo é cor, é movimento. No fundo, os mesmos resultados poderiam ser obtidos através de pós-produção digital mas estas frágeis máquinas ainda o fazem por nós sem que tenhamos de pensar muito, acrescentando o factor ACASO, que lhe confere um gostinho muito especial…

Não é um tipo de fotografia apreciado por todos, nem teria de o ser, não é uma fotografia de puristas da técnica, nem com as exigências do documentalismo. Mas pode ser considerado um desafio e eu vejo-a também como mais uma forma de linguagem.

Confesso, aqui que ninguém nos ouve, que não posso concordar com os mandamentos da marca. Enfim, o marketing… Mas espero que os senhores das 1001 embaixadas lomográficas espalhadas pelo mundo continuem a criar e adaptar máquinas fantásticas, a promover concursos e a publicar livros e sites. Conseguindo contornar a inevitável tendência para o consumo e para o disparo exagerado, pode fazer-se um bom uso destas máquinas.



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