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De malas aviadas

Para um hotel distante.

Cartas atrás de cartas ou, melhor dizendo, emails e um site. Durante seis meses, seis artistas de diferentes recantos europeus preparam-se para um espectáculo inteiramente produzido à distância. E enquanto o dia não chega, vão marcando encontros sem hora, nem sítio, num outro hotel, muito longe. “Long Distance Hotel” até 30 de Julho, no Maria Matos.

“Imagina que só é possível captar um momento numa fotografia e nunca captá-lo na realidade. Esse momento nunca poderá ser vivido ou experienciado no presente. É este o tempo do Long Distance Hotel”. Começa assim uma das muitas cartas trocadas entre estes seis artistas europeus. Estão todos enamorados pelo teatro e andam há seis meses a preparar o seu primeiro encontro.

O romance epistolar já não é feito com tinta nem papel perfumado. Em pleno século XXI, um site serviria muito melhor o propósito de alojar correspondência. Tiago Rodrigues, um dos portugueses envolvidos no projecto, reflecte sobre isso mesmo, numa das suas cartas: “ Ao concentrar toda a nossa comunicação em material escrito, nós fazemos e documentamos um acontecimento, em simultâneo; estamos dentro e fora do projecto; a actuar e a arquivar”.

A ideia deste projecto artístico nasceu justamente pela mão de Tiago, na Amadora. O actor e encenador português pretendia formar uma rede criativa e para isso recorreu a pessoas que conhecia, mas que eram desconhecidas entre si. Juntou-se a outro português, Tónan Quito, a Gilles Polet (Bruxelas), Sergej Pristas (Zagrebe), Judith Davis (Paris) e Leo Preston (Bergen) e criou um espectáculo que terá lugar num hotel. Neste caso, o Hotel Lutécia onde está alojado o Teatro Maria Matos, em Lisboa.

Para além de servir como sala de ensaios, a Internet serviu como espaço de discussão, onde olhares marcados por nacionalidades diferentes, confrontam-se sobre diversos assuntos. Os conceitos de nacionalidade e diversidade cultural são postos à prova. O próprio modo de comunicação é testado. “Não nos é permitido ver o modo como alguém caminha ou o jeito como se senta. Não podemos interpretar sinais para além do que é incluído no que escrevemos”, escreve Tiago Rodrigues.

Mas porque nem tudo pode ser feito online, cinco dias antes da estreia, os actores encontram-se para orientar o que, até ao momento, ainda só estava escrito. Na bagagem, trazem diferentes formações e expectativas. O que esperar da estreia?

A entrada do público é feita pelo corredor dos actores. No caminho para o palco, junto à porta de um dos camarins, lê-se escrito a rosa: “Next stop, New York!”. Os espectadores têm lugar no palco. Existem quatro cadeiras alinhadas na diagonal e por baixo delas, fios azuis, verdes e amarelos que mais parecem delinear o mapa-mundo. Chegámos finalmente ao quarto de hotel de todos os encontros.

À medida que entram as últimas pessoas do público, algumas movimentações dos actores são visíveis no palco. Chegou a hora de saber o que têm para nos dizer. A verdade é que mais não fazem do que partilhar algumas das cartas com o público, como se fosse a primeira vez que contassem aquela história.

Sergej Pristas conta de um documentário que viu, recentemente, na BBC. Na altura, questiona-se sobre a habitual voz-off que caracteriza esse tipo de programas. “Como seria se tivéssemos uma voz que narrasse a nossa vida permanentemente?”. Pelo meio, há deambulações sobre a necessidade humana de classificar e catalogar tudo que o rodeia; relação homem-máquina e um certo fascínio com o Google Translator.

Tiago Rodrigues traz-nos a capacidade de fixação temporal da fotografia. Uma mulher que cai enquanto um gato, ao fundo,  lhe rouba o protagonismo da foto. Judith fala-nos da experiência transcendental que teve em Zabriskie Point, local onde a terra e o céu se envolvem, como se de um momento íntimo se tratasse. No meio das várias histórias, Tónan tenta responder-lhes, como em casa, ao ler os e-mails e confessa-se perdido: “Quem é quem? Quem disse o quê? Está onde? Onde estou?”.

Enquanto se conta uma história, os outros actores movimentam-se no palco. Na voz-off ouvem-se ambientes de aeroporto e tentativas de marcar o tempo: seis e meia, sete e meia, meia-noite… até que chega ao tempo real onde decorre a peça: in-between – no limite entre tempo e espaço.

“Podemos admitir que a comunicação virtual é bastante mais exacta da que poderíamos desenvolver, quando nos encontramos fisicamente. Tudo é um documento. Não há palavras ditas que possam ser esquecidas. Podemos sempre lembrar as palavras exactas que cada um de nós usou em determinado momento”. Tiago Rodrigues termina assim uma das suas cartas.



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