rdb_artigo_90

Loucos finais dos anos 90

“A tua geração não tem nada de interessante para comentar. Que pena, pois geração como aquela é pena não voltar haver.” [Sic]

A declaração pertence a Paula que no Fórum Mistério Juvenil, em defesa do texto “Geração Heidi”, enaltece as memórias que muitos trintões guardam da que foi, segundo eles, a única geração contemporânea com coisas boas para recordar.

Mal sabe esta gente que da internet apenas dominam o Hi5 e a caixa do Hotmail, acedidos, claro, através do Internet Explorer 6.0; e que gerações passadas e futuras recordam com igual saudosismo os momentos e pormenores que a tornaram única. Também aqueles que se encontram hoje em dia na faixa etária dos 20 têm as suas preciosas recordações e referências “únicas”. São disso exemplo as coisas a ser enumeradas.

No campo dos telemóveis o 6110 da Nokia era rei e senhor. E depois o 3210 e o 3310. E muitos mais se seguiram. O certo é que à entrada do século XXI a Nokia dominava por completo o mercado por estas bandas (e lá fora também). Os mais afortunados davam-se ao luxo de se passear com o minúsculo 8210 que, apesar de atraente para os standards da época, apresentava umas teclas tão pequenas que dificultava actividades juvenis como a escrita de SMS e a partida de Snake. Por isso mesmo, uma marca de guloseimas criou uma caixa de gomas replicando este prodígio do design nórdico. Quantas brincadeiras de recreio isso nos valeu.

Capas personalizadas e personalizantes compradas nas lojas dos 300 eram prática comum, apresentassem elas os Limp Bizkit, o Bob Marley ou a folha de Cannabis. Os colegas mais bizarros usavam um Ericsson T28sc e eram bastante agressivos quanto à suposta superioridade do seu aparelho (numa espécie de vôvô da actual batalha Apple Vs PC). Anos depois surgiu o 7110 com o seu scroll inovador (numa altura em que 90% dos ratos de computador ainda eram de bola) e funcionalidades WAP.

Vale a pena recordar que neste boom do uso de telemóveis, tão alternativo e jovem se mostrava o possuidor de telefone portátil (abraçando a massificação dessa inovação tecnológica), como o adepto da liberdade sem telemóvel (que jurava a pés juntos nunca comprar um telefone celular na vida). O primeiro mostrava estar em sintonia com as novas necessidade modernas, o segundo mostrava a sua irreverência. Irreverência que se revelaria prejudicial não para ele, mas para os amigos que eram obrigados a fazer trabalhos de escola com o rebelde anti-tecnologias e que não tinham forma de o contactar.

Este tipo de indivíduo, no entanto, está tão ocupado no seu movimento contra-cultura e contra-sistema que não repara nas vítimas que a sua teimosia ceifa. Depois havia ainda os telemóveis exclusivos para os mais pequenos, geralmente muito redondos, compactos e simples, de visual garrido, com um número muito limitado de opções e um tarifário que nem os pais percebiam. Este nicho de mercado é tão insondável que até hoje a TMN ainda não acertou na receita.

Numa época sem redes sociais e sem MSN, a maneira de comunicar sem custos com o primo que está a tirar o doutoramento na China, ou com a prima que está no Carnaval do Rio era o mIRC. Este podia mesmo ser o slogan de um qualquer provedor de internet de então (vulgo “Telepac” e “Esotérica”) para promover o uso da rede global. No entanto, a maioria dos jovens desprezava a possibilidade de conhecer e comunicar com outras culturas, enfiando-se no canal #portugal a tentar engatar umas gajas. Conversa para cá, foto para lá (quando a ligação assim o permitia), a conta telefónica a subir, começam a aparecer os primeiros casos patológicos de vício da internet e os jornais já têm um assunto “geek” sobre o qual podem escrever nas crónicas de domingo ao mesmo tempo que alertam para os perigos de um mundo que mal conhecem.

Ainda no mIRC: havia canais para todos os gostos, desde clubes de fãs da banda Guano Apes (não eram tão bons como o nome sugere) até grupinhos dos fixes do 12ºA. Os mais ousados dirigem-se ao #lésbicas para um contacto virtual e directo com o outro lado da vida, sentindo-se ludibriados ao fim de algum tempo por apenas encontrarem curiosos como eles próprios. Será que no #sexo terão mais sorte? Usuários coleccionam OPs quais caçadores de prémios por ser prestigiante, para poderem mudar o tópico do canal e para expulsarem a malta mais aborrecida. Depois de uma semana no canal #antas marca-se um encontro na Praça Velazquez. “Como vou de vermelho, vais-me reconhecer logo!”. Os jovens passam as noites nisto, a gozarem uns com os outros no canal da escola. Está na altura de marcar uma jantarada. Pizza Hut da Foz ou da Boavista? Quem imprime os cartões com os nicks de cada um? A difícil escolha do script que melhor condiz com a nossa personalidade, a primeira drive de CDs aberta à distância – tudo isto era o mIRC.

Os primeiros contactos com a pornografia já não são feitos através dos VHS malandros do pai, mas vendo capas da Playboy e fotos da Pamela Anderson online. O visual Lara Croft encanta crianças e adolescentes com os seus seios poligonais. Pena a internet ainda não ter fotos de todas as mulheres bonitas da página três da Nova Gente. Os mais afoitos imprimem JPEGs de má qualidade que levam com orgulho para a escola, chegando a trocá-los por dinheiro ou bens de primeira necessidade (geralmente gomas). Os miúdos com irmãos mais velhos são os que melhor se safam neste campo.

Em termos de estilo pessoal, nunca o mesmo foi tão volátil: numa semana és dread, na seguinte és beto. Os dreads não gostam de betos. Os betos usam penteados característicos, já os dreads afirmam a sua individualidade na largura das calças, geralmente da Resina. O “surf wear” é uma grande sensação no vestuário juvenil em geral, assim como as calças de bombazina com bolsos de lado.

Na programação televisiva a SIC é número um incontestável. Todos os jovens gostam de ver o anime Dragon Ball. Nas escolas com televisão na sala de convívio os alunos fazem grandes ajuntamentos nos intervalos para ver em conjunto o novo episódio. O merchandising inútil passa a objecto de desejo, até bolos a Panrico lança para o mercado. A má dobragem portuguesa suscita dúvidas nos nomes de algumas personagens (Kuririn?, Grilin?). Os mais entendidos tentam explicar aos colegas o que vai acontecer nos próximos episódios; alguns sabem o que dizem porque o tio veio de Espanha e já lhes contou. Alguns artistas em final de carreira tentam lucrar com o entusiasmo juvenil.

O recém-falecido Badaró foi um deles ao cantar a sua própria versão do genérico do seriado. Mas o caso mais glorioso é o de Cândido que lançou o fantástico álbum “Vivam os Meus Amigos” em 1997. Este trabalho merecia um artigo próprio, mas basta dizer que só raramente as letras têm remota relação com a narrativa de Dragon Ball porque claramente nenhum dos seus responsáveis alguma vez viu um episódio. Havia ainda os colegas mais sortudos que já tinham ligação à internet e podiam encher uma disquete inteira com jpegs de baixa resolução das suas personagens preferidas. Depois era só levar para a escola e partilhar, se bem que alguns rapazes mais oportunistas faziam negócio. Os mais autónomos desenhavam eles próprios as suas personagens preferidas do anime.

Chega a idade das primeiras saídas. Por norma consistem em ir ao shopping ver um filme mau com colegas de turma numa tarde de fim-de-semana. É aqui que eles e elas usam socialmente perfume pela primeira vez. Depois os pais vão buscá-los, claro. Estas ocasiões são marcadas pelas primeiras insinuações sensuais como o uso do primeiro decote ou aquela “porradinha” entre ele e ela carregada de erotismo juvenil encapsulado. Geralmente o alvo é a amiga com o peito mais desenvolvido.

Fica assim feito um fresco do que era ser jovem na segunda metade da década de 90. Não será o retrato mais abrangente possível, mas matou saudades.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This