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Loucos inícios dos anos 2000

A febre do novo Milénio: Y2K, Windows Millennium, Dreamcast, Big Brother, Napster entre outros falhanços...

As épocas temporais não são dossiers separados por mini-stickers coloridos. Pelo contrário, entram umas dentro das outras como ondas que revolvem as memórias das nossas referências culturais.

Na viragem da década surge um momento irrepetível: o novo milénio. A febre do ano 2000 é tão grande que vira um fad horroroso, alastrando-se da música (o álbum “Millennium” dos Backstreet Boys) à informática (Windows ME, o pior sistema operativo da marca até ao Vista), passando pelo wrestling profissional (Y2J era o stage name da super-estrela homoerótica Chris Jericho). A chegada do novo milénio age como uma espécie de marca universal, vindo, num surto de originalidade, a dar nome a muitos produtos e a ser fonte de muitas referências.

Como o milénio provou ser altamente vendável, as corporações e os media juntaram forças para nos obrigar a festejar a passagem do milénio – duas vezes. Se em 1999 os poucos iluminados que defendiam que o novo milénio só chegava em 2001 eram alvo da troça dos amigos, um ano depois alguém resolveu ser cientificamente exacto e capitalizar na franchise do milénio e voltamos a celebrar a efeméride cósmica.

Ainda assim, esta segunda passagem gerou pouco impacto no público, que na noite de 31 de Dezembro de 2000 se encontrava concentrado em frente à televisão para assistir ao grande final do mais polémico programa de então, o Big Brother, o trunfo da TVI que finalmente substituía a SIC como líder dos canais generalistas nacionais.

E, se hoje em dia falsas polémicas são criadas em torno de programas de televisão, actuando como uma espécie de máquina de suporte de vida de um meio de comunicação cada vez mais afastado das luzes da ribalta (olá Momento da Verdade), neste passado recente o Big Brother conseguiu realmente dividir opiniões e gerar frases famosas como “ninguém vê, mas é o programa mais visto”.

Com o devido distanciamento, exaltamos agora o contributo tecnológico que este programa da Endemol trouxe. A possibilidade de espreitar o WC da então mais famosa casa de Portugal através do Real Player, ainda que numa resolução que faz dos actuais telemóveis de gama média verdadeiros ecrãs HD e com um streaming que fazia a transmissão assemelhar-se a um slideshow, foi revolucionária nessa época.

Os momentos inéditos do dia-a-dia de Marco, o rei do burgesso, da lésbica que comia iogurtes e criava revoluções sexuais da fermentação bacteriana e do paratrooper burro, ainda que desprovidos de qualquer interesse já que não passavam no compacto televisivo, podiam ser tidos como uma espécie de bónus exclusivo que premiava os fãs mais assíduos, os mesmos que mais tarde subscreveram o canal da TV Cabo destinado exclusivamente a uma emissão de BB 24 horas por dia. Resta deixar uma menção ao Zé Maria, um ícone semi-esquecido que é visto ocasionalmente no programa da Fátima Lopes a bancar o Jamie Oliver de Barrancos.

Vencedor do primeiro Big Brother (foram quantos mesmo, contando com a versão VIP?), arrecadou o prémio devido à sua simplicidade com que todos se identificaram. Não praticava surf ou qualquer arte marcial, não era homossexual (até ensaiou um “golo” com a sua colega de casa oxigenada) e vinha de uma cidade tradicional acossada pelos poderes liberalizantes de Lisboa. A sua vitória gerou uma série de spin-offs do programa, do qual se destaca o “Mulheres de A a Zé”, que pretendia arranjar uma namorada para Zé. Infelizmente, o nosso barranquenho preferido saiu da casa sem ter afogado o ganso. Anos mais tarde, o mesmo Zé Maria, esquecido por todos os que o aclamaram como herói do Joe the Plumberismo nacional, tentou cometer suicídio trajando apenas uma toalha e munido de um gato debaixo de cada braço a que chamava de bombas. Uma parábola urbana comparável ao filme “The Wrestler” protagonizado por Mickey Rourke.

A SIC contra-ataca e tenta competir com a liderança da concorrente de Queluz de Baixo. Lança, então, uma série de variações do Big Brother tentando saltar no bandwagon do reality show, mas sem obter grande sucesso. Qual era a piada de voltar a ver a mesma coisa com pessoal preso por algemas, ou a trabalhar num bar de periferia?

Ainda no mundo televisivo, a geração que outrora cresceu com programas como Rua Sésamo, onde era notória a preocupação de “ensinar, brincando” estava agora mais adulta e tinha o privilégio de presenciar aquela que é talvez a última verdadeira inovação em Portugal: o nascimento da SIC Radical. Este canal tornava novamente dignificante o acto de ver televisão, com a sua completa oferta de seriados e programas inéditos em Portugal dedicados ao público da faixa etária 18-35 (convém recordar que a largura de banda disponível na altura na maioria dos lares não possibilitava a partilha de séries com a mesma facilidade que hoje).

De repente era cool voltar a ver desenhos animados, mas sobre quatro putos do Colorado que tinham o Isaac Hayes a trabalhar na cantina da escola, ou usar o cabelo e humor escatológico de Howerd Stern. O cabelo talvez não, mas os convidados ousados do radialista eram conversa garantida para a paragem de autocarro ou fila no Mickey D’s.

A democratização da internet acontece com o fim dos pacotes pagos e a inundação de diversos operadores que permitiam um acesso em que apenas se pagava o período telefónico utilizado. De repente, shoppings, supermercados e áreas de serviço são inundadas com CDs oferecidos pela Clix, Sapo, ONI ou iol com o software necessário para que os possuidores de um computador com modem, e com um mínimo de conhecimento informático, se pudessem ligar à rede global.

No entanto, os mais nerds, sempre na crista da onda, já se encontram ligados pela Netcabo, que possibilita velocidades de ligação dez vezes maiores do que os míseros 56 kbps habituais, bem como acesso durante tempo ilimitado. Assim se dão os primeiros passos na partilha de ficheiros que hoje conhecemos e na construção da Web2.0.

O Napster encabeçava, então, os serviços peer-to-peer, permitindo a partilha de música no formato mp3 e agitando as editoras musicais, que a todo o custo lutavam contra os estragos que este avanço lhes causava. Mas nem tudo eram boas notícias para os utilizadores: conseguir arranjar um álbum completo era um feito ao alcance de muito poucos pelo trabalho que exigia, sendo necessário andar a pescar as várias músicas entre ficheiros corrompidos, demonstrando-se através desta dedicação um amor à música em formato digital ausente nos GBs de discografias completas descarregados em massa nos nossos dias.

O Napster, mártir da imposição do mp3 no panorama musical na década que começava, fechou as portas em 2001 depois de processado pela banda de casamentos Metallica. Acusação? Promover involuntariamente a difusão dos seus álbuns com 10 anos que já ninguém queria ouvir. A indústria discográfica podia ter ganho a batalha, mas hoje, com o devido distanciamento, perdeu redondamente a guerra, e está hoje num processo de reestruturação que ainda parece incompleto e desajustado.

Com o triunfo do mp3, e numa altura em que os discmans ainda eram os reis da música portátil e em que leitores de minidisc procuravam um lugar ao sol em vão, surgem os primeiros leitores do formato. O Rio, da extinta Diamond, com os seus modestos 32 MB foi o primeiro a encontrar-se nas prateleiras. As músicas eram injectadas através de um cabo de porta paralela porque o USB ainda não era o que é hoje. E quem se lembra do NOMAD, jukebox da Creative com o seu formato de discman pouco prático e pesado que permitia, segundo a publicidade da marca, incluir até 150 álbuns nos seus 6 GB de capacidade.

Outro formato que se impôs na viragem do século foi o DVD. Apesar de presente por cá desde fins de 1998, vendido a preços de 30€ por filme (50€ no caso de dvds musicais), é inquestionável a impulsão proporcionada a este formato pelo lançamento da PlayStation2, a consola da Sony com leitor incorporado. Muitos pais de família investem nesta plataforma de jogos (a primeira a ser vendida como entretenimento familiar) sob a desculpa de estarem a comprar o leitor mais barato do mercado, jogando depois o Gran Turismo3 e o Fifa2001 às escondidas. No Japão, o aparecimento da PS2 fez florescer o número de lojas de DVD, até então inexistentes.

Ainda no mundo das consolas, e por volta da mesma altura, a SEGA, powerhouse japonesa das últimas duas décadas, anuncia que vai descontinuar a Dreamcast e abandonar a produção de consolas, dedicando-se apenas à produção de jogos (em que 80% dos quais são tentativas miseráveis de capitalizar na franchise Sonic). O choro corre livre.

Outra tecnologia emergente é a das comunicações móveis. Depois de uma década de 90 que surgiu para tomar posições e que em 1998 vê nascer a Optimus, a operadora da Sonae, os anos 2000 serão a década do “um telemóvel por pessoa”, das versões infantis falhadas que a TMN lançou e da campanha de marketing da Vodafone que compra a Telecel em 2000 e inunda todos os canais de comunicação com o slogan “How are you?” acompanhado da música indie-fixe dos Dandy Warhols.

Isto além de ter patrocinado as camisolas do Benfica. No que aos serviços diz respeito, e bem antes do arrojado 3G e tri-band, o WAP é o serviço mais usado por playboys com despesas pagas pela empresa do pai. Claro que a única utilização possível é ler anedotas más durante uma aula aborrecida ou rir com a aleatoriedade do nosso signo do horóscopo.

E será possível falar da viragem de século sem mencionar o 11 de Setembro? O dia de 2001 em que todos nos prendemos à televisão e desejamos ter Twitter com 7 anos de antecedência para partilhar os nossos medos e receios neste mundo pós-ideológico. A catástrofe ficaria completa a 14 de Junho de 2002 quando a selecção portuguesa perde por um golo com a congénere sul-coreana no Mundial FIFA 2002 e é eliminada com estrondo.



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