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Lourdes

Felicidade abençoada ou falsos milagres?

Um dos filmes que mais surpreendeu o júri no Festival de Veneza em 2009 (conseguiu 6 dos 7 prémios a que estava nomeado) vai estrear-se no nosso país a 12 de Maio (será coincidência este filme estrear em vésperas de mais uma comemoração das aparições de N.S.Fátima a 13 de Maio?).

Coincidências à parte, a realizadora Jessica Hausner apresenta-nos na sua terceira longa-metragem e ao som de Avé Maria de Shubert uma rapariga chamada Christine (representada por Sylvie Testud que recebeu o prémio de melhor actriz do European Film Awards em 2009) que vive “dentro” de um corpo paralisado e por isso se vê destinada a andar numa cadeira de rodas. Contudo, a expressão do seu rosto mostra ao espectador uma sensação de esperança e de luta e nunca uma imagem de piedade ou de tristeza. Mostrando sempre uma enorme força de vontade para “conseguir um dia viver em liberdade”, Christine embarca numa viagem espiritual e de peregrinação até ao Santuário de Lourdes onde a esperança por um milagre espreita a cada esquina.

Esse olhar de esperança, e por outro, lado de desconfiança é explorado pela realizadora através de outras personagens cujo o nome cai no esquecimento, mas que os grandes planos de câmara falam por si: uma mãe que desespera à três anos que um milagre cure a sua filha com problemas esquizofrenia; duas senhoras de meia-idade (uma espécie de Beatas falsas) que ao longo do filme questionam realmente a veracidade dos acontecimentos milagrosos que se desenrolam ao longo da trama; e, para grande espanto de qualquer um, até um romance entre a jovem Christine e um jovem voluntário / enfermeiro dá que falar (e que pensar).

Hausner recorre novamente aos planos fixos, embora com mudanças de cena rápidas, para nos apresentar todo o conjunto de rituais de purificação, sem que haja a pretensão de ridicularizar a fé. Por oposição à personagem de Christine, é o Sacerdote que mostra ao espectador as dúvidas e contradições de vontade dos fieis: curar os males do corpo? Ou aceitar a vontade divina?. A ambiguidade do conceito de milagre, questionar o poder da fé e a vontade de Deus (como sendo Ele apenas bom ou Todo-O-Poderoso), assim como todo o poder de merchandising e venda de artigos e até o prémio para o melhor peregrino do ano, fazem com o espectador se sinta espiritualmente livre, independentemente de ser ou não religioso.

Todo o filme se apresenta como uma obra em aberto e cabe ao espectador decidir, ao som de Felicita de Al Bano Carrisi, se o milagre é ou não eterno e sempre com um sorriso nos lábios.



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