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“Lovelace”

Um objecto chamado mulher.

Nas últimas décadas, vários filmes se debruçaram sobre o universo da pornografia, especialmente no período em que ela se tornou iconográfica, anos 70 e 80.

Entre eles, os mais relevantes foram sem dúvida: “Boogie Nights e “Wonderland”, mas curiosamente em ambos os casos a história foi contada mais de um ponto de vista masculino do que do feminino, piscando o olho claramente ao já falecido John Holmes, a maior estrela masculina do cinema pornográfico de então.

Desta vez a história é contada de uma perspectiva diferente, sem contudo deixar de realçar vários pontos em comum e que são conhecidos do meio: Álcool, drogas, baixa auto-estima, abuso de uns e sujeição de outros.

Usando como base o livro “Ordeal” escrito por Linda Susan Boreman (nome de baptismo de Linda Lovelace. Foi também Linda Traynor e Linda Marchiano, pelos seus 2 casamentos), Andy Bellin (screenplay), Rob Epstein e Jeffrey Friedman (realização), construíram este filme, que é claramente o Biopic da estrela do filme de maior sucesso da história do cinema pornográfico.

E aqui o maior sucesso não tem a ver apenas com os resultados das bilheteiras, mas com o impacto que teve na sociedade Norte-Americana, pois foi visto massivamente e em várias salas de espectáculos do país, que até então nunca tinham passado filmes com sexo explícito.

Estávamos então em 1972 e a revolução de ideais e costumes estava em ebulição.

Não é por acaso que Linda Lovelace chegou a ser considerada como uma representante da emancipação feminina na época, epíteto que contudo nunca aceitou.

Algo que também nunca mais aceitou foi entrar novamente num filme classificado como “X”, designação dada aos filmes de adultos, tendo apenas participado posteriormente em dois filmes eróticos ou softporn. Um deles foi, “Garganta Funda 2”.

Que razões podem ter levado aquela que foi a mais bem-sucedida actriz pornográfica até então, ter decidido a não mais entrar em filmes de adultos e a tornar-se uma crítica feroz da indústria pornográfica?

Só o podemos entender através das suas confissões escritas e agora neste filme, que é na sua essência a transposição para o grande ecrã da versão de Linda acerca dos factos.

O filme leva-nos então ao final da adolescência de Linda (Amanda Seyfried), uma jovem criada num ambiente severo, com uma mãe particularmente dura e opressiva (Sharon Stone no papel de Dorothy Boreman) e um pai (Robert Patrick no papel de John Boreman) mais afectivo mas algo submisso.

Incentivada pela sua amiga Patsy (Juno Temple), Linda passa a acompanhá-la como dançarina num ringue de patinagem local e é aí que vai conhecer Chuck Traynor (Peter Sarsgaard), com quem casará e que a introduzirá a um mundo novo, que começa a existir primeiro apenas no seu quarto, para de seguida ser alargado aos clubes, aos hotéis e mais tarde às salas de cinema.

Importa aqui dizer que em termos de realização foi escolhida uma solução (correcta na minha opinião) que permite mostrar duas versões do mesmo acontecimento, primeira aquela que transparece para o exterior e que é a esperada de uma jovem mulher que tenta atingir o sucesso a qualquer preço – e que era aquela dominante para todos os observadores do fenómeno Lovelace – e uma outra versão que retracta o sofrimento sofrido por Linda, que foi escravizada e coisificada primeiro por um marido e depois pelo resto do mundo. Tornando-se menos que uma mulher, menos que um corpo, mas apenas uma especialista de um acto sexual específico…reducionismo maior é de facto muito difícil.

No seu livro e em entrevistas televisivas, viria ela a dizer mais tarde (já casada com o seu segundo marido) que trabalhou 17 dias no cinema pornográfico e que não era justo ser estigmatizada por isso para o resto da vida…mas foi.

Quando morreu aos 53 anos, após um desastre de viação, a notícia anunciava a morte da antiga protagonista de “Garganta Funda”.

“Lovelace” é sem dúvida um filme interessante com boas ideias, competente do ponto de vista técnico, mas peca na minha opinião por uma unidirecionalidade que se nota na narrativa:

Nunca existe um contraditório, nunca somos colocados no centro das opiniões divergentes como a de Marilyn Chambers, a 2ªa mais famosa actriz porno da época, estrela de “Atrás da Porta Verde” e curiosamente a 2ª mulher de Chuck Traynor, que chegou a entrar em polémica com Linda.

Mas também na direcção de actores, com custo para a interpretação de Amanda Seyfried, que não consegue praticamente passar do registo, ingénua/sofredora (não tenho dúvida que são os traços mais marcantes da personagem, mas limita o trabalho interpretativo).

As melhores interpretações acabam por ser as de Peter Sarsgaard, que dá sempre um bom cabotino e a quase irreconhecível Sharon Stone, bastante convincente no papel de uma mãe inflexível, mas capaz de sentir a dor do arrependimento.

Vale pelos muitos alertas que deixa, no que diz respeito à coisificação de um ser humano pelos outros e por si mesmo.

Acredito que a febre revivalista que este filme vai despertar quanto ao visionamento do filme “Garganta Funda” propriamente dito, não pode deixar de ser afectada pela consciência que a sua estrela maior ali estava, apenas para salvar a sua vida…e isso não é coisa pouca.

Sai com Satisfaz bem!

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