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Lubomyr Melnyk @ Culturgest (02.10.2019)

Lubomyr Melnyk fez questão de apresentar separadamente as quatro peças de música contínua para piano que tinha na manga para a noite de ontem. Mostrou uma faceta comunicativa que pode não ser completamente perceptível ao olharmos para a sua figura sui generis.

Lubomyr Melnyk tem andado em tour como forma de celebrar os seus 70 anos, supostamente embalado pelo disco lançado em Dezembro de 2018, “Fallen Trees”. Dizemos supostamente porque, como qualquer artista que se preze, nesta sua passagem por Lisboa, ofereceu um alinhamento onde não interpretou qualquer tema do referido álbum. Quiçá por ser o seu primeiro grande concerto em Portugal, Lubomyr terá aproveitado a ocasião para dar uma amostra mais completa das suas composições. A ordem das composições quase pareceu ir subindo de nível de dificuldade dentro do universo da música contínua, aquela para a qual o compositor ucraniano teve que desenvolver “novos dedos”, capazes de replicarem fisicamente o que o seu cérebro imagina e coloca em pauta.

O serão no auditório da Culturgest abriu com o tema-título da sua obra de 2016, “Illirion”, uma peça mítica, quase tanto como o seu próprio autor. «Illirion» desliza facilmente, com melodias bastante fáceis de compreender por qualquer tímpano, quase nem se percebendo que se espraia por um dócil quarto de hora.

«Butterfly», o segundo tema executado pelo músico vindo da Ucrânia, move-se igualmente por uma melodia natural e até pueril, mas agregando uma vertente de música contínua mais carregada, e que parece retratar a possível evolução de Lubomyr nos meandros deste género musical, como que desafiando progressivamente a plateia e testando os limites da mesma. No entanto, ao longo da noite, deve ter percebido facilmente que o público era conhecedor e estava bastante equipado para abraçar a voz do seu piano e a destreza das suas mãos septuagenárias.

Lubomyr Melnyk fez questão de apresentar separadamente as quatro peças de música contínua para piano que tinha na manga para a noite de ontem. Mostrou uma faceta comunicativa que pode não ser completamente perceptível ao olharmos para a sua figura sui generis. Foi num desses momentos que, além das histórias por detrás das teclas, nos confessou o seu desdém pelo Spotify, baseado na repartição de dividendos que a plataforma emprega. Daí que toda a música disponível na sua zona de merchandising fossem peças impossíveis de comprar ou escutar online. E foi depois de libertar esta ligeira dose de fel que o mestre ucraniano nos invadiu de sentimentos completamente contrários a esse, com a extraordinária beleza de «Love Song / Bonnie and Clyde». Tal como o título pode deixar indiciar, esta composição foi inspirada pelo famoso casal de criminosos, mais especificamente por uma foto de Bonnie que Lubomyr Melnyk viu num livro, e que o deixou petrificado perante a beleza emanada pela vilã.

Para rematar a noite, o ucraniano reservou uma peça maior, literalmente maior, que demorou meia-dúzia de anos a completar. «Windmills», qual película, conta a história de vida e morte de um moinho, desde a sua existência, à sua vida mecânica, à sua destruição às mãos das forças da natureza, até à sua subida aos céus e apreciação divina por tudo quanto a sua existência lhe permitiu experienciar e sentir. O primeiro ciclo desta composição, que se estende por dezenas e dezenas de minutos, remete-nos para um industrialismo que traduz a paixão de Lubomyr Melnyk pelos sons da maquinaria, e poderia ter sido retirado de um trabalho de Einstürzende Neubauten, por exemplo. Nas etapas seguintes de «Windmills» é o próprio pianista ucraniano que assina movimentos mecânicos perfeitos, encarnando um verdadeiro moinho no topo da sua forma, transportando-nos para o campo onde a referida estrutura jazia. Estas duas fases acabam praticamente por unir-se para anunciarem a chegada da temível tempestade que acabará por provocar o fim do moinho ao abusar da perfeição dos seus mecanismos, até atingir o nirvana. Quer a peça, quer nós que sentámos a assistir, testemunhando a divindade que é a obra de Lubomyr Melnyk, que, no entanto, não quer que olhemos para ele como um ser superior. Pelo contrário, o músico fomenta a prática do piano, motivando os músicos presentes (e não só) a um autêntico cross-fit pianístico que lhes permita desenvolver os músculos necessários nos membros superior, e cerebrais também, para que reproduzam os seus exercícios sónicos, e eventualmente enriquecerem a corrente da música contínua que tão elevadamente cintilou ontem na Culturgest.


Alinhamento:

– Illirion
– Butterfly
– Love Song / Bonnie and Clyde
– Windmills



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