Luís Brito

Luís Brito

«Sobre a mudança pessoal, farei minhas as palavras de um dos meus melhores amigos, a quem perguntei o que é que ele via diferente em mim desde o meu regresso: “mais tranquilo, mais calmo e mais humano”.»

Quando pensamos em literatura de viagens, muito provavelmente virão à memória nomes como Paul Bowles, Paul Theroux ou, mais recentemente, Alexandra Lucas Coelho. Luís Brito, rapaz dos seus 27 anos, decidiu poupar algum dinheiro – processo que levou quatro anos -, meter a mochila às costas e tentar a sua sorte, embarcando numa viagem que o levou a países como Moçambique, Indonésia, Índia, Turquia, Argentina e Chile. O propósito último foi sempre o mesmo: viajar para escrever, publicar em Portugal e, porque não dizê-lo, deixar a família orgulhosa.

Alcatrão” (Abysmo, 2013), livro escrito como uma espécie de postais ilustrados onde as imagens são inventadas pelo leitor, é o resultado dessa imensa viagem, um relato sobretudo de emoções e das pessoas que o autor encontrou pelo caminho e que, de certa forma, o marcaram (por vezes transformando-o).

Os leitores que seguirem viagem encontrarão paisagens de fazer acelerar a pulsação cardíaca, presenciarão pequenas epifanias, partilharão estranhos rituais e ameaças de feitiçaria, encontrarão motivos para torcer o estômago, farão surf de peito aberto, viajarão de bicicleta, de moto e à boleia, assistirão a wrestling entre bichos com bossas, lavarão vidros em troco de umas moedas. Mas, acima de tudo, acompanharão o autor na solidão da viagem, recolhendo fragmentos de vidas alheias para depois se fazer novamente à estrada, rumo a outra geografia humana.

A RBD esteve à conversa com Luís Brito a propósito de “Alcatrão”, já de mochila às costas não fosse o desejo de viajante falar mais alto que a literatura.

Luís Brito

(«Alcatrão», de Luís Brito, que anda nas praias de Singapura com Marta Chaves)

Chegaste a imaginar-te como o herdeiro de Luís, o hippie de Abardón, fazendo da arte um olhar atento e permanente?

Gosto de pensar que herdei muito desse homem, como de outros que conheci, tendo escrito sobre eles ou não. O tal olhar atento e compreensivo, por exemplo, é um legado que trouxe (ou fiz por trazer) para a minha vida quotidiana. Se poderia ser herdeiro da sua quinta e do seu atelier? Nem pensar: o Luís Hippie era um exímio artista e artesão, além de cuidador de animais e agricultor, e sei que o seu pedaço de terra em minhas mãos não ficava bem entregue.

«Podia temer ou tremer, mas não tremo nem temo rigorosamente nada.» És realmente assim, tão temerário?

Dou muita importância ao medo. Sei que ele me acompanha sempre, seja em viagem ou em “rotina”. Há-que saber identificá-lo, dar-lhe um nome e limites imaginário-geométricos, para que sejamos nós a ter o medo e não o medo tendo-nos a nós. Digamos que o medo deve ser consciencializado ou amestrado, e a partir daí é só colher os frutos: coragem, atenção e até diversão.

Quais são as fronteiras entre a pobreza e a riqueza?

É uma pergunta muito difícil de responder, se a quisermos tirar do contexto do “Antro-pologias parte I”. Se o dinheiro compra felicidade? Alegria compra, pelo menos… e vi muita gente alegre no Chile, sobretudo os que trabalhavam nas minas e enchiam os bolsos a bom encher.

Provaste algumas coisas estranhas, como carne de camelo ou chá de cobra. Ainda tens pesadelos com isso ou não te importavas de repetir o menu?

Não tenho pesadelos nem me arrependo – pelo contrário, essas iguarias foram experiências de confronto com o tal medo e só tive a ganhar com o embate. E lá está, são estranhas para mim mas não para quem as come todos os dias; o que é estranho só o é até deixar de o ser. Quem tem boca vai a Roma e, quando em Roma, a boca torna-se em boca de romano.

Luís Brito

(«Alcatrão», de Luís Brito, que foi ao Dubai com Filipa Silva)

Por que razão achas que «no ar da Argentina, parece haver mais Europa do que em Portugal»?

Ao conhecer os argentinos, surpreendi-me e maravilhei-me com a sua cultura geral, a riqueza das conversas, os modismos, os trocadilhos, a espontaneidade das emoções, a mordacidade dos comentários, etc. O “Q.I social”, toda uma comunicação livre e inteligente a fluir entre as gentes por entre umas gotas de melancolia. E de alguma maneira – talvez porque na escola me tenham ensinado sobre uma União Europeia de “ livre trânsito” – associo tais valores aqui ao nosso velho continente. Porém, por muito que sejamos europeus, nunca deixamos de ser portugueses, espanhóis, búlgaros… e o que aconteceu na argentina, na minha opinião pedante, depois dos fluxos migratórios que datam já de 3 ou 4 gerações, foi uma mistura ainda mais livre de “fronteiras” ou “complexos” por parte de europeus que, apesar de em difíceis condições económicas, eram altamente instruídos e espertos.

«Só de pensar que há quem ande assim todos os dias…», dizes a certa altura em jeito de desabafo. Partiste sempre com a ideia de regressar ou chegaste a pensar que poderias permanecer num dos muitos lugares por onde passaste e fazer dele o teu poiso?

Muitas vezes pensei: “aqui podia ser feliz”; como muitas vezes tive saudades de casa e ansiei pelo próximo destino, que podia ser ainda incógnito ou estar já agendadíssimo. Porém, viajei para escrever, publicar em Portugal e deixar a minha família orgulhosa, o que implica um regresso.

Mais do que uma viagem turística, fica a ideia de teres passado antes por uma jornada de sobrevivência. Em que é que esta viagem te mudou?

Não, não foi uma viagem de sobrevivência. Estive em situações que, à primeira vista, poderiam parecer perigosas mas que, com um bocadinho de frieza e objetividade, se entendem como tão “hardcore” como as situações do dia-a-dia. Heróis são os que vão para zonas de guerra, os que fazem alpinismo sozinhos, os que atravessam o Atlântico metidos num barco. Sobre a mudança pessoal, farei minhas as palavras de um dos meus melhores amigos, a quem perguntei o que é que ele via diferente em mim desde o meu regresso: “mais tranquilo, mais calmo e mais humano”. Continuo, no entanto, um gajo altamente ansioso mas não acho que seja menos humano por isso.

Sentes-te melhor no papel de viajante ou vagabundo?

Se é para me tornar vagabundo, que seja num vagabundo que viaja.

Concordas com a máxima de Bruno – “faz todos os dias uma coisa que te assuste, pois essa é a única maneira de cresceres” – ou a Indonésia fez-te pensar duas vezes nisto?

Todas as generalizações são erradas, incluindo esta que acabei de fazer e a do Bruno também. Não será essa a única maneira de crescer mas uma excelente forma de o fazer, sem dúvida. Ou então, simplesmente o que eu precisava de ouvir para me deixar de mariquices e beber o chá.

A música é um lugar, como o diz Bon Iver? E que outras canções mais guardava o teu ipod nessa longa viagem?

Penso “que grande música!” quando oiço uma faixa e fico a pensar no momento em que ela foi gravada ou composta. Como se fosse transportado para os episódios temporais à volta da criação desse tema. Como se o músico estivesse ao meu lado, como se os espaços e os tempos desaparecessem. O ipod, esse, tinha desde Midinite, Max Romeo ou Groundation a Radiohead, Queens of the Stone Age, Beatles, Leonard Cohen e Led Zeppelin ao hip-hop dos Jurassic 5, Sam the Kid e Alen Halloween.

O que é isso do turismo sexual?

Que eu tenha visto? Investidas ao sudoeste asiático em busca prioritária de prostitutas e/ou esposas. Ou investidas a Moçambique, tanto por parte de homens como de mulheres, em busca de prostitutos e/ou namorados.

Luís Brito

(«Alcatrão», de Luís Brito, na Namíbia ao colo de Stefano Nigra e Carlota Pinto)

Comparando a tua experiência noutras geografias, pareces não ter gostado assim tanto da tua passagem pela Índia, ou pelo menos esteve longe de ser um amor à primeira vista.

Aí está uma pergunta que eu esperava e temia. Adorei os meses que passei na Índia e vivi coisas incríveis. Talvez a palavra “indescritíveis” seja mais adequada, pelo que se me fez difícil passá-las para o papel. Também posso admitir que gostei tanto de lá estar, que me diverti e que me surpreendi tanto, e fumei tantos charros que a escrita passou para um plano mais secundário.

Mentes muito a ti mesmo?

Eu? Não. Eu? Sim. Eu? Às vezes. Sempre. Nunca.

Assustaste-te com Mary, a «rainha das professoras», cuja vida cabia por inteiro numa pasta verde demasiado pequena? Terá sido a visão extrema do despojamento materialista humano?

Despojamento extremo vi-o na Índia, por parte dos babás das castas Intocáveis, que lhes ordenam exactamente isso: viver sem nada, ou só com um pano e uma bengala, esperando as esmolas dadas por homens de castas mais altas. Com a Mary, pois claro que me assustei e preocupei: ficámos amigos e faz parte da amizade zelar pelo bem-estar do outro. Por outro lado, sei que aquela mulher era um poço de força e já tinha passado por muito. E também sei que “tudo vai acabar bem, se não está bem é porque não acabou”.

Acreditas realmente que a liberdade é um espectáculo, «um momento, um nada, a mentira mais linda de todas»?

Mais uma vez, torna-se-me difícil responder a esta pergunta se a descontextualizarmos do capítulo “Diário Íntimo e Ingénuo de Campo”. Mas concordo com as minhas próprias palavras que a essas se seguem: voltamos sempre a algum lado, nem que seja àquilo que temos de ser.

O alcatrão é já o teu maior vício? Há planos para uma nova aventura a esta escala?

Digamos que sou daqueles gajos que tem o planisfério como fundo no ambiente de trabalho do computador. Digamos que está a ser uma viagem incrível, esta de ter um livro nas mãos de pessoas. E ser tão bem entrevistado também.



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