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Luis Senra | Entrevista

Tocar saxofone no topo da ilha do Pico

Luis Senra é um saxofonista da ilha de S. Miguel, tendo começado a sua jornada musical aos 11 anos, a tocar clarinete e flauta transversal. Recentemente, actuou no topo da montanha do Pico e quisemos saber mais sobre esta experiência singular e de onde vem o seu interesse pela música.

Como surgiu a vontade de tocar um instrumento musical e que condições tinha a ilha de S. Miguel para se iniciar essa aprendizagem?

A verdade é que sempre tive ligação à música. Meu pai era membro de uma das filarmónicas aqui da vila e sempre me incentivou a aprender música mas foi já na escola que dei as primeiras notas, quer nas suas aulas de música, quer no seu clube de música. Com a abertura da Escola de Música de Rabo de Peixe, toda a vontade e interesse foi posta em prática e com ela surgiu a oportunidade de aprender de forma mais concreta e complexa. Quanto às condições de aprendizagem, já é sabido que as filarmónicas tradicionalmente sempre foram o lugar de aproximação à música e à oportunidade de a aprender de forma gratuita, juntado a existência de algumas pequenas academias espalhadas pela ilha. O conservatório era ainda um pouco desconhecido, especialmente a quem vivia fora da cidade, embora o meu médico de infância ficasse na mesma rua e sempre visse pela janela crianças com instrumentos na mão, chamando-me a atenção e fazendo-me ficar curioso. Talvez seja das recordações mais bonitas que tenho em relação ao meu despertar da música.

Porquê a mudança para saxofone aos 17 anos? Como foi essa adaptação a um novo instrumento?

A mudança da flauta transversal para o saxofone veio paralelamente à minha descoberta do jazz. Foi-me apresentado o saxofone e dada a oportunidade de o experimentar e logo fiquei apaixonado. A adaptação foi fácil pois em termos de escala são semelhantes e por dois anos ainda fiquei a tocar os dois. Apesar da flauta ter um som maravilhoso, o saxofone era versátil, intenso e mais divertido. Acrescentado o facto de esta mudança ter coincidido com o primeiro workshop de jazz do Hot Club no Teatro Micaelense em 2007. O jazz puxava o saxofone e o saxofone puxava o jazz e a flauta “caiu”.

Tens participado em alguns projectos musicais, seja a solo ou em grupo. Qual, ou quais, gostarias de destacar?

Admito que o trabalho a solo é o que mais me tem estimulado no desenvolver de projectos e era difícil não destacar a tour “Entre Grutas e Algares” e o projecto “O Silêncio da Montanha”. Agrada-me o facto de andar de saxofone por diferentes lugares a juntar a arte e sua conexão directa com as pessoas e a natureza. Gosto de destacar também o projecto Luis Senra Trio, com o Paulo Andrade e João Tavares, onde é trabalhado o jazz numa vertente mais free e avant gard, dando a oportunidade de trabalhar a liberdade e partilha musical num outro grau de complexidade, entrega e criação musical e atingindo palcos diferentes.

Em todas as performances que realizo, tenho como finalidade a conexão directa com o público (…) expor e despertar sensações e sentimentos.

Vamos agora ao Pico. De onde nasce a ideia de tocar no ponto mais alto de Portugal?

A ideia veio com a abertura das candidaturas para o Montanha Pico Festival, tendo os projectos enviados de incluir a temática “Montanha”. Comecei a pensar como poderia enquadrar a música neste festival e surgiu então “O Silêncio da Montanha”, um projecto em que através do som se tentasse reproduzir a sensação de silêncio no cimo da montanha e nada melhor que ir lá a cima sentir de perto este silêncio e deixar-se inspirar.

Tirando o cansaço, o frio e a falta de fôlego, o que sentiste quando chegaste ao topo e começaste a tocar? É uma experiência mais pessoal ou sentes que estás a transmitir algo para os que te ouvem?

Ao chegar foi um misto de emoções. O medo das alturas é algo que me acompanha e foi super desconfortável e assustador, contrastando com a beleza incrível do lugar, da vista, do sentimento de superação e da experiência que estava a ter. Curiosamente, a música foi a forma de me abstrair do medo, dando notas longas para relaxar e focar-me antes de me sentir apto a tocar. Em todas as performances que realizo, tenho como finalidade a conexão directa com o público. Usar a música para expor e despertar sensações e sentimentos de quem me ouve ou para construírem uma história do que sinto na altura, como uma troca de experiências e sentires, sendo elas indirectamente parte da criação, da experiência. Esta experiência na montanha não foi excepção e foi incrível ver como as pessoas conseguiram identificar na obra improvisada o meu sentimento sentido na subida, na experiência.

Qual o significado daquele grito breve e repentino que soltas entre as notas de saxofone?

O grito foi genuíno e acabou por fazer parte da performance. Surgiu na obra improvisada no momento em que reflectia o medo das alturas, o desconforto e a minha luta servindo de alívio, como que um grito de “medo, vai embora” pondo-me de novo focado. Depois do grito a obra seguiu para uma parte mais calma, mais uma vez, seguindo a minha maior tranquilidade.

Lagoa do Fogo (S. Miguel), Montanha do Pico e Vulcão dos Capelinhos (Faial) são apenas alguns dos locais naturais onde já tocaste de improviso. Qual o critério que usas na escolha do próximo “palco”? Pretendes dar seguimento a estas actuações?

Vivo num arquipélago de ilhas mágicas, de lugares incríveis, e seria um crime sentir a música como sinto e não aproveitar o que elas têm de melhor como aliado à forma como faço e vivo a arte. Tudo começou com a tour “Entre Grutas e Algares”, onde fiz performance nas cavidades lávicas visitáveis das diferentes ilhas da região, e desde logo soube que seria algo a dar continuidade, já fora da tour e das grutas. Posso considerar que o critério seja sítios incríveis onde seria improvável assistir a uma performance musical, e sem condições acústicas e técnicas que um palco normal tem, como forma de criar uma experiência musical totalmente sensorial e diferente que unifique artista, arte, natureza e público. E sim, é meu desejo dar seguimento a esta aventura e andar por aí de saxofone.

O que se segue? Tens mais algum projecto na forja que possas partilhar connosco?

Ainda não há um projecto em concreto que possa já aqui partilhar, mas posso já avançar que o meu objectivo a ser trabalhado, a breve prazo, é o de estender esta experiência e conceito musical, de ligação à natureza, para fora dos Açores.



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