Luísa Sobral

Luísa Sobral

"Acho sempre que existe um lado muito bonito na tristeza, que devemos tentar descobrir"; conversámos com a Luísa Sobral

É já na próxima segunda-feira (8 Abril) que chega às lojas “There`s a Flower in My Bedroom”, a segunda e muito aguardada rodela sonora de Luísa Sobral. Depois do sucesso alcançado com “The Cherry on My Cake”, Luísa Sobral oferece-nos agora um disco atravessado pela melancolia e com muitas histórias sobre o lado mais complicado do amor, mas de onde é sempre possível colher da tristeza um ramo de papoilas vermelhas.

O disco, onde o jazz se afasta das convenções estabelecidas e convida a pop e a folk para um fim de tarde à beira-mar, conta com algumas participações de luxo: há duetos com Jamie Cullum – em «She Walked Down the Aisle» – e António Zambujo – no tema «Inês» -, tendo Mário Laginha participado no tema «The Last One», para além de ter sido o responsável pelos arranjos de cordas que ficaram a cargo do Quarteto de Cordas de Matosinhos.

A RDB esteve à conversa com Luísa Sobral sobre esta nova aventura, num disco espelhado que é o reflexo do seu crescimento enquanto artista e compositora. E que a mostra também como uma mulher melancolicamente cintilante.

Pode dizer-se que “There`s A Flower in My Bedroom” é um disco sobre o amor pouco convencional e, na maior parte do tempo, sobre o amor impossível (ou pelo menos muito complicado)?

Sim, algumas canções são sobre um amor menos convencional, outras não; mas sim, há sempre alguma tristeza nesse amor e alguma impossibilidade. Acho que isso acontece quase no disco todo (risos).

A pergunta anterior foi no sentido de, entre as várias histórias que se contam, haver algumas que parecem entrar no domínio do épico: há uma história de amor entre duas mulheres, um desejo platónico por Louis Armstrong, uma carta de amor escrita a alguém que não se conhece mas que prevê o futuro comum de uma ponta à outra. Onde foste buscar tanta melancolia?

Foi uma coisa que percebi realmente quando as coisas já estavam feitas: sou um bocadinho melancólica. Mas acho sempre que existe um lado muito bonito na tristeza, que devemos tentar descobrir. Pode haver beleza até nos amores mal-sucedidos, há sempre qualquer coisa de bonito. Quem passa por isso não o acha na altura, é sempre possível encontrar alguma beleza no lado triste da vida. A capa do disco retrata um pouco esta ideia, onde na companhia da tristeza está uma papoila vermelha. A ideia é a de encontrar o lado bonito numa coisa triste. Acho que é mais ou menos isso que se passa nas canções.

Os arranjos dos temas do disco foram feitos em conjunto com a banda que te acompanha ao vivo e com uma mãozinha do Mário Barreiros na produção. De qualquer forma, este parece ser um disco onde vemos mais do teu interior, quer pela vertente lírica, quer pela própria musicalidade arranjo das canções. Será isto verdade?

Sim, sim, é uma grande verdade. Nós fizemos os arranjos juntos, mas cada vez que componho uma canção mostro-lhes. Estas são canções que lhes fui mostrando ao longo de dois anos, por isso o que acontecia muito era mostrar-lhes uma canção, a ideia que tinha para ela, e de já ter mais ou menos um arranjo para ela. Foi rara a canção que mudámos completamente, o que aconteceu apenas com o «As the night comes along». O que mudou em relação ao disco anterior foi que neste tive mais confiança em mim, para poder dizer: “não, é mesmo isto que eu ouço, e eu quero isto”. Acho que ganhei essa confiança com eles e também que a descobri em mim mesma. Talvez seja essa a razão pela qual o disco soa um pouco mais pessoal, por ter tido a confiança de dizer como queria as coisas.

Cantas quase sempre em Inglês mas ainda tens tempo de dedicar dois temas à língua de Camões e Pessoa, e um outro ao dialecto de Cervantes. Em termos emotivos e de interpretação, sentes alguma diferença entre o cantar em línguas diferentes? É assim como se te perguntasse: em que língua sonhas?

Continuo por vezes a sonhar em Inglês, acho que depende das pessoas com que sonho. Quando componho as canções é igual, emocionalmente, quer escreva em Inglês ou em Português. Mas ao vivo é bastante diferente. Quando canto uma canção em Português em Portugal sinto algo de diferente, porque sei que o público está ligado a mim de outra forma. Sei que quando canto Inglês muitas pessoas percebem, mas mesmo as que percebem às vezes não ouvem a letra. Ligam-se pela voz, pela melodia, pelo arranjo, mas não se ligam tanto pela letra. Por isso sinto que quando canto em Português, talvez também por cantar poucas canções, que as pessoas se ligam logo à letra e a tudo o resto, e que há ali uma comunhão mais especial.

Jamie Cullum acompanha-te em «She Walked Down the Aisle», provavelmente o tema  mais triste do disco

Sim. Trata-se da história de um rapaz que está a ver a melhor amiga a casar, e que confessa que esteve sempre ali à espera que ela visse que ele a amava não apenas como amigo. Mas, ao vê-la sorrir daquela forma enquanto caminha, percebe que ela tomou a decisão certa.

«Inês», onde cantas em dueto com António Zambujo, parte da história de Pedro e Inês, um amor de perdição que poderia competir ombro a ombro com o “Romeu e Julieta” de Shakespeare. Achas que todos temos inveja de um amor assim, mesmo que esteja condenado a acabar em desgraça? Ou poderá ser assim sem implicar a parte da desgraça e contemplar o happy end?

Vejo isso do lado da mulher. Que mulher não quereria um homem que quisesse ser enterrado com ela frente a frente, para que quando acordassem estivessem de novo juntos? É das coisas mais românticas que uma pessoa pode fazer. Eu, pelo menos, gostava de ter um amor como o deles. Sei que não foi muito feliz mas foi intenso e bonito. Não sei o que é que preferia, mas gostava de experimentar um amor como o deles.

A fazer fé em «Mom Says”, e sobretudo em «Remember You», é de acreditar que te apaixonaste pela folk?

Sim, comecei a ouvir mais Bob Dylan, Tom Waits e outras coisas, e comecei a perceber que há uma coisa na música folk que eu adoro e que é a simplicidade. Eles têm uma simplicidade enorme, que chega a toda a gente; as melodias são bonitas – a maior parte -, as letras são sobre coisas do dia-a-dia, simples e bonitas e acho que cada vez mais se está a perder isso. No jazz, por exemplo, às vezes tenta-se ser muito complexo, e quero fazer o caminho contrário, o caminho inverso. O que importa é a mensagem que passamos, e a folk faz isso muito bem.

A vida parece correr-te bem. Foste convidada a compor para a Ana Moura, participaste na mais recente rodela do David Fonseca, vais repetir a dose no Cool Jazz Fest e tocaste no mítico programa do Jools Holland. Até compuseste o genérico da série infantil “O Bairro do Panda”

Esse foi o ponto alto da minha carreira (risos).

Como tem sido gerir uma carreira com uma projecção em expansão constante?

Não trato das coisas sozinha, por isso é logo mais fácil. Tenho muita ajuda nas coisas práticas, e da minha família na parte mais psicológica – na forma das coisas se desenvolverem. Por isso essa parte para mim até é relativamente fácil. Tenho muitas pessoas a meu lado. Em termos gerais nunca pensei muito em termos da carreira. Como delineámos um pouco o percurso, fui-me concentrando nele. Nunca pus demasiada pressão nas coisas. Acredito na minha música, gosto do que faço e espero que as pessoas gostem também. E é nisso que me concentro. Nunca estou demasiado stressada; por exemplo, agora não penso se o disco vai vender muito ou não. Estou feliz com o resultado, e espero que as pessoas sintam o mesmo que eu senti quando o escrevi.



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