“Luz Obscura”, de Susana de Sousa Dias

“Luz Obscura”, de Susana de Sousa Dias

Resistência.

Falar sobre a didatura e tudo o que de lúgubre e violento a envolve ainda é para o Portugal actual uma espécie de névoa recalcada. Cronologicamente bem determinado, em termos humanos poucas são as histórias sobre o regime que verdadeiramente convocam a cicatrização das feridas causadas por esse período. Em “Luz Obscura”, Susana de Sousa Dias retorna à temática dos presos políticos, depois do assombroso documentário “48”, para contar a história de Octávio Pato, activista e dirigente comunista, de vários membros da sua família e de como precisamente esse núcleo emocional é estilhaçado e humilhado pelo regime – não foi o único mas é nele que a realizadora escolher centrar-se.

“Luz Obscura” é um relato impressionante do quanto viver escondido causa marcas intensas (…)

Ideologicamente, o Estado Novo acarinhava fortes noções de Deus, Pátria e Família mas em “Luz Obscura” a família toma existência não só como rede de suporte mas também como veículo de chantagem, já que era através do núcleo familiar que a PIDE tentaria por diversas vezes capturar Octávio Pato. A crueldade de se ser confrontado com a utilização dos laços familiares para se chegar a um determinado indivíduo é um tema pouco explorado e, sobretudo, a questão das crianças que nasciam na clandestinidade e que eram depois igualmente presas, facto para o qual Susana de Sousa Dias foi alertada depois de se ter deparado com a fotografia de uma criança no Arquivo Fotográfico da PIDE. Partindo do desejo de entrevistar os 3 filhos de Octávio Pato, a realizadora acabou por integrar no documentário as fotografias existentes, quer do referido arquivo quer mesmo algumas fotografias de família, mesclando-as com as memórias de cada um deles. Admirável exercício de confrontação da realidade com a memória emocional de quem viveu a didatura do lado obscuro da luz, as memórias emocionais, os cheiros da infância, as diversas casas percorridas para fugir à constante perseguição, o pouco contacto com a rua, o gradual desaparecimento do pai e da mãe, constantemente presos, as relações calorosas mas contidas num grande silêncio de palavras que sendo indizíveis protegiam mais do que se fossem proferidas.

“Luz Obscura” é um relato impressionante do quanto viver escondido causa marcas intensas, sobretudo porque a maioria da vida de Álvaro, Isabel e Rui foi passada nessa imensa ausência das principais figuras das suas vidas, ao ponto de só terem os terem conhecido tarde ou já como se fossem apenas estranhos. Susana de Sousa Dias transporta também alguns dos espaços que já apenas a memória descreve para a existência, mostrando as ruinas metafóricas da casa onde habitavam os 3 irmãos com os avós. Entre prisões desenhadas no chão com um pequeno galho, ganha vida o sítio onde tanto o amor calado como a violência indizível tiveram lugar e é, de facto, impressionante que o discurso dos protagonistas seja tão presente que parecem descrever algo que aconteceu há muito pouco tempo. Aqui, em muitos momentos, os filhos de Octávio Pato surgem confrontando o espectador com o seu olhar longo e sofrido, ainda hoje sofrido, mas ao mesmo tempo forte e convocando a quem os olhe nos olhos que não os desvie e veja a realidade tão próxima de um país que ainda hoje teima em branquear a sua memória.

A memória é, aliás, uma presença muito forte neste documentário e Susana de Sousa Dias faz questão de deixar o espectador a sós e frente a frente com estas pessoas reais que viveram as agruras de nascer sem nome, sem pais e sem local de registo, de ter de escamotear as regras para poder sobreviver à sombra que o seu próprio pai lhes lançou, ironicamente em busca de uma liberdade que hoje em dia se desdenha ou a que pouca importância se dá porque existe, está aqui tão simplesmente mas não esteve durante 48 longos anos de neblina, colónias, prisões desterradas, perseguições políticas e violência física. O sofrimento provocado por essa vida diária de provações e medo para uma parte da população que optava por lutar secretamente contra o estado de coisas, surge também muito marcado nas fotografias tiradas em momentos mais recentes, depois da libertação da prisão, no olhar de cansaço e derrota da mãe. Igualmente presente o olhar da coragem e da resistência nos irmãos de Octávio Pato, recordados pelas memórias dos sobrinhos pequenos com aquele carinho de eternidade e infinitude caracterísitico de quando os mais novos olham para cima para os adultos que acarinham e tudo lhes parece sólido e permanente.

admirável exercício de confrontação da realidade com a memória emocional de quem viveu a didatura do lado obscuro da luz (…)

Sólida e permanente ditadura dos sentidos que condicionou a vida desta e de outras famílias e que a realizadora tenta mostrar de uma forma crua, sem quaisquer outros filtros que não os da realidade e, de facto, é um documentário curto mas que em intensidade emocional parece interminável. Susana de Sousa Dias permite ao espectador que interiorize lentamente as informações visuais e emocionais, levando-o a uma viagem dos sentidos, da memória, do tempo que passa tão lento passaram aqueles intermináveis 48 anos. Quase não se consegue aguentar o olhar ali tão intenso, no silêncio, tão presente, os próprios silêncios dos narradores são muitas vezes quase insuportáveis, tantas vezes interrompidos pelas lágrimas. Aliás, esse é um dos elementos mais notáveis e impressionantes, em que o rememorar e narrar daqueles momentos é seguido quase instantaneamente pelo choro, nem sempre visto, às vezes só discretamente ouvido. E depois fala-se abertamente sobre assassinato, sobre o homicídio de resistentes anti-fascistas nos longos interrogatórios, nas salas de tortura, às mãos da polícia política, com todas as letras para que não haja dúvidas e não se pense tratar-se apenas de um desaparecimento trágico. Esse é outro dos elementos mais importantes do desmistificar de uma ditadura branda em que havia respeito e tudo corria serenamente, o falar abertamente sobre a morte, real, sobre a tortura física e psicológica, igualmente reais, de pessoas que não entregaram os familiares e amigos ao regime.

“Luz Obscura” é um documentário propositadamente lento, que demora o seu tempo a contar as histórias que os intervenientes têm para contar. Não são histórias de embalar embora existam memórias felizes de infância, talvez fruto da esperança ou da natural ausência de maldade nas crianças. É também a história de como apesar de nem todas as famílias serem iguais aos olhos do Estado Novo, a resistência ao regime se fazia politicamente e emocionalmente para estas famílias que tinham inevitavelmente que viver longe do mundo. Baseada numa forte rede de pertença, a família de Octávio Pato resistiu para além dos laços de sangue, correndo o risco e perdendo os laços que se criam na convivência do dia-a-dia mas porque era preciso que a realidade fosse urgentemente outra. “Luz Obscura” é mais uma grande peça do puzzle que Susana de Sousa Dias tem construído acerca das memórias dos presos políticos, dando-lhes a voz que os arquivos e os documentos muitas vezes branqueiam e mostrando o outro lado da história.

LUZ-OBSCURA---CARTAZ

No âmbito da estreia do documentário LUZ OBSCURA, no mês de Maio existirão sessões especiais no Cinema Ideal, com conversas entre a realizadora e vários convidados ligados ao tema.
Dia 10 de Maio | 19h15

SESSÃO DE ESTREIA

Conversa com Susana de Sousa Dias e com os protagonistas do filme, Álvaro e Rui Pato, filhos de Octávio Pato, preso político

Dia 11 de Maio | 19h15

Crescer em Liberdade: A geração pós 25 de Abril e o Estado Novo

Conversa com Susana de Sousa Dias, Ana Pato, filha de Octávio Pato e Miguel Tiago, deputado do Partido Comunista

Dia 12 de Maio | 19h15

Memórias vividas do Estado Novo
Conversa com Susana de Sousa Dias, Fernando Rosas – historiador português que publicou obras relacionadas com a ditadura militar e Estado Novo – e Diana Andringa, jornalista portuguesa.

Dia 14 de Maio | 19h15

Crescer em ditadura

Conversa com Susana de Sousa Dias, Irene Pimentel – historiadora e autora do livro O Caso da PIDE/DGS – e Luís Farinha, director do Museu do Aljube



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