madame

“Madame” de Amanda Sthers

Vazio e banal.

Habituei-me a ver Toni Colette como carimbo de qualidade. E não posso dizer que saí desiludida. Não com Toni. O mesmo não poderei dizer de Amanda Sthers.

Se o argumento se revela pobre, nada inovador e quase inverosímil, a realização nada acrescenta ao quadro.

Basear todo um filme na premissa de tornar uma criada madame por uma noite poderia ser cómico, não fosse o desenrolar da história desconexo, desinteressante e em nada credível.

Não é a fraqueza de argumento que torna “Madame” facilmente esquecível. Nem a fraqueza das personagens (que em nada se iguala às interpretações – essas, sim, o melhor de todo o cenário). O que torna todo o filme banal é, mais que a fraqueza, a pobreza do argumento, a sucessão de cenas em modo fast forward, a desconexão da sucessão de acontecimentos, da história e a ausência de exploração do que realmente poderia interessar – a vida interior das personagens.

A Madame Anne apresenta-se algo elaborada, uma típica high society que vive de aparências que em nada preenchem o vazio da vida e das relações. Um casal em tudo quase esquecido (por vezes, temos de recordar que são realmente um casal tal é a ausência de interacção), a típica vida de “realeza” em falência, o filho “bastardo” em tudo um cliché, as amizades ocas, o adultério sempre à espreita e uma criada muito mal construída – há uma regra de ouro para defender uma personagem: coerência. E aqui Amanda falhou. Ao fazer de Maria o centro da narrativa esperamos uma personagem credível, consistente e, mais que isso, real. Lamentavelmente, nenhuma das falhas se deve à interpretação, ou seria – talvez – facilmente desculpável. Não conseguimos convencer-nos a “comprar” a ideia de que uma criada tão relutante em fazer um favor à sua senhora de repente se transforme numa crente na vida de luxo, uma amante efusiva, e uma hábil “jogadora” da arte de sedução e engano (os constantes furtos dos vestidos são prova de que a dita lealdade típica de uma criada se venderia por pouco, o que raramente é verdade, sobretudo numa criada desde início defendida como inócua e sem mácula na entrega e dedicação ao lar). A Maria não convence… mas pior que não convencer, sendo o motivo e o motor de toda a trama, pedia mais realismo e mais profundidade. Que o filme se baseie num motivo forçado e improvável (recusa de 13 ao jantar, e logo, inclusão da criada como uma amiga “desconhecida” do mundo da alta sociedade) é até certo ponto desculpável não fossem os acontecimentos que sucederam tal improviso. Uma paixão trôpega e duvidosa de um rico solteirão, após leves minutos de interação – interacção essa que jamais aconteceria sobretudo após a afirmada relutância e visível vergonha antecipada de uma criada que, claro está, recusa sentar-se à mesa dos patrões, mas acaba por seguir ordens – quase como dever. Todo o jantar entra num terreno perigoso de cliché ridículo, e o filme começa a perder-nos aí, sobretudo porque o facto de o discurso de Maria se centrar em anedotas ordinárias ou filmes pouco eruditos é um caminho demasiado óbvio, mas que nenhuma criada jamais percorreria independentemente dos copos de vinho que bebesse ao jantar. Quer se subscreva ou não a sua pertinência ou mesmo adequação nos dias de hoje, a hierarquia social e a natural subserviência que viriam de garantir que estaria a fazer correctamnete o que lhe compete jamais suportam a verosimilhança da atitude. Esperaríamos maior recato, mais timidez e sobretudo uma menor desadequação, como se uma criada não soubesse ser eloquente sem roçar o vulgar. A paixão que nasce naqueles instantes é também duvidosa e pouco credível – seja porque não acreditamos no flirt em tudo forçado, seja porque os momentos de interacção foram de tal forma escassos e superficiais que abalariam a convicção até daqueles que julgam acreditar em amor à primeira vista.

Ainda que a premissa tenha falhado, e por isso tenha condenado o filme à banalidade, há que reconhecer que Toni está à altura, como está sempre. Não porque a sua personagem esteja melhor construída ou seja mais credível, mas sim porque, felizmente para Amanda, nesta personagem bastava seguir o cliché e ter esta actriz, que soube defender o cliché como se de algo inovador se tratasse. Toni não sabe dar um passo em falso… É exímia enquanto Anne, a socialite vazia e desprendida – pelo menos aparentemente, e que busca sentido numa vida aborrecida e sem cor e que vive para parecer e entreter. Seja o seu foco um jantar formal, o manter-se sexual para o marido ou a busca de excitação e energia num affair fortuito e fugaz com o óbvio amigo da família. A sua entrada no vestido dourado dita a sua história – é show-off com decoro. É educada, contida, mas feroz e com requintes de malvadez. O disfarce de simpatia e cuidado momentâneos com a criada – que se revelam em inveja e quase crueldade final, e a esquiva ternura que vemos com os filhos, não nos convencem para além do que é: alguém que tenta preencher o vazio e a solidão com o vazio e solidão dos outros, ou mesmo com a desgraça auto-criada (a linda professora de francês sugerida como se fosse um formal aval a um affair do marido) ou auto-forçada (a inveja de Maria, da sua paixão fulminante e o sublinhar de uma vida “superior” e em tudo inalcançável).

Toni convence mas não chega. “Madame” é vazio, banal e olvidável. Se toda a trama inverosímil não fosse suficiente, o final dá a estocada monumental. Ainda que numa tentativa de criar suspense e deixar no ar até que ponto Anne seria cruel, o filme tropeça e cai. O final é precipitado, oco e, pior, ainda que deixe algo no ar não consegue captar a curiosidade e fazer o que só os grandes conseguem: deixar-nos a pensar nos cenários possíveis e na continuidade para lá do ecrã. As personagens morrem como nasceram, sem emoção, sem realidade e sem humanismo. A história paralela do filho escritor que se baseia na criada para fazer renascer a chama da criatividade e a insinuação de final feliz com um dos discursos mais brutos e menos eficazes para fechar uma narrativa só servem para confirmar o lamentável: nem Colette salva Amanda, nem Maria se consegue esconder atrás de Colette. Poucas estrelas e ainda menos aplausos.

 



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