Made @ Portugal

Entrevista com Ana da Silva.

O nome de Ana da Silva, se calhar, não lhe diz muita coisa; no entanto, se mencionar as The Raincoats, o caso muda ligeiramente de figura.

Com efeito, as The Raincoats foram umas das pioneiras bandas rock totalmente feminina. Juntaram-se em 1978, em plena histeria pós-punk, na cidade de Londres que ainda ressacava os recentes ícones Sex Pistols e The Clash e abraçaram a new-wave que chegava do outro lado do Atlântico, de Nova Iorque. Eram quatro raparigas e a mais velha era portuguesa – madeirense de nascimento e Ana da Silva de seu nome.

Para além da guitarrista Ana da Silva, a banda era complementada pela carismática baterista Palmolive (que tinha abandonado as The Slits, outra legendária banda-rock feminina e que viria a partir para a Índia em 1979, sendo substituída por Ingrid Weiss), pela baixista Gina Birch e pela violinista Vicky Aspinall. Separadas eram quase inóquas, mas em conjunto formavam uma combinação explosiva de punk-rock de cariz experimental, cujo violino de Vicky Aspinall contribuia em muito para uma sonoridade bastante particular.

As The Raincoats eram uma banda manifestamente feminina e não o era só devido ao seu alinhamento exclusivamente feminino; era-o na sua postura, nas suas músicas e nas suas letras, que passavam uma espécie de mensagem de emancipação da mulher, arruinando qualquer esteriótipo feminino que se atravessasse à frente. Depois de três álbuns de originais – “The Raincoats” em 1984, “Odyshape” em 1981 e “Moving”, em 1984 – e de uma abrasiva reputação cosntruída em terras de Sua Majestade, as The Raincoats anunciaram o seu fim. Que afinal era apenas um até já.

Com efeito, dez anos depois, Kurt Cobain, mítico líder dos Nirvana e símbolo do movimento grunge, repescou as The Raincoats desta vez para o reconhecimento internacional. Tidas como influência fulcral da sua música, Kurt Cobain exigiu que os álbuns das The Raincoats fossem reeditados, para que a sua música pudesse ser descoberta por uma nova geração.

Inesperadamente, viram-se nas bocas do Mundo quando menos o esperavam e Ana da Silva e Gina Birch reavivaram as The Raincoats, desta vez com Heather Dunn na bateria e Anne Wood no violino. Esta derradeira reunião resultou no convite para uma digressão que teve como pretexto o tributo a Kurt Cobain, que desaparecera recentemente, e com “Looking In The Shadows”, o canto de cisne da banda em 1994, produzido por Ed Buller.

Este  percurso contribuiu, naturalmente, para elevar Ana da Silva a ícone da música rock.  Agora, depois de mais de uma década arredada da indústria musical, Ana da Silva está de volta, desta vez em nome próprio. As Chicks On Speed acolheram-na na sua editora, numa relação que acaba por dar mais prestígio à editora do que à artista; e o primeiro álbum já está nos escaparates: chama-se “The Lighthouse” e é uma redefinição do seu passado musical em moldes electrónicos, em que o experimentalismo volta a ser recorrente.

Para além da digressão europeia em que se encontra para promover o disco, Ana da Silva é ainda uma das representantes nacionais no Festival Atlantic Waves, certame organizado pela Delegação Inglesa da Fundação Calouste Gulbenkian com o objctivo de promover as mais variadas expressões musicais de músicos portugueses em Inglaterra, tanto projectos radicados em Portugal, como projectos radicados no estrangeiro e ainda, colaborações entre artistas portugueses e estrangeiros.

A Rua de Baixo esteve à conversa com Ana da Silva, com quem abordámos estas quase três décadas de carreira.

RDB Não posso começar esta conversa por outro lado: como é que surgiram as The Raincoats?

Ana da Silva: Primavera de 1977. Eu e a Gina estávamos a estudar arte na Middlessex Polytechnic e começámos a ir juntas a concertos punk – The Clash, The Slits, Patti Smith, Television, Richard Hell And The Voidoids, Subway Sect, Iggy Pop, Ramones… – e, devido à simplicidade da construção dessa música ser uma característica forte, resolvemos arranjar um grupo de pessoas e tocar música inspirada por algumas dessas bandas.

RDB: Num panorama musical predominantemente masculino, as The Raincoats eram uma banda punk exclusivamente feminina. Além disso, tinham um instrumento muito pouco usual – o violino. Foram opções premeditadas ou apenas casualidades?

ADS: Começámos por ser uma banda com dois elementos femininos e dois masculinos. Foi então que a Palmolive veio tocar connosco, em 1978, e como precisávamos de um quarto elemento, ela sugeriu que procurássemos uma mulher para tocar teclado ou violino. Apareceu a Vicky que ficou connosco até 1984, quando acabámos a banda.

RDB: Como lidava o público na altura, perante o facto de estarem perante uma banda 100% feminina?

ADS: Na maior parte das vezes o público reagiu bem e estava aberto a coisas novas. Tocávamos com outras bandas que tinham também uma atitude espontânea, energética, experimental e criativa (mais de ideias do que técnica) em relação à música que tocavam. E o público vinha para partilhar dessa experiência.

RDB: Depois de uma carreira nalgum obscurismo e após quase uma década depois de se separarem, as The Raincoats ganharam projecção internacional e foram alvo de um hype inesperado graças a Kurt Cobain. Como foi essa experiência de serem redescobertas tanto tempo depois?

ADS: Aquilo que sempre desejei em relação ao meu trabalho foi receber respeito e apreciação; e é quando isso vem de pessoas que eu por outro lado também respeito e em cujo trabalho encontro inspiração, que sinto que vale a pena o esforço que ponho naquilo que faço. Portanto esse respeito que recebemos do Kurt Cobain e de muitas outras pessoas (por exemplo, das bandas de mulheres) fez com que chegássemos à conclusão que o nosso trabalho tinha um poder duradouro, que é o sonho de qualquer pessoa que trabalhe nas artes.

RDB: Chegou a conhecer Kurt Cobain? Como é que o vê hoje em dia, tendo em conta que teve essa possibilidade de privar com ele: como uma espécie de Cristo, como disse Gus Van Sant; ou como uma pessoa normal que estaria hoje deliciada com o free folk, como disse Kim Gordon?

ADS: Tive um encontro muito breve com o Kurt Cobain. Penso que talvez tivesse continuado a explorar coisas novas enquanto músico e a crescer como pessoa, e que teria unido as duas coisas na sua arte.

RDB: Durante esses anos como guitarrista das The Raincoats nunca colocou a hipótese de explorar o mercado português?

ADS: Quanto a Portugal, tenho ido aí tocar sempre que fui convidada, tanto com as Raincoats como a solo. Fomos a Lisboa, Porto, Coimbra, Paredes de Coura e Covilhã e a solo fui duas vezes a Lisboa e uma à maravilhosa Casa da Música no Porto. Sempre que me quiserem aí, eu vou.

RDB: Tendo experienciado de perto o mercado musical internacional, como analisa a indústria musical portuguesa? Somos nós que não temos capacidades para vingar lá fora?

ADS: Não sou perita nos mercados, mas sei que há algumas coisas daí que vingam cá fora e também que muita coisa de cá que nem cá vinga. Há muita gente a fazer música e por isso é difícil ter sucesso noutro país. No entanto, o Festival Atlantic Waves tem feito um excelente trabalho de promoção da música portuguesa de todos os géneros. Além do festival, sai também um CD numa revista inglesa (este ano acho que na Wire) com música das pessoas que tocam no festival. Eu vou tocar no dia 29 de Novembro com os Fat Freddy e The Gift.

RDB: 2005 marca a estreia da Ana da Silva a solo, com o álbum The Lighthouse. Por onde andou durante este longo hiato, desde o final das The Raincoats?

ADS: Durante esse período tive de me ocupar com outros aspectos da minha vida e também comecei a preparar “The Lighthouse”, que demorou bastante tempo, pois tive de aprender a fazer tudo sozinha, uma vez que não sabia nada da parte técnica do equipamento que usei para fazer o álbum. Além disso escrevi todas as músicas e letras, com excepção da “Modinha”.

RDB: Há pouco tempo entrevistei a Suspiria Franklyn que indicou a Ana da Silva como uma das suas referências. Sente-se um ícone do rock feminino? Como lida com essa referência?

ADS: Sinto-me lisonjeada por servir de inspiração a tanta gente e sinto-me muito feliz!

RDB: A Ana da Silva é actualmente um dos artistas da editora das Chicks On Speed. Como aconteceu essa ligação?

ADS: Mandei um CD com algumas músicas ao Paul Smith, da editora Blast First, para me dar uma opinião e ele mandou-o às Chicks on Speed, porque achou que elas o deviam editar. E assim foi… simples.

RDB: The Lighthouse foi o pretexto para dois concertos em Portugal. Quais são os projectos para o futuro próximo?

ADS: Acabei de vir de Madrid onde toquei no festival Ladyfest Spain e este mês vou tocar no festival Her Noise, na South London Gallery e também no Atlantic Waves, como já tinha referido.



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