Made @ Portugal

A estreia de uma nova rubrica na rua de baixo. Os primeiros convidados são os The Act-Ups.

Nos dias que correm estamos completamente acostumados ao marasmo que é o panorama musical português. Prisioneiro de uma política musical de gosto duvidoso e refém de interesses promocionais em benefício de outrem, os projectos musicais nacionais sofrem dificuldades para vingar e até para ver a luz do dia. O panorama musical português é assim, vítima do próprio sistema.

É então quase intuitivo e um lugar-comum, o franzir de testa perante a forma como recebemos um novo projecto musical de origem nacional.

Existem, no entanto, projectos musicais portugueses de qualidade, mas a pouca e fraca divulgação da música portuguesa, tanto cá como no estrangeiro, fá-la não atingir mais altos patamares. O problema não está então nos projectos, mas na própria indústria que os controla.

O intuito desta rubrica não é, contudo, prestar-se a dissecar e explicar os processos e as razões que levam a uma realidade musical no nosso país de condição deficitária; é sim procurar revelar ao público alguns projectos nacionais que, apesar de conseguirem obter relativo sucesso no estrangeiro, continuam a ser quase desconhecidos em Portugal.

Não queremos revelar novos talentos. Apenas os queremos pôr nos lugares que merecem.

THE ACT-UPS – Um talento escondido

Nascidos sobre as cinzas dos Sullens – banda rock que deixou saudades no circuito subterrâneo – os The Act-Ups começaram a bater as asas, qual fénix renascida, em 2001, no Barreiro. Tal como Manchester, também o Barreiro cresceu sob o estigma urbano-depressivo de uma antiga localidade industrial.

E quem são então os The Act-Ups? As possibilidades de definição são inúmeras, o leitor escolherá a que lhe parecer melhor:

Primeiro: são rock n’ roll vestido de blusão de cabedal e de piercings e correntes penduradas e são punk vestido de calças de ganga e ténis All-Stars.

Segundo: são Elvis Presley e Hank Williams numa disputa intensa com os MC5 e os The Cramps.

Terceiro: são uma noite regada a whisky depois de uma tarde bem temperada a cerveja.

Os The Act-Ups são tudo isto e muitas mais possibilidades. São um rock n’ roll vestido com todas as roupagens que signifiquem uma noite bem passada, seja punk, soul, jazz, motown, funk ou blues. Uma equação com resultado sempre certo, graças a uma máquina bem oleada e um vocalista que enche o palco, cheio de atitude e uma voz que faria Mick Collins duvidar ser negro.

E no entanto, continuam a percorrer os caminhos do pouco reconhecimento. Não obstante da actividade profícua no mundo do rock n’ roll, raramente têm conseguido chegar à superfície da actividade musical nacional; isto, apesar de serem uma banda muito bem recebida em terras espanholas, numa das mais aguerridas sociedades rock n’ roll europeias.

Para se ter uma ideia, em Março e Abril passados, os The Act-Ups encabeçaram dois dos maiores festivais rock de Espanha, o Série B, em Padréjon e o Freakland, em Ponferrada, respectivamente, sendo inclusive cabeças de cartaz no segundo ao lado dos norte-americanos Soledad Brothers. Por cá, nem uma linha dedicada nos principais órgãos de comunicação.

O curioso é que no festival Freakland, após o cancelamento de uma das bandas, os Bunnyranch foram chamados a suprir essa falta. Estranhamente, essa passagem da banda conimbrense por terras espanholas foi amplamente divulgada pelos mesmos meios de comunicação que simplesmente ignoraram a outra banda portuguesa, que até era cabeça de cartaz.

Fomos então ao encontro dos The Act-Ups; podia ter sido em algum bar perdido numa encruzilhada de Detroit, mas foi no Barreiro que encontrámos Nick Nicotine, a face mais visível dos The Act-Ups. Foi aí que ele nos falou acerca da banda, do estado da música em Portugal e do rock português.

RDB: Afinal quem são os The Act-Ups?

Nick Nicotine – Os Act-Ups são um grupo de pessoas que fazem músicas e que respondem pelos seguintes nomes: Nick Nicotine [voz, guit.], Johnny Intense [fuzz], Tony Fetiche [baixo], N. Very [guit.] e Hellso [bateria]. Podia aprofundar e dizer que todos passaram por uma outra banda chamada The Sullens, mas isso seria estar a abusar e não o vou fazer.
No entanto, há na banda gostos muito variados. O Intense é um duro e puro do Rock’n’roll. Os restantes são mais ecléticos, mas todos têm áreas musicais por onde não se meteriam nem que a sua vida dependesse disso – por exemplo: eu não suporto “lamechices-sem-ódio” ou “electrónica-sem-tomates” – dois estilos musicais muito em voga.

RDB: Após ver os The Act-Ups em palco, é fácil perceber que vivem para e com a música. Conseguem, no entanto, viver da música?

NN:
Se considerarmos “não ter dinheiro para mandar cantar um ceguinho” como viver, então a resposta é sim. Eu sou o único que ainda pensa nisso, mas nunca do rock’n’roll – tenho vergonha na cara e recuso-me a fazer certas coisas. Há outras formas de viver da música, nomeadamente através das bandas sonoras ou ensino.
Estares na área que gostas mas numa função que não é bem aquela que gostarias é uma concessão pequena mas que te permite andar direito.
Os restantes Act-Ups têm o seu emprego “normal” e fazem da música a sua terapia de controlo de raiva semanal.

RDB: Qual é então o problema com a música em Portugal?

NN: É um meio minúsculo, campónio e, como qualquer campónio, tem medo da simplicidade e adora o lucro imediato. A resposta a esta pergunta dava para escrever um livro, no entanto posso-te adiantar os erros que se cometem sem me alargar no que penso serem as medidas que poderiam resolver ou atenuar esses mesmos erros.
Somos obrigados, passado algum tempo nisto, a reconhecer que o talento e o trabalho musical são algo secundário na música em Portugal. Um conselho para o sucesso? – Esquece a boa ideia aliada a uma certa dose de talento. Essa equação já era. Tenta conhecer as pessoas certas. Tenta conhecer os jornalistas. Mostra-te disponível. Quem sabe não serás tu a próxima fruta da época?
Os sítios para tocar, onde estão? Onde estão os A&R das editoras e quais são as directrizes pelas quais se regem?
Depois existem todos os dinossauros que vivem à custa da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA).
Depois existe uma SPA que vive à custa dos que tentam fazer algo e que alimenta os dinossauros.
Depois existem um monte de bandas dispostas a jogar o jogo por se convencerem que um dia poderão ser alimentados, juntamente com os outros dinossauros.
Depois existe um jardim pequeno chamado Portugal onde os habitantes estão ansiosos pela próxima fruta da época e onde ninguém desenvolve apetite por outra fruta qualquer.
Depois existimos nós que escolhemos afastarmo-nos o máximo desse meio.

RDB: Apesar de um certo alheamento nacional, os The Act-Ups continuam a ser presença habitual nos festival de rock n’ roll espanhóis, onde são sempre recebidos de braços abertos. Qual é a razão para isso acontecer?

NN: Sinceramente não sei, mas tenho umas ideias. Pelo que me apercebo, uma minoria em Espanha – como é a malta do rock puro e duro – tem uma expressão que, em Portugal, poderia fazer com que os deputados do PP pudessem alugar um autocarro, em vez de um táxi. Eles são muito mais que nós. Isso permite que haja um circuito todo montado e a funcionar na perfeição.
Quanto ao convite para os Act-Ups irem até lá: tudo partiu de uns espanhóis, amantes de rock’n’roll, que sacaram o disco no soulseek, gostaram muito e, estando inseridos no tal circuito, convidaram-nos a ir lá tocar durante uns dias, em 2004. E foi giro chegar a Madrid e ver, como aconteceu, pessoal com pins de Act-Ups. Ou seja, um Manelito qualquer, noutro país, ouviu a nossa música, gostou e deu-se ao trabalho de fazer um pin da banda – e ali estamos nós, acabadinhos de chegar a levar com isto.
Aparentemente esses concertos, em Madrid, Corunha e Leon correram bem, eles gostaram e convidaram-nos para tocar, desta feita nuns festivais, este ano.
A razão: julgo que isto acontece porque, aparentemente, gostam muito de nós. E gostam de nós porque fazem um grande esforço por conhecer música nova e porque não conhecem as bandas portuguesas através de jornais ou da boca de alguém, mas sim através dos discos que ouvem com os seus próprios ouvidos – depois opinam.

RDB: O rock parece ter entrado definitivamente, no vocabulário musical português, graças aos estilhaços dos Tédio Boys. Qual é a vossa opinião sobre o rock português?

NN:
Não há nenhum movimento de Rock português. Como dizes, e bem, existem os estilhaços de uma grande banda e, contradizendo a regra, o todo é maior que a soma das partes.
Depois há um outro género de rock que não tem muito a ver com o que fazemos, como é o caso de bandas que nem conheço bem mas ouço falar, como os Pluto, por exemplo, mas penso que não é desse rock que falas.
Portanto, acho que não há muitas bandas do “nosso” rock em Portugal, mas as que conheço são boas – por exemplo, no outro dia vi os Vicious 5 na ZDB e acho que aquilo está bom, está bem feito – mas não há um número de bandas, nem as condições que referi existirem em Espanha, por exemplo, para que se possa falar num movimento de rock nacional.

RDB: O rock português nasceu com os Tédio Boys, na década de 90, ou com o boom musical do chamado novo rock dos anos 80, com bandas como os UHF?

NN: A bem da verdade cronológica, começou-se a fazer Rock em Portugal no início da década de ‘60.
As bandas do final de 70’s, início de 80’s tiveram a sua importância, na medida em que permitiram a criação de uma estrutura mainstream, sem a qual os meios underground – que são os que nos fascinam e interessam – não fazem sentido.
Os Tédio Boys foram, sem dúvida, uma das bandas portuguesas mais interessantes de sempre e a primeira a ter a noção de que “se a América não vem a nós, nós vamos à América” – e isso foi inovador e acho que deu alento a muita gente começar bandas lá para os lados de Coimbra e não só. Se calhar foram os percursores duma New Wave of the New Wave of Portuguese Rock’n’Roll!

RDB: Em 2003 lançaram o álbum debutante I Bet You Love Us Too. Desde aí só os temos podido ver ao vivo. É a intenção da banda queimar todos os cartuchos rock n’ roll ao vivo, uma vez que não faz sentido faze-lo fora do palco, ou apenas não se proporcionou ainda um novo disco?

NN: Somos muito desorganizados em relação a isso. Andamos a tocar temas do disco novo há um ano. Este disco parece estar enfeitiçado. Há séculos que o tentamos gravar, mas acontece sempre algo, desde a sala de ensaio cair até às pistas serem vítimas de um erro informático malévolo. Se calhar o melhor seria estarmos quietos, mas não somos capazes.
A única coisa que posso garantir é que gravaremos e editaremos o disco assim que haja oportunidade e não ponha em risco a saúde de alguém – e olha que o disco vai ficar muito bom, talvez melhor que o outro, até. Aguardemos.

RDB: Para finalizar, a pergunta inevitável: quais são os projectos futuros para os The Act-Ups?

NN – Gravar o tal disco.
Tocar muito em Espanha.
Tocar mais em Portugal.
Conhecer más pessoas e aprender com elas.
Conhecer boas pessoas e roubar-lhes a alma.



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