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Ruby Ann and The Boopin' Boozers Rádio Nostálgia.

Há meio século atrás os sulistas norte-americanos – os hillbillys -, seduzidos pela música dos escravos negros dos campos de algodão do Mississipi, resolveram inundar a sua música country com a irreverência do blues e a sua promiscuidade rock. Pode-se dizer que o resto foi história – surgia assim o rockabilly, que cresceria até se tornar maior que o próprio criador.

Em 1998, quatro jovens portugueses rockabillys decidiram canalizar os seus gostos comuns pelo rock n’ roll e pelo folclore norte-americano dos anos 50 num projecto musical. Ruby Ann decidiu emprestar, para além dos seus dotes vocais e das suas faculdades na guitarra, o seu nome para encabeçar este projecto; e os seus companheiros seriam os seus boopin’ boozers – Pedro Serra na guitarra solo, Pedro Pena na bateria e Nuno Alexandre no contrabaixo. Nascia assim Ruby Ann & Her Boopin’ Boozers.

Inseridos numa natureza musical sem grande expressão no nosso país, Ruby Ann & Her Boopin’ Boozers tiveram de aprender a conviver regularmente com a indiferença ou apenas com o interesse curioso das pessoas. E por entre essas ocasiões, foram conseguindo furar até à superfície.

Logo no primeiro ano de vida, editaram pela Lux Records o álbum debutante “Boopin’ Like A Chicken”, o que lhes valeu longos périplos pelo país. O reconhecimento maior surgia com o convite para passar pelo palco da Expo 98 e com as duas passagens pela televisão.

Contudo, foi fora de portas que Ruby Ann & Her Boopin’ Boozers almejaram maior reconhecimento. A contrastar com o relativo passar despercebido do álbum de estreia em território nacional, “Honky Tonk Mind”, o segundo álbum da banda editado pela editora inglesa Raucous Records, em 2001, chamou rapidamente a atenção do público estrangeiro.

Em França encabeçaram o alinhamento de uma colectânea da editora All Abord Records e nos Estados Unidos tiveram o privilégio de participar na colectânea Viva Las Vegas, da NoHit Records. Sem surpresa, integraram os principais festivais de rock n’ roll da Europa, nomeadamente de países como a Espanha, França, Suiça, Itália, Inglaterra, Bélgica, Holanda, Alemanha e Suécia. Além disso, tiveram honras televisivas da televisão catalã e holandesa.

No entanto, foi em 2005 que Ruby Ann & Her Boopin’ Boozers viram o seu trabalho reconhecido, com o convite para integrar o alinhamento do segundo ONEIDA Rockin’ Fest, nos Estados Unidos, um dos maiores festivais de rockabilly do Mundo. Por cá, além de uma ou duas referências mínimas em alguns (leia-se poucos) meios de comunicação, a sua passagem pelo certame norte-americano passou despercebida.

A banda, infelizmente, incapaz de suportar a não recompensa pelo seu trabalho dentro do seu próprio país, optou pela difícil decisão de cessar o projecto. Com chave de ouro, ao menos.

A Rua de Baixo convidou então a banda a falar sobre a sua carreira, os altos e os baixos da mesma e sobre o rock n’ roll, sempre com um cheirinho a nostalgia.

Rua de Baixo – Quem é afinal a Ruby Ann e quem são os seus boopin’ boozers?

RA: É um quarteto que surgiu em 98, oriundo de Coimbra, que pratica rockabilly e rock’n’roll dos anos 50.

RdB – Qual a razão desse nome?

RA: Ruby Ann aparece graças a um tema de Warren Smith, Rock’n’Roll Ruby, e ao facto da vocalista se chamar Ana. Boppin Boozers vem do termo Bop, dança tradicional dos anos 50 e da prática excessiva de álcool por parte dos seus elementos.

RdB – No estrangeiro, tocaram várias vezes em festivais internacionais. Como é que isso se proporcionou?

RA: Viajamos muito pela Europa, tocando em festivais e bares desde este nosso cantinho até a terras da Suécia. Tudo isso se proporcionou graças a uma pontinha de talento, à apresentação do nosso trabalho às pessoas certas e a uma boa leitura dos mapas de estradas.

RdB –  E como reagem as pessoas quando descobrem que são portugueses… Acham natural, ficam muito espantadas por haver raízes norte-americanas no nosso país ou nem sequer sabem onde fica Portugal?

RA: De tudo um pouco. Por vezes perguntam se algum de nós nasceu na América. É normal que isso aconteça.

RdB – Passaram pelo cartaz de um dos maiores festivais de rockabilly do Mundo, o ONEIDA Rockin’ Fest. Depois disso resolveram colocar um ponto final na carreira. O que levou realmente ao final da banda?

RA: É certo que participámos nesse festival de 6 dias, onde partilhámos o palco principal com ídolos da nossa adolescência como Jerry Lee Lewis, Comets de Bill Haley, Wanda Jackson, etc, etc, etc….Um sonho tornado realidade.
O ponto final dos Boppin’ Boozers acontece por várias razões, sendo o afastamento físico dos seus elementos a principal causa. Dois elementos vivem em França, um na Suiça e um em Portugal, podes imaginar como é trabalhar assim: Impossível!!!

RdB – É uma decisão irreversível?

RA: Nunca digas nunca, faz parte da minha educação, mas neste caso acho que é mesmo fim da linha nesta nossa viagem. Resta-nos sair, mudar de comboio e cada um prosseguir para outros destinos.

RdB – Ruby Ann & Her Boopin’ Boozers sempre foi um projecto que pisou terrenos de uma área sem grande expressão musical no nosso país. Foram vítimas do próprio sistema musical português?

RA: Completamente! Passo a exemplificar: se os Gift vão à América, uma comitiva de jornalistas faz as malas para fazer história a esse feito, nem que tenham uma audiência de 5 pessoas. Isso vende e tem trabalho por trás dos manda-chuvas deste país. Se nós tocamos para 5000 pessoas e editamos cd´s no estrangeiro, isso não é notícia. Não vende, é certo. Nem falo das rádios, esses são terrenos onde nem a máfia tem acesso. É o país onde vivemos.

RdB – Em Portugal uma banda pode existir tocando o que gosta ou tem que se submeter a certos esforços?

RA: Eu sou apologista de que tudo o que se faz com amor e talento é bem feito. O resto é merda, cheira mal e quem sente isso não a pisa.

RdB –  O que falta à música em Portugal para que não lhe aconteça o mesmo que aconteceu a Ruby Ann & Her Boopin’ Boozers?

RA: Muita coisa. Enumero de seguida as mais importantes: falta de salas de espectáculos e bares onde se pratique música ao vivo, algum serial killer que irradie as multinacionais e promotores de espectáculos com interesses lucrativos e não qualitativos, a eliminação das “k7” que se repetem vezes sem conta no espaço de antena das rádios.



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