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“Maior”, de Clara Andermatt

A dança não tem idade.

O espectáculo começa no pequeno auditório do CCB. Ouve-se, em voz off, um emaranhado de frases, palavras soltas. “Olho pela janela”, “não finjo que estou a ver”, “vejo”; “Sinto a forma”, “trabalho o tronco”, “troco de lugar”, “conto até três”, “conto outra vez”… No palco, claro, amplo, move-se o preto, move-se o branco. Suavemente pessoas aproximam-se da boca de cena, umas menores, todas MAIORES.

Trazem expressões mudas, contudo gritantes. Inspiram e expiram um ar cheio de música, cheio de um tudo ou de um nada. Agarram uma bola que não se vê. Fecham a cortina do espectáculo da vida e os corpos absorvem lentamente novas emoções; são agora lava que transborda quais vulcões em erupção.

Alinham-se numa diagonal imperfeita e ligeiramente inclinados permanecem, enquanto outros membros do grupo se juntam. Novo ritmo. Movimento. Tira isto daqui, põe ali. Sai. Sai! Fica o branco, o preto. Ela comanda a dança na sua doçura de estar. Nova iluminação, uma guitarra geme suave e, devagar, devagarinho, descobre. O quê? Não sabe… Mas para seu deleite, desce por toda ela. Fecha o livro; abre o livro. Porquê? Explica-me porquê. Porque sim! Vai por aí. Não, não é por aí… Não quero ir por aí! Anca para um lado, anca para o outro. Andam. Quase que andam mesmo parados. Depressa, mais depressa. Correm. Estarão presos a algo? Presos a um corpo que pode, já não podendo mais? Um sopro, um salto, o balanço. O câmbio da música. A luz muda, escuro, mais escuro e voltamos ao mesmo lugar.

Convidada pela Companhia Maior, que se dedica a dar voz e espaço artístico aos que já “amadureceram”, Clara Andermatt, apresenta-nos este encantador espectáculo: Maior. Ao todo foram dois meses de trabalho diário com intérpretes “maiores de 60”, para quem a dança, para a maioria, não fazia parte da vida. O resultado: o melhor! O espectador é brindado com uma beleza estética singular e um sem número de sensações díspares mas marcantes. Os “Maiores” ganham vida, relevância e presenteiam-nos com o melhor deles próprios, reconquistando destaque numa sociedade que por vezes, muitas vezes, tende a esquecê-los. O palco é deles, o palco é nosso. Afinal, “we are not getting any younger”!

“Maior” será apresentado em Almada em Janeiro.



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