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Mammuth

Um elefante no país das maravilhas.

Gérard Depardieu sempre teve tendência para engordar, mesmo novo, tinha um corpanzil que lhe augurava uma certa fartura, o que não o impediu de ser um dos grandes galãs do cinema francês, dos poucos que conseguiu um certo estrelato nos Estados Unidos. Se Depardieu costuma esconder as gorduras em elegantes blazers de intelectual francês de meia-idade, em “Mammuth”, da dupla de argumentistas e realizadores Gustave de Kevern e Benoît Deléphine , descobre-as, usa-as quase como adereço.

Depardieu é Serge Pilardosse, dito Mammuth, não só pela sua forma elefantina, como por ter uma mota do mesmo nome. Pilardosse é um papel corajoso para um actor da estatura de Depardieu, é um homem de classe baixa, pouco inteligente, que trabalhava na indústria da carne de porco, antes de ser reformado compulsivamente, um protagonista pouco habitual num certo estilo de cinema francês. Houve quem equipara-se esta interpretação à de Mickey Rourke em “The Wrestler”, de Darren Aronofsky, o que não é totalmente deslocado, o grau de exposição do envelhecimento, dos defeitos físicos dos dois é idêntico.

A premissa do filme é simples: para ter a reforma completa, Pilardosse tem de ir em busca de papeis comprovativos de que trabalhou onde diz que trabalhou. Como foi toda a vida um nómada, a viagem vai ser grande, uma odisseia por uma França entre o hiper-realista – dada pela imagem granulada, sobre-exposta, a realçar a fealdade de tudo – e o efabulamento – nos diversos personagens e situações estranhas que encontra pela estrada fora.

Um filme deste tipo, episódico, vive ou morre da piada de cada cena. E o humor absurdo de “Mammuth” funciona menos vezes do que deveria, para uma ou outra situação divertida, há incontáveis cenas que testam a paciência do espectador. O fantasma de uma antiga paixão, interpretado por Isabelle Adjani, se na primeira cena em que aparece dá arrepios, acaba por ser mais uma fonte de misticismo new age, a filosofia subjacente a esta fita.

“Mammuth” encontra alguns paralelismos em “O Rei da Evasão”, de Alain Guiraudie, partilham alguns defeitos, mas falta-lhe a imaginação mais fértil do segundo. Vale a pena pela disponibilidade total de Depardieu e pouco mais.



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