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Manel Cruz

Silêncio, que se vai ouvir o Manel.

Bilhetes esgotados para o último dia do Festival para Gente Sentada em Santa Maria da Feira. Causa? A estreia de Foge Foge Bandido, ou antes, o (muito aguardado) projecto a solo de Manel Cruz, frontman dos Ornatos Violeta, Pluto e Supernada.

Com o lançamento de “O Amor dá-me Tesão/ Não fui eu que estraguei”, Manel Cruz mostra ao público cerca de quarenta canções que manteve secretamente guardadas no seu computador durante os últimos dez anos. E há mais. Além da música, conta com participações especiais de amigos, família e até de um gato. Tudo envolvido num livro. Sim, livro. Ilustração e música? É este o objecto lançado por Manel Cruz. Os fãs aplaudem.

E são exactamente estas as figuras centrais no segundo dia do Festival para Gente Sentada. As centenas de fãs. Não do Foge Bandido (será que os podemos misturar?), mas sim de Manel Cruz. Os fãs que aguardam ansiosamente que as portas abram. Os fãs que gritam antes do “nosso” fugitivo entrar em palco.

E o Manel não os desiludiu. Escondido por detrás de uma panóplia de instrumentos e acompanhado por Eduardo Amorim e Nuno Mendes, Bandido torna-se o livro “O Amor dá-me Tesão / Não fui eu que estraguei” em palco. E os fãs agradecem o intimismo.

Apesar de ter tido os problemas técnicos e alguma insegurança de um primeiro concerto, Manel Cruz provou porque é considerado um dos nomes da música em Portugal: a vontade de arrojar e a sinceridade musical. E a Rua de Baixo agradece.

Aqui segue a entrevista exclusiva com o “bandido”, depois do concerto. Boa leitura.

Agora que o concerto acabou, qual o feedback? Qual é a sensação de fazer o primeiro concerto de Foge Foge Bandido para uma plateia com família … mas também fãs emocionados?

É natural que haja muita expectativa para o primeiro concerto. Depois do primeiro, os restantes irão fazer já parte de um grupo de concertos…

E para ser sincero, não gostei muito! Houve momentos que soaram muito bem, mas foi um concerto muito esforçado. Temos as coisas muito esquematizadas e é a primeira vez que as vamos experimentar.

Logo é natural que sintas muito mais nervosismo… e em festivais é mais complicado porque tens sempre muito menos tempo. É muita coisa a acontecer… Tens pouco tempo para montar, desmontar. Chegas ao concerto uma pilha [de nervos]…

Então qual foi a razão do primeiro concerto de Foge Foge Bandido no Festival para Gente Sentada?

Eles convidaram-me antes… antes mesmo de eu saber que ia fazer o Foge Bandido. Pensei então em serem apenas três músicos, fazer um concerto mais intimista – porque a banda vai ter cinco membros. Mas nunca imaginei que fosse tanto frenesim, montar, desmontar. Mas pronto, correu fixe. Passa-se tanta coisa aqui dentro (risos). Se trouxesse só uma guitarra, seria mais simples. Agora com tanto instrumento, gravador, um deixa de dar, o outro falha, etc…

Mas depois também vi a reacção das pessoas e pronto. O som para a frente estava fixe, o som no palco estava difícil…

Falando de “O Amor dá-me tesão / Não fui eu que estraguei”… como é que estas músicas se tornam um reflexo da tua vida? E tendo em conta que a maioria fala de amor… és um romântico?

Sim, maioritariamente talvez, mas também muitas canções são antigas, na altura em que se calhar escrevia mais concretamente sobre amor (risos). E depois há outras que podem também ser sobre amor, mas outras formas de amor…

Era uma coisa que já tinhas planeada aos 20? Chegar aos 30 e lançar um álbum autobiográfico?

Não… porque isto também foi existindo… vamos despejando as ideias para o computador e começando a desenvolver. Depois olhas para aquilo e dás-te conta que tens músicas! E olhando para as músicas e sendo tão diferentes, comecei a pensar “ah isto vai ser o meu disco de acústica, este vai ser o disco mais tecnológico”…  e ia fazer para aí uns sete discos (risos).

Não és propriamente um músico com uma estratégia comercial. No entanto, deu muito resultado, como se pode ver pelo público neste concerto. Costumas pensar nisso?

Também não sou tão ingénuo a ponto de dizer que nunca me passaram essas coisas pela cabeça. Eu sempre achei que um gajo fazer campanha de si próprio não é necessariamente o que dá frutos. Sempre achei que as coisas iriam acabar por resultar, embora o que me movesse fosse sempre a ideia de que se eu estiver concentrado a fazer aquilo que gosto, o resto haveria de chegar. Então nunca perdi tempo a pensar nisso.

[Entra um membro da organização para o Manel autografar alguns livros]

Acho que as coisas quando são mais discretas são mais apelativas. Sinto que quando vejo alguém que é conhecido pelo que faz, e é discreto, fico com mais interesse. São maneiras de funcionar, não digo que seja mau ou bom. Sempre achei que se tivesse de ter sucesso, haveria de ter pelo trabalho ser fixe.

Então acabas por ser um privilegiado: consegues fazer música e sobreviver disso…

Mas trabalho muito, muito, muito! Não digo que trabalhe mais que os outros, mas trabalho tanto como uma pessoa que tem um horário de função pública. Evidente que faço o que gosto e que quem corre por gosto não cansa, mas também no meio do trabalho que se gosta, há muito trabalho que depende de uma auto-gestão e de saberes puxar as orelhas a ti próprio muitas vezes… muita auto-crítica! Além de teres muito trabalho de computador, grandes secas, horas perdidas, avarias, mas que também fazem parte do trabalho… e depois tens de fazer trabalhos para clientes, etc.

Consegues conciliar toda a questão criativa com essa parte mais burocrática?

Vou conseguindo (risos)! Faço o que gosto…

O Manel fora daquilo que o público já conhece… tem mais alguns sonhos?

Gosto muito da ideia de filmar, de fazer animações, mas não há tempo para tudo. Penso que há coisas que vou fazer quando for mais velho… não é a pensar na reforma, mas quero acreditar que vou ter tempo para outras coisas, também quando já estiver cansado de outras. Gosto de filmar, gosto de electrotecnia e gostava de aprender, criar objectos, montar e desmontar…

És um detalhista?

Sou muito obsessivo, obcecado (risos)!

Estávamos a falar ainda há pouco dos fãs. Eles admiram-te. Fazendo uma busca na Internet, são inúmeros os fóruns que encontramos que te tratam como se te conhecessem da porta ao lado. Como te sentes?

Por um lado há uma vaidadezinha, claro. Mas ao mesmo tempo, quando tens uma vida normal, faz um pouco de confusão. Mas depois começas a habituar-te e a dar o valor respectivo. Mas também a saber separar as coisas. Eu também já idolatrei outras pessoas, mas já não vou pedir um autógrafo.

[Entra um homem a pedir dois cigarros]

Se calhar há idades mais propensas a isto. Mas depois há outra coisa: por um lado, um gajo gosta de ser discreto e que não lhe dêem muita importância, mas por outro lado queres que ta dêem! Se pudesses escolher, montavas assim tudo à tua feição (risos)!

Incomoda-te que a próxima questão seja sempre: Para quando o regresso dos Ornatos Violeta?

Opa …(um ligeiro constrangimento).

Acho difícil. Eu às vezes penso assim: se um gajo se juntasse (o grupo), se pudesse fazer esta experiência, fazíamos uma musica, dávamos um nome, até poderia ser Pluto… tenho quase a certeza que iriam dizer “Mas os Ornatos é que eram!”.

[Entra uma rapariga à procura do pai – o senhor dos cigarros]

Criou-se um mito à volta, que é natural, as pessoas agarraram-se às ideias. Mas não tem só a ver com os Ornatos, tem a ver com o momento, já não somos as mesmas pessoas. Íamos de certeza fazer outras coisas, que não acho que sejam necessariamente piores, mas não iam ser o retomar do ponto que deixámos. E corre o risco de se estragar, pelo menos eu sinto assim. Então prefiro não ir por aí.

E planos a partir de agora?

Dar concertos com o Foge Bandido. Concertos inteiros. E acabar o disco dos Supernada, também está mesmo a acabar. Estamos a gravar vozes e guitarras, parámos um pouco agora por causa deste concerto e dos ensaios, mas vamos retomar em breve.

[Entra a família]

Última pergunta: achas que deste um bom dia dos namorados aos fãs que que assistiram ao concerto?

Espero que sim (risos). Politicamente correcto.



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