Mano Negra

Retrospectiva em DVD.

Conheceram-se no metro de Paris e separaram-se a bordo de um comboio na Colômbia. Para quem não conhece Mano Negra, o mais fácil a fazer é dizer que Manu Chao foi o seu líder indiscutível e que de 1987 a 1994 foram um caso sério de sucesso pela Europa e Mundo fora.

Manu Chao gozava já nesta altura de um certo reconhecimento no meio alternativo parisiense e era uma figura bastante estimada que já vinha fazendo história no rock francês dos anos 80 com as bandas Los Carayos e Joint de Culasse que mais tarde seriam conhecidos por Hot Pants.

Os Mano Negra aparecem na cena musical parisiense a meio dos anos 80, com um estilo sonoro ecléctico cantado em castelhano, francês e inglês, onde o dub se misturava com bases à la Clash e Chuck Berry e com toques latinos percussivos que se fundiam ora com ska ora com reggae. Como eles próprios se definiam… Rock n’ Roll Universal.

Durante quase uma década percorrem todo um circuito underground europeu que culminou numa digressão explosiva pela América do Sul.

Por lá, os Mano Negra deram conta que haviam saído do seu esquema original e decidiram voltar aos seus antigos costumes. Em 1992 decidem pegar na ideia de juntar um grupo de teatro francês, cujo objectivo era viajar de barco por toda a costa atlântica sul-americana realizando festivais culturais com música e teatro em cada porto e terminar com um grande festival no Rio de Janeiro.

A ideia realizou-se e decidem integrá-la na sua digressão mundial, que se chamou Cargo Tour 92. Em finais de 1993 levaram a cabo outro projecto que consistia em percorrer estradas colombianas de Bogotá até Santa Martha de comboio.

Aos Mano Negra juntaram-se Ramon Chao (pai de Manu Chao) e um grupo de colaboradores franceses e sul-americanos. A viagem ocorreu com muitas turbulências, tiveram problemas com guerrilhas locais para poderem transitar e houve conflitos no seio do grupo, o que levou ao abandono de alguns membros da banda, mas mesmo assim o grupo projectou toda a sua energia nas várias estações de comboio colombianas.

Das coisas boas que resultaram destas viagens uma delas é sem dúvida o livro que Ramon Chao escreveu e que relata todas as experiências vividas, o livro chama-se “Un Train De Feu Et De Glace” (“Um Comboio de Fogo e de Gelo – Mano Negra na Colômbia”), um importante documento da vida do grupo.

Os Mano Negra desintegram-se em 1995, deixando-nos como herança 6 álbuns magníficos. Manu Chao decide juntar alguns músicos e monta uma nova banda, os Radio Bemba Soundsystem, Clandestino e Próxima Estación: Esperanza, fazem o resto de uma história de sucesso já bem conhecida do ex-vocalista dos Mano Negra.

DVD – Mano Negra
Out of Time
2 DVD Emi Music France/EMI

Se bem que este DVD é mais uma pequena pérola para os fãs de Manu Chao, a verdade é que se escondem nele histórias fabulosas de viagens sem destino que os Mano Negra decidiram encetar.

Para além das marcantes viagens artísticas pela América latina, mostra-nos documentários que servem muito bem como arma de arremesso política. Sabendo que o grupo esteve sempre ligado a facções esquerdistas (chegando mesmo a ser acusado de financiamento do grupo independentista basco E.T.A) este documento visual e sonoro, avisa-nos que a palavra tem que ser escutada e a luta anti-capitalista é levada muito a sério, sendo os próprios Mano Negra que nos mostram como isso influencia toda a sua caminhada musical.

Os sons do Caribe mesclados com o puro rock passeiam-se à nossa frente, seja num bar onde o cheiro a vinho derramado no chão é nauseabundo, seja numa praça pública onde a multidão se arrasta e chega mesmo ás 100 mil cabeças, na Bolívia.

Out of Time é uma importante peça num puzzle musical que há muito tentam decifrar. Para quem achava que Manu Chao tinha feito Clandestino a partir do nada, ficamos a saber que já o fazia muitos anos antes de ser o que é e quem é hoje em dia.

Há quem diga que a banda terminou porque Manu convidava sempre muitos músicos para tocarem ao vivo com Mano Negra. Já nessa altura se via um Manu Chao em vias de crescimento além fronteiras. Documentário de consumo obrigatório.



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