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Manobras no Porto

Há sempre espaço de manobra para a Cultura.

Manhã do dia 28 de Outubro, estação de metro da Trindade. Entre o frenesim típico dos que correm para o trabalho algo se destaca: o espaço fora invadido por vacas. Sim, os olhos não enganam: vacas. Estava lançada a primeira acção de rua do “Manobras no Porto”, definida como “Meia de Leite Directa”, onde os transeuntes poderiam experimentar um pouco da ruralidade quase extinta levada à cidade.

Durante cinco dias de intensa actividade cultural, o Porto assistiu a manifestações artísticas de índoles diversas, numa conjugação de perfeita simbiose entre a contemporaneidade urbana e arte tradicional, sob o desafio “Que cidade é esta? Que cidade pode ser esta?”. A interacção entre os artistas e o público, assim como a sensibilização para a cidade e para os seus espaços, demarcaram este evento, atraindo apaixonados por arte, curiosos, famílias e populares que não conseguiram ficar alheios ao dinamismo criado em seu redor, com documentários, conversas, dança, teatro, concertos, exposições, acções de rua, instalações artísticas, jogos e murais, que se espalharam em acções maioritariamente momentâneas pelo centro histórico da cidade.

O último dia do “Manobras no Porto” começou pelas 10h, no Largo do Viriato, perto do Hospital de Santo António. Os intervenientes começavam a surgir timidamente, questionados sobre as marcas desenhadas no pavimento, que se estendiam pelas ruas, até perto do Edifício da Alfândega.

Alguém perguntava “Mas para que é que isto serve?”. A resposta não tardou. “É uma brincadeira que pretende chamar a atenção para os espaços. Estes espaços.” Estava lançado o mote para o Jogo da Glória. Com organização do grupo Panmixia, a encenação humorística começou junto aos Balneários do Largo do Viriato, à entrada da Rua das Bandeirinhas, onde populares procuravam avidamente, por entre as páginas de um jornal, explicação para o que ali acontecia. Pés ao caminho, segurando o Roteiro do Grande Jogo da Glória de Miragaia nas mãos, onde figuram as 63 casas do jogo e a sua explicação (“31. As Trinta Moedas não trazem felicidade. Têm que ser muitas mais, porque as coisas que nos fazem felizes são muito caras. Trinta moedas e quarenta ladrões não dá conta certa.”), as paragens foram feitas para contar a história da paixão dos filhos de Manuel Ventura Faria (Henrique, Vitorino e Sebastião) por Inês, que terminou junto do Palácio das Sereias. O percurso continuou pela Rua do Monte dos Judeus, onde se começou a desenhar um workshop para aguentar a crise. A primeira abordagem, junto à casa 21, “O Enforcado”, demonstrou que até os nós de uma forca só se conseguem à terceira tentativa.

Em aproximação a uma escadaria afunilada, ouve-se a melodia de «Pó de Arroz», de Carlos Paião. Segunda forma de encarar a crise: dançar. Os populares saíram das suas casas e juntaram-se ao baile improvisado, por entre escadas e cordas de roupa a secar. Simulam-se marchas e arraiais até que a música pára. As senhoras de bata e avental regressam a suas casas para acorrer ao almoço que ficou no fogão. O grupo retoma o seu percurso e vê-se envolvido numa manifestação que termina com elementos encapuzados da Libertação de Miragaia, que rapta um elemento do público.

A lista de exigências perante o negociador vai longa (os Balneários do Largo do Viriato abertos domingos e segundas, toalhas mais baratas, um offshore na Madeira, um copo de água e um café, um apartamento para a filha Zéza que se vai casar e um Toyota para o filho, 5€, tabaco e um carro para sair dali para fora) quando um popular se aproxima e grita: “Fecha a gaveta da caixa registadora!”. Na Viela da Ilha do Ferro é declamada a três vozes a história de D. Ramiro e Aldora, cuja cabeça “chora no fundo do rio Douro a morte do seu rei mouro, ninguém sabe ao certo onde. Shlack, shlack, shlack.”. A casa 55, “O Compasso”, requer um minuto de silêncio por Viriato, consta que faleceu ali, nas cheias.

Chegados a um pequeno largo, todos os elementos são agrupados em naipes. Em poucos minutos, o tema principal de “2001: Odisseia no Espaço” prontíssimo, a várias vozes, ecoava nas paredes das casas de Miragaia, atraindo ainda mais curiosos que foram engrossando o grupo inicial, onde já constavam turistas que não proferiam uma única palavra de Português. Cestos de piquenique, uma bola de voleibol e um final inesperado no acesso à Rua Nova da Alfândega encaminharam os presentes para o Almoço de Domingo, a acontecer nos Jardins do Palácio de Cristal, com farnel e animação à mistura.

Em direcção ao Palácio, uma pequena paragem no Miradouro da Bateria da Vitória (muito perto do Mosteiro). “Cúpulas de calças e camisas”, instalação artística de André Vasconcelos, faz jus à vivacidade dos estendais de roupa que tanto caracterizam as fachadas tipicamente portuenses. Pequenas cúpulas formadas por peças de roupa comuns (verdadeiramente camisas e calças), que se agitam levemente com vento, criando jogos cromáticos de interacção com a luz.

No Palácio, as toalhas de quadrados coloridos já se encontram dispersas pelo relvado, procurando as sombras existentes. Na Concha Acústica, fazem-se os últimos testes de som, enquanto que algumas pessoas, precavidas ou simplesmente fatigadas, começam a ocupar as cadeiras para o concerto que se realizará algumas horas mais tarde. Entre música electrónica dos anos 80 e percussão improvisada no relvado, a massa humana começou a ser tão expressiva quanto a animação a ela inerente. A pouco e pouco, começam também a surgir elementos fardados, ora de verde, ora de azul, algumas vezes acompanhados por instrumentistas integralmente vestidos de negro. São a Banda Militar do Porto, a Banda da PSP do Porto e a Orquestra de Sopros o Conservatório de Música do Porto, ali presentes para o evento “Bandas em Manobras”, onde serão interpretadas quatro peças para bandas marciais, criadas para a ocasião, por parelhas de compositores algo inusitadas: Ângela da Ponte com Pedro Cardoso “Peixe”, Eugénio Amorim com António Serginho, Fernando Lapa com Newmax e Rui Penha com Rui Reininho. Alguns arranjos electrónicos ficaram a cargo dos compositores João Menezes, José Alberto Gomes e Rui Dias. Já a batuta esteve a cargo do maestro Paulo Martins, nome sonante da direcção de bandas marciais.

Para quem julgava que um conjunto enorme de percussão e sopros (muitos deles metais) a tocar peças que poderiam delinear um certo psicadelismo estrutural (consequência das sinergias de composição) seria uma amálgama de sons indescritíveis, ilógicos, agressivos, facilmente percebeu que a resultado estava muito longe disso. A delicadeza de alguns momentos (como o que pareceu ser uma breve alegoria à peça 4’33” de John Cage, com o som dos pássaros a quebrar o silêncio instrumental), as harmonias dissonantes que se resolviam na perfeição ao fim de cada compasso e a intensidade controlada de melodias que cavalgavam para acompanhar o ritmo estabelecido pelos timbalões transformaram este concerto num dos pontos altos do “Manobras no Porto”, cumprindo, com toda a certeza, a missão de sensibilizar a população presente para arte e para os artistas que esta cidade tem dado à luz.

Ao final da tarde foram distinguidos, no Grupo Musical de Miragaia, alguns documentários premiados. Os laureados foram “PREITO – Olhares de Respeito”, de Manuel Pinto Barros, para a Categoria A (menção especial do júri para “Pernas para que te quero”, de Vasco Mendes e Andreia Garcia) e “Alegria com firmeza, firmeza com alegria”, de Tiago Cabral, na Categoria B.

Algumas das exposições criadas para esta manifestação cultural poderão ainda ser visitadas, como é o caso de ”O Colectivo Underdogs em Exposição” nos Maus Hábitos.

A Cultura está viva em todas as avenidas, ruas e vielas da cidade. Mais do que nunca.



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