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Manuel Fúria e os Náufragos @ Ritz Clube (19.04.2013)

A noite dos heróis

Por norma, uma reunião de amigos é um momento especial, uma ocasião para trazer a saudade ao presente, para ver companheiros de longa data, para recordar sons que marcaram o tempo e que o calendário teima em não apagar.

E como fazemos para reunir a malta? Falamos com as pessoas, pensamos num lugar para a celebração e entregamos alma e coração ao acontecimento.

Foi isso que aconteceu no Ritz Clube na noite de sexta-feira. Com a feliz desculpa de tocar na íntegra o seminal “Mãe” dos Heróis do Mar, Manuel Fúria e os seus Náufragos convidaram camaradas de luta, amigos de longa data e ídolos de adolescência.

O concerto fez parte do cartaz do IndieLisboa 2013 e contou com o precioso apoio da revista Blitz e do canal SIC Radical. Do rol de amigos convidados, muitos mesmo acreditem, pois isto da amizade não tem fronteiras, saltavam à vista alguns nomes da nova e brilhante vaga de artistas nacionais que se misturavam com veteranos.

Pelo pequeno palco do Ritz passaram Rui Pregal da Cunha, Samuel Úria, Pedro de Troia, Francisco Xavier, Almirante Ramos, Tiago Guillul, Alex d’Alva Teixeira e muitos, muitos mais. Tantos, que qualquer movimento em palco chegou a ser um exercício de inolvidável perícia.

Antes do concerto, o número 57 da Rua da Glória servia de ponto de encontro onde se trocavam palavras, abraços, elogios. Sentia-se o espírito de camaradagem. Alguns sortudos puderam mesmo tirar uma foto com um antigo herói marítimo ou ver o velhinho vinil de “Mãe” autografado. O ambiente era de descontracção total.

Poucos minutos antes das 23, Manuel Fúria reúne tropas, a rua fica vazia e o Ritz começa, muito lentamente, a encher. À entrada, as pessoas anunciam-se. “Eu sou da Banda…”, diz-se. Depois de conferida a lista de convidados lá se sobe a escada escarlate do Ritz.

Na sala a expectativa sentia-se mas ninguém tinha pressa. O palco estava preparado para receber a família reunida pelo líder dos Náufragos e, quando a sala estava já muito bem preenchida, Manuel Fúria surge em palco. Ainda que pouco habituado a discursos, Fúria não perdeu a oportunidade de agradecer a todos os que pisariam o palco, bem como a outros que ajudaram a tornar “Mãe” num dos episódios mais marcantes da história da música portuguesa. Segundo o ex-vocalista dos Golpes: “este concerto é um acontecimento único, irrepetível e especial”. Quem teve o privilégio de o assistir pode confirmar isso mesmo.

A primeira música na noite, «Volta P’ra Mim», fez regressar os presentes a 1983. De braçadeira, quais capitães no mar alto da nossa memória, os músicos entravam em palco tornando o mesmo pequeno mas aconchegante. O assobio de Manuel Fúria, bem secundado pela bateria de Fred Pinto Ferreira, iniciou a celebração e o calor da música tratou de invadir a alma dos presentes. Em palco a formação era “mínima” e os oito músicos gozavam, ainda, de algum espaço de manobra.

«Cachopa», um dos muitos hinos dos Heróis do Mar, trouxe ao já lotado palco do Ritz a primeira colaboração vocal da noite e a honra coube ao extrovertido Alex D’Alva Teixeira. O resultado foi uma versão bastante aplaudida da segunda faixa de “Mãe”, com o público a bater palmas e a entoar o refrão a compasso.

Aquando de «Nunca Mais» estavam em palco cerca de duas dezenas (!) de pessoas. Para além da guitarra, baixo, bateria e teclas, juntavam-se dois tambores, dois violinos, um trompete, um saxofone e um coro composto por diversas vozes. Esta autêntica filarmónica arrancaria para uma brilhante versão da terceira música da noite e a voz de Manuel Fúria soava (e soa) deliciosamente concentrada.

Antes de «Adeus» afinam-se guitarras, trocam-se sorrisos e abraços. A entrada marcial da composição capta a atenção de todos e a intensidade da música traz ainda mais saudades de uma das bandas que mais marcou o panorama musical na década de 1980. Rui Pregal da Cunha e seus pares foram, sem dúvida, uma das maiores referências sonoras de um Portugal que pretendia encontrar uma identidade, um perfil pessoal e que não virava costas ao passado.

Aos primeiros acordes de «Portugal» a falua cantada por Manuel Fúria arrancou um dos maiores aplausos da noite e embalou os presentes já totalmente entregues à festa que este concerto se tornou.

O único “Herói” a subir ao palco do Ritz foi Rui Pregal da Cunha, que vestido a rigor se atirou de cabeça a uma excitante «Cinco Soldados». O antigo vocalista dos LX90 mostra estar em grande forma e durante alguns minutos matou saudades aos presentes, ávidos por “rever” a voz de “Amor”. O baixo de Alex Cortez, dos Rádio Macau, abrilhantava a prestação e o clima festivo estava ao rubro.

A última de “Mãe”, «Se Fores ao Norte», uma das composições mais dançáveis dos autores de «Paixão», contou com uma presença mais vincada de Samuel Úria nos coros. Os músicos tinham espaço para brilhar e os solos sucediam-se em género de jam session. Manuel Fúria aproveitou para apresentar todos os elementos que o acompanharam em palco e o mesmo foi ganhando espaço. Terminava a apresentação de “Mãe” mas não a festa.

Com o palco vazio durante breves instantes, o público entoava o regresso dos artistas e Manuel Fúria e os seus Náufragos voltariam para brindar a assistência com duas canções em nome próprio. A imagem por detrás do palco mudou (depois da Nossa Senhora aparecia agora uma paisagem bucólica) e «Haja Festa Não Sei Onde» e «Canção para Casar Contigo», uma ode ao matrimónio que parece estar próximo, arrancaram aplausos, saltos e muita emoção.

A festa não terminaria sem que Samuel Fúria, Alex d’Alva Teixeira e o próprio Manuel Fúria mergulhassem literalmente para cima de um público rendido numa noite especial. E por entre abraços, risos e muita animação, a última prestação da noite trouxe aquilo que todos queriam: «Alegria». Foi com outros dos sucessos dos Heróis do Mar que a noite chegaria ao fim e a sensação de que se tinha assistido a um concerto memorável era unânime. Afinal, há alguém capaz de nos dar o que queremos.



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