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Mão Morta

"Ventos Animais" foi o nome escolhido para simbolizar o regresso dos Mão Morta aos concertos. Adolfo Luxúria Canibal, o líder de sempre, falou com a Rua de Baixo sobre 25 anos de rock’n’roll.

Os bracarenses Mão Morta regressam aos concertos este mês de Março com a digressão “Ventos Animais”, regresso do grupo “à liberdade do clássico concerto musical”.

A digressão “Ventos Animais” (título de uma canção do segundo disco do grupo de Braga, “Corações Felpudos”) é descrita pela banda como um regresso “à liberdade do clássico concerto musical”, sendo de esperar no alinhamento dos espectáculos canções como «E se depois», «Budapeste», «Em Directo (Para a Televisão)» ou «Cão da Morte». Porto, Lisboa, Portalegre e Torres Vedras são algumas das cidades que recebem a “festa rija e inesquecível” que os Mão Morta têm para oferecer aos seus fiéis adeptos de sempre e eventuais novos curiosos por uma das mais carismáticas bandas nacionais. Este mês de Março verá também a edição no mercado do DVD “Maldoror”, e foi precisamente esse o ponto de partida para a conversa da Rua de Baixo com Adolfo Luxúria Canibal, vocalista e figura central dos Mão Morta.

“Ventos Animais” surge depois da etapa “Maldoror”. Que balanço fazes desse projecto e o porquê do regresso aos espectáculos mais “convencionais”?

O balanço é francamente positivo. Por um lado, artisticamente, conseguimos o objectivo que nos propusemos e que à partida parecia impossível de alcançar: transpor os “Cantos de Maldoror” para um outro espaço e uma outra linguagem sem trair o livro e dando-lhe uma leitura pessoal e inteligível. Por outro lado, não foi um fiasco financeiro, conseguimos que o espectáculo circulasse bastante mais do que o “Müller no Hotel Hessischer Hof”, as salas estiveram lotadas, o público saiu satisfeito e a crítica teceu bons comentários… Que mais poderíamos desejar? Ainda deu origem a um CD, já esgotado na editora, e a um DVD. Mas tudo isto foi conseguido com muito esforço, foram mais de três anos concentrados nesse objectivo; o espectáculo em si era extraordinariamente absorvente e desgastante, sem espaço para improvisos – estávamos a precisar do caos do bom velho rock’n’roll para equilibrar a mente, daí a digressão “Ventos Animais”.

Este ano os Mão Morta comemoram 25 anos de carreira. Há alguma celebração prevista para assinalar a efeméride?

Para ser sincero, nem nos lembrámos que fazíamos 25 anos! De qualquer modo, isso só acontece em Outubro e, até lá, havemos de pensar em alguma coisa… Senão, para este ano, independentemente do aniversário, tínhamos planeada a reedição dos nossos primeiros 4 discos – “Mão Morta”, “Corações Felpudos”, “O.D., Rainha do Rock & Crawl” e “Mutantes S.21” –, em caixa de cartão e em separado, a edição do disco com a banda sonora para os filmes da Maya Deren que apresentámos no Curtas de Vila do Conde do ano passado e a gravação e, se possível, edição do nosso próximo álbum de estúdio. Se calhar nem precisamos de mais nada para comemorar condignamente o 25.º aniversário!…

Discos, DVDs, livros, concertos, etc. Os Mão Morta parecem já ter feito e editado um pouco de tudo. O que vos falta? O que vos motiva a continuar?

Basicamente o que sempre nos motivou: o prazer da música! Tudo o resto são acréscimos, oportunidades aproveitadas, o não gostar de ficar com coisas penduradas e material na gaveta.

A um nível pessoal, Adolfo, como é o teu dia-a-dia? Exerces regularmente a advocacia? Conseguirias optar entre estares ligado somente à música ou somente à advocacia?

O meu dia-a-dia não há-de diferir muito do dia-a-dia da maioria das pessoas: casa-trabalho-casa! Não exerço a advocacia desde 1999, mas trabalho como jurista, o que me retém no escritório a maior parte do tempo até ao fim do dia, às vezes até à noite, consoante as urgências em mão. Volta e meia tenho afazeres fora do escritório, reuniões, inquéritos, que me podem levar para o meio da floresta, para Lisboa ou para o estrangeiro. À noite ou de manhã cedo ocupo-me da música, da escrita para canções, tal como nos fins-de-semana, quando não tenho concertos ou não vou a Paris ou a Cork visitar os meus filhos, normalmente uma vez por mês.

Há tempos escreveste umas palavras sobre os Peixe:Avião, também de Braga. Parecem surgir outros colectivos da cidade. Como está Braga, musicalmente, em 2009, e quais as grandes diferenças para os anos do vosso começo?

Acho que a cidade está com uma boa e diversificada produção musical, fruto da concentração de músicos nas salas de ensaio construídas há três anos sob a bancada do estádio 1.º de Maio. Mão Morta, Peixe:Avião, Smix Smox Smux, Mundo Cão, Monstro Mau, Holyllama, Astroboy são tudo bandas que ensaiam aí e que aí partilham ideias, afinidades, material, e são, a maior parte delas, uma primeira fornada do que essa partilha pode gerar – mas acredito que mais irá surgir! Até então, também surgiam grupos na cidade, mas isolados, sem intercâmbios entre eles, sem crescimento sustentado. Antes ainda, quando os Mão Morta surgiram, a cidade atravessava um momento singular, em que havia muitos grupos mas todos no seio do mesmo núcleo de pessoas – um pouco o que acontece agora com as salas de ensaio mas a uma escala mais reduzida e com as afinidades garantidas à partida. Mas nessa época os interesses que uniam esse núcleo de pessoas só residualmente eram musicais…

Pergunta final: Budapeste, Braga ou Lisboa?

Para quê? Para viver, sem mais preocupações a não ser decidir a cidade, Budapeste é a escolha lógica e imediata, tanto mais não seja porque nunca lá vivi. Quanto a Braga e Lisboa, já vivi nas duas – mais em Lisboa do que em Braga – e ambas têm coisas positivas e negativas, a fazer pesar uma ou outra opção em função dos objectivos que se pretendem. Por agora, e em função disso, o prato da balança fez-me escolher Braga…



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