Mão Morta, experimentacular!

Mão Morta, experimentacular!

Os Mão Morta, grupo de rapazolas bracarenses cuja dimensão cultural lhes retirou a origem citadina nortenha, para serem reclamados por todos os cantos onde a língua portuguesa e a melancolia musical seja um combate com a mente, subiram ao palco, como sempre, como agentes desmobilizadores do civismo mainstream que teima em esfaquear a lei e a ordem em palco

Foi uma noite ventosa a de sábado de 30 de Junho que pesou sobre Setúbal para encerrar a 4ª edição do manifesto musical da associação cultural Experimentáculo, o Festival FUMO. Um certame em crescendo na dimensão humana de quem aparece para ver e socializar, mas a permanecer fiel ao lado mais marginal e alternativo da roda musical portuguesa e, claro, a dar tempo de antena a músicos e bandas novas, sem grande espaço de manobra até nos palcos mais recônditos, dos festivais capitalistas que encantam o Verão.

E foi em jeito de prenda inesperada, ou quase milagre, que para encerrar a festa e limpar o suor à Experimentáculo, os Mão Morta, absoluta novidade ao vivo em Setúbal nos seus já longos 28 anos de carreira, descentralizaram malas e bagagens para ancorar no Sado com uma vida de atraso.

Os Mão Morta, grupo de rapazolas bracarenses cuja dimensão cultural lhes retirou a origem citadina nortenha, para serem reclamados por todos os cantos onde a língua portuguesa e a melancolia musical seja um combate com a mente, subiram ao palco, como sempre, como agentes desmobilizadores do civismo mainstream que teima em esfaquear a lei e a ordem em palco, e iniciaram um diálogo de angústia a dilacerar a urgência do espaço com «Tu Disseste». Um clássico que divide a voz e as palavras, da cicatrização melódica que a custo tenta compreender a encruzilhada delatora de vidas mastigadas pela rotina.

Dos bastidores do desalinho social, e a esfregar as feridas que o Convento de Jesus murmura, mas que o património nacional não cuida, «Velocidade Escaldante», uma das melodias mais saudáveis e inocentes a viajar no espaço e no tempo com uma das letras mais insanas a relatar a demência da soberba sexual e junkie expiada pelo proletariado juvenil do álbum “Vénus em Chamas”; na plateia as primeiras e tímidas vozes soltavam-se e a dança foi sua cicerone. Ouviam-se espasmos emocionais e movia-se a extravagância do grito final “ai que eu só quero vomitar”.

O dilúvio cinético que aglomerou a generosa plateia ao palco, e até a farta fila que tentava se inteirar do serviço de bar, teve então a benesse de um inédito a perturbar a ordem natural do vento. Entre os instrumentos e a voz de Adolfo Luxúria Canibal, um tema com mais de “Mutantes” que de outro trabalho qualquer da banda. O nome da música afogou-se no microfone e perdeu-se por entre as telhas e os excrementos de pombos, mas de certo que algum fã mais atento se irá lembrar e com cortesia partilhar. O concerto entrou então numa intimidade, ou num ênfase de quase euforia de motim por parte dos que cercavam a banda no sopé do palco, e, numa introspecção intelectual de esquerda nos subúrbios da manifestação sonora, recebemos «Amor ódio», «Novelos de Paixão» e outros clichés que cozinharam muitas circunstâncias amorosas. Os Velvet cantaram essas novelas, o Iggy gritou-as e os Mão Morta também as criam, com uma singular originalidade cujo fulgor faz de cada concerto um momento único.
 A pestilência que corrói o Convento por momentos corou mesmo com o discurso cáustico debitado por anos de rugas e pálpebras pesadas que os Mão Morta ignoram em palco.

Da fome pornográfica que mordeu as pantanosas conspirações da mente de escritores como Yates, do provincianismo de Pessoa ou do abismo urbano que adoentou Curtis, «Vamos Fugir», um rapé televisivo a escapar debilitado entre as abobadas petrificadas dos claustros do Convento e pelos fartos aplausos do público que a cada música se acercava mais do palco, presos pelas luzes numa trissomia de festim de alcateia após uma caçada. A mesma emoção era reproduzida em palco, nos sufocantes espasmos de uma dança endémica à poesia da palavra do jurista Adolfo Luxúria Canibal. Podia-se ouvir com prazer, escutar sem sentir mas nunca ignorar a soberba que o vento nos oferecia.

Sem que o microfone lhe pesasse na voz, Adolfo e seus musiconautas chocaram um desposo, ou um primeiro encore, após um falso final, numa obrigação bíblica, ou num respeito profético de quem os ovacionou e os reclamou de novo à contenda do realejo pós-punk, que ainda se encontrava num estado pré-embrionário. 

E isso o achavam alguns carteiristas de autógrafos, que durante todo o santo tempo, gritaram «Budapeste», enquanto nas ameias da audiência se suspirava por «Muller no Hotel Hessischer Hof»- “não há Budapeste para ninguém”, parando a insistência e apontando a porta de saída a quem queria desbundar e “rockenrollar” no folclore dos acordes da capital da Hungria. Mas na penumbra, os que queriam folgar a digestão sobre as fossilizadas palavras de Muller, não tiveram melhor sorte. «Budapeste» ficou dobradinha na gaveta e o poeta penduradito no armário!

No pardieiro do momento, «Cão de Morte», a recuperar o insólito alvoroço despoletado por uma ementa de músicas, que afinal a banda não disponibilizara. E, resumindo, «1º de Novembro» a concluir e a embalar o povo para um final épico e a desejar mais Fumo da Experimentáculo, que a associação tem vontade e motivação para fazer e que todos acreditamos que virá. Para a história do FUMO ficam já todos aqueles que tocaram nesta edição, entre eles Mazgani, The Legendary TigerMan e Rita Redshoes, Osso Vaidoso e, claro, estes magníficos Mão Morta.

Fotografia por Nuno Pires. Galeria fotográfica aqui.



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