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Márcia | “Vai e Vem”

Obrigatório.

Ao quarto álbum da sua carreira, “Vai e Vem”, a cantora Márcia atinge um novo patamar da sua carreira. Sempre seguindo o seu próprio caminho, autónomo, sem grandes atribulações ou interferências externas, muitas vezes discreto e sem grandes alaridos, Márcia admite gostar de andar um pouco escondida ou, se quisermos, a trabalhar mais nos bastidores do que propriamente debaixo do brilho dos holofotes. O que é certo é que este talento imenso para a escrita e composição de canções não merece ser assim tão discreto e parece que Márcia também sentiu que era tempo de dar verdadeiro protagonismo a todo o trabalho que tem feito e que é do que de melhor se faz em território nacional.

Sempre rodeada de bons amigos músicos, Márcia trouxe ainda para este seu trabalho da maioridade assumida um conjunto de colaborações belíssimas com três músicos e cantores que são parte da fina flor da música nacional. Disso mesmo é exemplo o tema que dá título ao álbum, “Vai e Vem”, um dueto com o António Zambujo que nos remete para o universo de Caetano mas que é também uma viagem ao mundo mais clássico da música. As duas vozes casam de tal maneira bem que somos levados para uma sonoridade que tem visualidade, é uma dança de vozes, tão harmoniosa quanto profunda e em que ninguém se quer impor. Aquilo que Márcia faz parece fácil, só mais uma balada de guitarra e voz mas na realidade são precisas quantidades industriais de talento e mestria. A voz da cantora sabe exactamente os tempos certos para nos prender à música, sem excessos, simultaneamente frágil, desprendida, forte e em completo controlo da linha melódica.

Márcia Vai e Vem

Márcia Vai e Vem

Neste seu último álbum, um dos elementos que parece resultar mais que nunca é precisamente essa simplicidade que é muito mais difícil de conseguir do que possamos pensar por exigir domínio perfeito das ferramentas técnicas. Se antes a música da cantora já primava pela simplicidade, agora desapareceram por completo as sonoridades electrónicas, voltada que está para um universo mais folk ou rock, recorrendo à guitarra acústica e eléctrica, pontualmente a instrumentos de sopro e coros que piscam o olho ao universo da pop ou a um mash up de sonoridades que nos remete, por exemplo, para a onda da Feist, em faixas como “Manilha”.

 um disco assombroso de música portuguesa composto por uma das mais inventivas, criativas e destemidas cantoras e compositoras

No seu dueto com o já habitual Samuel Úria, “Emudeci”, as vozes dos dois cantores são tão sensíveis que quase desaparecem. Sendo ambos conhecidos pelo enorme talento e capacidade vocal, admitir fazer uma faixa em que praticamente se auto-apagam da mesma é admitir que não é preciso fazer barulho para se ser notado e que não existe qualquer tipo de receio ou limitação para a criatividade – e também que ninguém tem nada a provar a ninguém. Esse caminho musical tem continuidade na faixa seguinte, “Mil Anos”, já mais próximo do espírito country rock, e mesmo na faixa que Márcia levou à última edição do Festival RTP da Canção, “Agora”. É esta a faixa mais crua e representativa do “novo” espírito da cantora, alcançando outros timbres, arranhando a música, como se estivesse mais na pele representativa do tema, sentindo-o mais à flor da pele do que apenas a aflorando. É uma lufada de ar fresco na sonoridade de alguém que, não tendo feito nada que fosse mais do mesmo, consegue reinventar-se novamente, numa altura da sua carreira e de vida em que podia só ter-se sentado e feito um álbum de guitarra e voz, confortável. O que surpreende em “Vai e Vem” é precisamente o facto de não ser um trabalho acomodado e que leva ainda mais além toda a enorme panóplia de talentos de Márcia que, não sendo uma criança antes, agora se sente que atingiu a tal maioridade, embora não precisasse de provar nada a ninguém, prova-o a si mesma e ao seu desejo de fazer novo e diferente.

Apesar das novidades, recorre a velhos amigos e músicos, como referimos anteriormente, e para o seu terceiro dueto convida Salvador Sobral, com quem canta na faixa “Pega em Mim”. Mais uma vez, é como se nenhum dos músicos tivesse protagonismo e se juntassem em uníssono, parecendo cantar a uma só voz mesmo que assim não seja na verdade. Quando Márcia canta sozinha nas músicas que escreve e compõe, tal como fez na faixa que levou ao Festival, impõe-se de um modo completamente diferente, tanto das faixas de duetos como dos álbuns anteriores. Mantém a doçura que a caracteriza e, quanto a nós, adiciona-lhe um calor mais honesto e directo que antes, como se se colocasse mais dentro da sua música, mais a sério, num processo absolutamente natural e evolutivo que resulta de despir ainda mais a música daquilo que não é preciso.

Na sua súmula, “Vai e Vem” é um disco belíssimo, mais simples seria impossível, com uma Márcia que se assume por completo exactamente como Márcia, aparece retratada na capa, já sem ilustrações mas a cores, como se absorvesse o calor dos raios de sol, adopta e assume uma estética mais retro nos clips que dão vida aos singles retirados do álbum e assenta-lhe tudo como uma luva. Sopra uma brisa de extremo bom gosto e, sobretudo, a sensação de que tudo acontece no tempo certo, com os ritmos certos, com as palavras certas, todos os astros conjugados para criar a tempestade perfeita. Se normalmente associamos a cantora a uma certa nostalgia, é preciso ouvir bem aquilo que diz porque na realidade “Vai e Vem” fala de aprender a cair, mais do que evitar a queda, como de modo tão perfeito retrata o tema “A Tempestade”. É um álbum que fala de esperança, de aceitação (muito longe da resignação), de olhar para as coisas de uma outra perspectiva, de assumir uma posição bem mais vincada na vida e na música, de expressar sentimentos com palavras mais definidas. “Vai e Vem” em tudo é um disco assombroso de música portuguesa composto por uma das mais inventivas, criativas e destemidas cantoras e compositoras e, apesar de apresentar uma Márcia mais presente que nunca, corre o risco de passar despercebido por poder parecer muito fácil fazer um álbum destes quando assim não é. Escusado será dizer que todas as faixas mereciam ser singles, por isso que não se perca mais tempo sem o ouvir.



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