Marguerite

Marguerite

A Voz Humana Desafinada

Comovente e trágica é a estória de “Marguerite”, o filme que encerrou a 16ª Festa do Cinema Francês com data de estreia a 29 de Outubro.Uma Diva ridiculamente desafinada poderá não ser uma Diva propriamente dita.Poderá não ser a heroína amante do bel canto intérprete maior das grandes óperas, mas poderá ser uma singular performer da vida que tenta encarnar a música para ter o amor do marido, para viver o seu sonho de liberdade.E sucumbe à sua paixão artística alienando-se da verdade e da arte na sua redoma de loucura proporcionada por todos os que a rodeiam.Uma metáfora para os dias de hoje o filme “Marguerite” coloca as entranhas da arte em questão e mostra como falacioso pode ser o jogo entre esta e o poder qualquer que seja a sua natureza.

Ofilme tem lugar nos anos 20 onde a rica Marguerite Dumont, inspirada na figura real de Florence Foster Jenkins, vai desafinando de acto em acto sendo toda a realidade que a rodeia uma farsa alimentada pelo marido, por um jornalista preverso, uma sociedade cínica e outros intervenientes com maiores ou menores doses de elevação artistica numa comédia sobre a verdade e a mentira tanto na arte como na vida.Em busca do verdadeiro canto e no fundo da Voz Humana melódica, harmónica e verdadeira, o filme põe a nu como a sociedade constrói facilmente os seus mitos como farsas em que no jogo espectacular vale tudo.E o grotesco vai do pavão que vê uma das penas da sua cauda na tiara de Marguerite como na restante fauna que circula pelo Castelo dos Dumont onde o vazio tomou conta do lugar da Arte, em que o poder do dinheiro tenta encenar o mais que a vida.Tudo vai desembocar na tragédia quando Marguerite descobre finalmente como desafina ou é ausente de verdadeiro talento que não o da sua própria pureza e das suas crenças.Daí apresentar-se em palco no acto final com asas de anjo.

Um belíssima reconstituição de época dos anos 20 com realização de Xavier Gannoli que decorre em 5 actos (como aliás a segunda parte do poema-tragédia, Fausto de Goethe em que a amada do mago também se chama Marguerite), até à Verdade em em que o que resta é a pureza da crença na ilusão, em que uma diva com voz desafinada (a Humanidade) acorda do seu sonho de Anjo para o FIM.

De realçar o desempenho do conjunto de actores em particular Catherine Frot que alcança o seu estado de alienação com o glamour de uma verdadeira Diva mesmo desafinada ao extremo, em que o equilibrio da acção na tela perante o espectador vem da sua incessante e ao mesmo tempo errática paixão pela música que nos segue através de uma magnifica partitura que vai desde Purcell reorquestrado por Michael Nyman a Mozart, Poulenc e Honegger, Vivaldi, música indiana e jazz.



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