Maria Antonieta

Livro de Catalina de Habsburgo-Lorena. Entrevista exclusiva com a arquiduquesa da Áustria. Só na RDB!

A propósito do último filme de Sofia Coppola, Marie Antoinette, que estreou a 19 de Outubro, nas principais salas de cinema português, a RDb constatou que a vida e morte da Última Grande Rainha de França despertou o interesse de outros criadores e que é um assunto tratado noutros formatos artísticos.

Catalina de Habsburgo-Lorena, arquiduquesa da Áustria, apresenta os feitos que marcaram a vida da sua antepassada, com um ágil ritmo narrativo no livro Maria Antonieta, editado em Portugal pela Esfera do Livros.

Um dia após o terrível terramoto que abalou a cidade de Lisboa, nascia em Viena, a 2 de Novembro de 1755, a arquiduquesa Maria Antonieta de Habsburgo-Lorena.

Os seus padrinhos de baptismo foram os seus tios, José I e Mariana Vitória, reis de Portugal, representados na cerimónia por dois irmãos da recém-nascida.

Em 1770 Maria Antonieta casou, por procuração, com o delfim Luís, futuro Luís XVI, e foi viver para a corte francesa onde fervilhava a intriga e as disputas políticas.

À falta da consumação do matrimónio, Maria Antonieta dedica-se a organizar festas e a escolher roupas sumptuosas e acessórios ricos. Assegurada a sucessão, a já rainha de França tenta guiar-se pelo sentido de responsabilidade dos seus antepassados, mas, odiada pelos franceses, a sua reputação ficará manchada por infames calúnias. Foi acusada de ser uma meretriz, uma espia, uma delapidadora do erário público. Com a Revolução Francesa, foi presa, julgada em tribunal revolucionário e guilhotinada a 16 de Outubro de 1793.

Descendente directa de Carlos V e neta do último imperador da Áustria, a autora é licenciada em Ciências Políticas e especializou-se em Direito pela Universidade de Lovaina, na Bélgica. É autora de uma obra sobre a realpolitik de Napoleão, Bismarck e Margaret Thatcher, em comparação à política de Franco. Foi directora do departamento de Relações Internacionais da Universidade de Segóvia e jornalista na Rádio Espanha. Actualmente vive perto de Milão com o seu marido, o conde Massimiliano Secco d’Áragona, e os seus dois filhos.

A Rdb entrevistou Catalina de Habsburgo-Lorena:

RDB: O que a levou a escrever um livro sobre a vida e a morte de Maria Antonieta e qual é, na sua opinião, o principal motivo que desperta a atenção de outros criadores sobre a última rainha de França como é, por exemplo, o caso de Sofia Coppola?

Catalina de Habsburgo-Lorena: Eu escrevi esta biografia para devolver a justiça histórica a uma mulher que viveu num dos períodos mais conturbados da história europeia. Quis alhear-me das interpretações consolidadas. Quer das correntes iluministas que consideravam a rainha Maria Antonieta como fútil. Quer das correntes da historiografia romântica que, a meu ver, davam sobre a personagem uma visão de “mar de rosas”, que eu não gostava.

Se há algo que toda a gente que estude seriamente uma matéria histórica sabe, é que os extremos não correspondem à vida real. A realidade das pessoas nunca é monocromática, responde sempre a uma série de máscaras. Intuía que a vida de Maria Antonieta era muito mais ampla de significados e significantes do que as considerações extremas pareciam querer provar. Se não, como explicar o interesse que historiadores e leitores de todas as correntes e classes sociais têm manifestado por ela, ao longo de dois séculos?

Como decorreu o processo de criação deste livro? Que tipo de pesquisa exigiu, que dificuldades se apresentaram e como conseguiu ficar apta a escrever uma biografia de alguém que viveu há mais de dois séculos?

Segundo a máxima de Jules Ferry, um estudioso nada terno com a causa de Maria Antonieta, o historiador não é o que sabe mas sim o que busca. Tentei não me deixar influenciar pelos meus pré-juízos. Estudando as obras dedicadas à Rainha, cheguei à conclusão que, se a personagem me era conhecida num grau maior do que podia ter o público em geral, isso não podia impedir-me de descobrir aspectos da sua personalidade que justificassem a escrita de uma nova biografia sobre ela e oferecer ao debate histórico novos elementos de consideração que não haviam sido tocados pela já importante bibliografia existente.

Contudo, quando comecei a abordar a sua vida, graças a horas de busca nos arquivos de família e uma longa e abundante tradição oral sobre a Rainha, parecia-me “senti-la” como se fosse uma parte de mim. Não é caso de invocar o “chamado de sangue”. Sim, talvez, de assegurar que a mesma ideia de “missão” que guiou esta mulher durante a sua vida, não me era estranha na medida em que tive a sorte de ser educada nesse sentido pela minha família.

Maria Antonieta sempre foi odiada pelos franceses tendo sido levantadas imensas calúnias a seu respeito durante o seu reinado. Na sua opinião, a que se devia tal ódio e até que ponto terá sido esse ódio o impulsionador da Revolução francesa?

Se há um aspecto da vida de Maria Antonieta que todo o mundo crê saber e que sempre lhe foi reportado, é que, nos primeiros anos da sua vida em Versalhes, fora fútil e gastadora, que só pensara em divertir-se. É verdade, mas se utilizarmos a compaixão para entendê-la, podemos valorizar, na medida certa, as duas grandes virtudes que sempre guiaram a trajectória humana de Maria Antonieta: Sinceridade e autenticidade. Virtudes que lhe permitiram ser coerente com os valores em que acreditava, a causa da monarquia e a fé religiosa, até ao ponto de entregar a sua própria vida por eles. De avançar até à guilhotina com valentia, autêntica majestade real e sem ódio. Os franceses procuravam uma vítima que pudesse justificar o massacre da Revolução: Maria Antonieta pareceu-lhes a mais apta.

Lendo o seu livro, percebe-se o quanto infeliz foi Maria Antonieta. Na sua opinião, este é apenas um caso particular ou a infelicidade é de uma maneira geral extensível a outras rainhas de outras monarquias?

Há poucos acontecimentos na história europeia que tenham feito derramar tanto sangue como a revolução francesa. Não há que duvidar também que as cortes europeias tinham abandonado os reis franceses, que o par real com os seus dois filhos foi encerrado no templo, e logo o Rei Luís XVI foi guilhotinado e o Delfim afastado para sempre da sua mãe. Mas o pior de tudo foi quando o Tribunal Revolucionário condenou Maria Antonieta por incesto para com o seu filho. Conseguiram ferir o mais profundo do seu ser a essa frágil mãe e arruinar-lhe os seus últimos momentos neste mundo. Nada, jamais, superara daí em diante aquela dor. Tinham-lhe tirado tudo, até ao coração.

Graças a Deus são poucas as Rainhas que tiveram que sofrer tanto!

Depois da revolução no seu próprio país (Áustria) e tendo em conta o seu título da nobreza, o que pensa sobre Monarquia e Democracia? Qual destes sistemas é, para si, o melhor?

Eu sou Monárquica. Estou convencida que as Monarquias em lugares como Espanha, Bélgica ou Luxemburgo têm um país unido. Servem como ideal de continuidade, têm o papel de “pai de famílias”. Na Áustria penso que o melhor sistema agora mesmo é a democracia, mas lamento que o meu não deseje fazer as pazes com o seu passado.

Como tem sido a aceitação deste livro sobre a vida de Maria Antonieta?

Em Espanha e em Portugal, onde o livro foi publicado, tem tido bom êxito, estou muito contente. Estão a falar em traduzi-lo para Japonês.

Espero que a saída do filme de Sofia Coppola também impulsione as pessoas a quererem saber mais sobre esta grande rainha de França.

E quanto a projectos para o futuro. Tenciona escrever sobre outra rainha?

Tenho muitíssimos projectos mas, contudo, ainda nada em concreto.

Para além de ajudar a compreender a história e vida da última Rainha de França, Maria Antonieta, oferece ao debate histórico um novo ponto de vista, pertencente a uma nova geração de realeza europeia.



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