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“Maria by Callas”, de Tom Volf

Human after all.

Se dúvidas houvesse quanto ao inusitado título deste filme documental, essas são dissipadas com a definição que a própria Maria Callas faz de si numa entrevista a que Tom Volf recorrerá em variados momentos ao longo desta que é a vida de uma das figuras do canto lírico do século XX, muitos afiançando ser mesmo a maior de entre os maiores. A dualidade em que Maria Callas se revia pareceu ser a sua mais fiel companhia, numa vida que, para além do palco, foi também o reflexo da procura do amor que lhe escapava desde a infância.

Tom Volf constrói em “Maria by Callas”, 40 anos após o desaparecimento da cantora, mais do que documentário, uma peça de imagética documental da maior importância, trazendo à luz momentos de intimidade que a cantora raramente revelava, tão enleada se encontrava na criação da sua persona de palco, figura quase sempre pública, sem mácula e negando a visão negativa que muitos dela alimentava – sobretudo a imprensa que tanto a vampirizava. O que o realizador transporta para o grande écrã é o resultado de intensa pesquisa de imagens que se encontravam em arquivo um pouco por todo o mundo e que permitem dar a conhecer a cantora excepcional e a mulher tantas vezes frágil, dividida, insatisfeita e infeliz. Contrapondo lado a lado as informações e a pressão que a imprensa lhe impunha com as suas próprias palavras em entrevistas e até mesmo em vídeos caseiros em formato Super 8, cartas trocadas com amigos (lidas pela voz de Fanny Ardant), imagens captadas nos bastidores e fotografias inéditas, Tom Volf permitiu que a eterna diva pudesse finalmente defender-se da enorme quantidade de personalidades públicas que lhe foram criadas e mostrar-se unicamente como ser humano, como mulher, longe da perfeição exigida pelo exterior.

a grandiosidade de Maria Callas é tal que é rara a recordação de que a sua vida foi, afinal, curta, e preenchida quase na totalidade pela dedicação a uma carreira que lhe roubou os sonhos pacatos de ter família e marido

A devoção de Tom Volf ao descobrir Callas tornou-se tão intensa que para construir o filme como uma homenagem o mais verdadeira possível passou cerca de 5 anos entre a pesquisa e a construção da estrutura do documentário. A quantidade de informação que recolheu entretanto – muita dela directamente de amigos e figuras próximas da cantora – era tal que Volf editou ainda 3 livros com a documentação (como as cartas) e foi comissário de uma exposição temporária em Paris no final do ano passado.

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Em “Maria by Callas” muitos dos momentos são passados a ouvir trechos de óperas e tratando-se de outra figura pública, poder-se-ia tomar algum aborrecimento ou equacionar seriamente a razão pela qual são passados tantos minutos só a ver e ouvir cantar. O que é certo é que para além de muitas destas imagens serem inéditas, restauradas ou versões a cores de imagens já conhecidas e de uma incrível qualidade, ouvir Callas como se se estivesse frente a frente com a lenda é emocionante e leva a que se esqueça o cinema e surja a vontade de bater palmas e soltar intensos vivas à actuação. Volvidas que estão 4 décadas sobre a sua morte, ouvi-la novamente de forma tão vívida é algo que ultrapassa a mera busca e recolha de imagens ou a escolha interpretativa por trás do objecto documental. Ao longo dos 90 minutos do filme, a grandiosidade de Maria Callas é tal que é rara a recordação de que a sua vida foi, afinal, curta, e preenchida quase na totalidade pela dedicação a uma carreira que lhe roubou os sonhos pacatos de ter família e marido.

Com a intenção de a tornar finalmente inteligível ou claramente definida aos olhos do público, Tom Volf abdicou ainda de introduzir uma voz off que guiasse o espectador ao longo da peça de cinema a que o próprio realizador recusa atribuir uma categoria mas que aqui se caracteriza como documentário. Na tentativa de dar a voz e a vez a Maria de se sobrepôr a Callas, as perguntas e respostas são dadas pela própria apesar de não ser possível um distanciamento tal que não seja perceptível a mão do cineasta no que toca à interpretação dos factos. Tarefa hercúlea, contudo, a de Tom Volf na compilação de uma montanha inesperada de documentação, indo o mais possível à fonte original mas criando a enorme dificuldade de conseguir compilar toda a informação relevante em tempo útil de filme.

humana, apaixonada, por vezes colérica, exigente e perfeccionista mas igualmente honesta

No final, a mensagem passa claramente para o espectador: a ideia de uma Callas perfeitamente humana, apaixonada, por vezes colérica, exigente e perfeccionista mas igualmente honesta. As informações que o filme opta por deixar de fora e que são grandes presenças dependendo da importância que se lhes confira, como a questão da família da cantora, não são totalmente explicadas, podendo querer transmitir a ideia de que esses seriam também os temas tabu de Callas. Essa informação encontra-se pública e acessível mas apenas após procura de informação adicional, pelo que se depreende ou grande subtileza na linguagem do filme, propositadamente lacónico, ou aquele que poderia ser apenas um foco negligente de que este será o exemplo mais flagrante. De ritmo nem sempre calvagante, o filme a que Tom Volf não atribui género definido é uma homenagem sentida a uma figura que povoou o imaginário colectivo ao longo de décadas, sobretudo devido aos escândalos passionais que a imprensa convenientemente alimentou. Custa a acreditar que tanto tempo tenha passado desde a sua morte e que só agora este testemunho exaustivo tenha sido compilado e esse é um mérito maior do trabalho de Volf, que conseguiu testemunhos de pessoas que privaram de perto com a diva e que nunca haviam partilhado informações com os meios de comunicação. “Maria by Callas” não é um documentário perfeito, à semelhança de Callas, mas se não se lhe encontrar qualquer outro mérito, pelo menos terá o de descontruir a ideia divina daquela que foi apenas uma mulher de paixões com o dom sobrehumano de entrar nas almas alheias e de as preencher com a mesma emoção com que secretamente viveu.



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