“Maria dos Canos Serrados” | Ricardo Adolfo

“Maria dos Canos Serrados” | Ricardo Adolfo

Ao gosto de Quentin

Tenham cuidado, tenham muito cuidado. As cabras de Rio de Mouro andam doidas, fulas da vida, privadas de sexo e, aos poucos, estão a tornar-se exímias atiradoras de armas de fogo. Serve isto de aviso a quem está a pensar em meter conversa com a “Maria dos Canos Serrados”, nome do novo romance de Ricardo Adolfo, que conta com edição da Objectiva.

O livro acompanha as aventuras e desventuras de Maria, uma moça para os seus vinte e muitos, que viu o companheiro de cama – dela e da amiga – arrancar rumo ao Algarve para «fazer turistas por 25 euros», na companhia de um rapaz chamado Jesus.

A história é-nos contada por Maria, através de cartas/mensagens dirigidas ao seu Velhinho que, durante a descarga ininterrupta (pelo menos até à página final) de declarações de amor (algumas) e insultos do piorio (quase sempre), é presenteado com nomes tão carinhosos como Morzinho Velhinho, Veadinho, Estupor, Cão velho, Corno adormecido ou Filho de uma peçonha cancerosa.

Maria vê a sua vida dar uma volta e meia numa questão de dias. Para além de perder o seu companheiro de cama e fornecedor de orgasmos, vê também tolhido o seu sonho de chegar a directora de uma empresa que, para além de ter caixas e caixas de cartões telefónicos pré-pagos, ninguém consegue perceber aquilo que vende, compra, produz ou deita fora.

Falida e sexualmente abalada, apesar de continuar a laborar com o corpinho como se nada fosse, Maria afoga as mágoas no “Nandos”, uma espécie de bar com um salão de fogo onde se podem disparar armas de tudo o que é calibre. Enquanto isso, lentamente e numa quase clandestinidade, vai preparando o golpe que fará de si uma gaja independente.

Ricardo Adolfo senta-se ao volante de um carro que cospe calão e leva-nos numa fascinante viagem pelo submundo das periferias, num romance feroz que, ainda assim, encontra lugar para um final feliz (pelo menos para alguns). Se Quentin Tarantino decidir fazer um novo filme, ao estilo de “Death Proof”, já tem metade do trabalho feito: “Maria dos canos serrados” dará um guião exemplar.

Em breve, a Rua de Baixo publicará uma entrevista com o escritor Ricardo Adolfo.



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