Maria João Lopo de Carvalho

Maria João Lopo de Carvalho

«Não sendo eu feminista acredito que a mulher portuguesa é singular e, para mim, o símbolo máximo da resiliência e coragem. Somos metade de Portugal e mães da outra metade».

Com o pretexto do lançamento de “Padeira de Aljubarrota” estivemos à conversa com Maria João Lopo de Carvalho, ficando a conhecer um pouco do esquema de trabalho da autora, as suas fontes de inspiração e mestres, assim como o porquê de fazer um livro que se assume como um exercício metafórico sobre um Portugal que faz das fraquezas forças e encontra heróis improváveis que se superaram a si mesmos.

Maria João Lopo de Carvalho

Em “A Marquesa de Alorna” explorou a vida de uma mulher rebelde e fez um elogio à liberdade e ao amor que sente por Portugal. Em a “Padeira de Aljubarrota”, a esse amor à pátria junta uma noção metafórica de resistência e coragem. Serão estes dois romances uma reflexão muito própria sobre o Portugal recente?

Os meus livros refletem sobretudo um eco do amor a Portugal por parte dos portugueses. É uma voz intemporal que cruza a sociedade de ontem e de hoje baseada na esperança de que «amanhã» haja também esta mesma resiliência e capacidade de lutar pelo país com a habitual coragem de uma nação que se diz «valente e imortal».

Explora a lenda da Padeira e os acontecimentos de 1385 de uma forma bastante pertinente e apaixonada. Quais foram as maiores fontes de inspiração para fazer um romance como a “Padeira de Aljubarrota”?

Antes e primeiro que tudo o meu amor a Portugal e à nossa Historia. Depois, o meu mestre: Fernão Lopes; e a minha maior luz: Nuno Alvares Pereira.

No livro cruza as vidas de D. Beatriz de Portugal, rainha-infanta, e Brites de Almeida, uma das maiores lendas nacionais. Se de um lado temos a “causadora” da Batalha de Aljubarrota, do outro está a maior heroína do conflito. Como foi trabalhar esses intrincados extremos?

Sempre desconfio da História quando é contada a uma só voz. Na batalha de Aljubarrota havia os dois lados da «moeda» Ao descobrir Beatriz de Portugal tive de fazer um exercício para não me deixar ir atrás dos acontecimentos, mas sim de analisar as causas da batalha de Aljubarrota, Atoleiros e Valverde pelo lado de Castela. Quem tinha razão? Haveria uma só «razão?» Estaria certa a causa de Beatriz, símbolo da nobreza e dos filhos primeiros? Ou de Brites, metáfora do povo e dos filhos segundos que estavam pelo mestre de Avis. Penso que não há, na crise de 1383-85, uma só versão da História. Há sim as várias «estórias» da histórias que ajudarão o leitor a tomar um ou outro partido. E isso é que pode ser mais interessante neste livro.

Este livro resulta num elogio ao género feminino. Sente que a mulher portuguesa tem dentro de si “uma costela” de Brites de Almeida?

Sinto e mais: tenho a certeza. Não sendo eu feminista acredito que a mulher portuguesa é singular e para mim o símbolo máximo da resiliência e coragem. Somos metade de Portugal e mães da outra metade.

Os seus romances históricos são muito ricos em pormenores e patenteiam a noção de uma forte investigação. Por norma, como realiza o processo e quanto tempo demora a preparar uma obra deste género?

Nada nesta vida se faz sem trabalho. Neste caso seria impossível deitar mãos à obra sem muito estudo e investigação. Passo pelo menos seis meses só a ler, a estudar e a investigar. Como costumo dizer, preciso de viajar 600 anos para trás e deixar-me lá ficar. Só quando tenho a época em questão como presente do indicativo, é que ouso começar a escrever. Depois são outros seis, sete meses isolada do mundo. Dias e dias inteiros a escrever, a corrigir a verificar fontes e a pintar o «quadro»!

De certa forma, o resultado dos acontecimentos ocorridos no final do século XIV foram um forte incentivo para Portugal começar a investir nos Descobrimentos e a formar um forte império. Tendo em conta a conjuntura atual, que tipo de “abanão” deveria Portugal sentir para dar a volta por cima?

Esta crise de austeridade que vivemos já é um forte abalo para não voltarmos a cometer os erros do passado. Temos de aprender todos a viver de outra forma e lá está, tal como no século XIV, a não desprezarmos a nosso força interior e a nossa capacidade de nos lançarmos a novos desafios. Ontem desvendamos o mar e conquistamos o mundo; hoje o incentivo é precisamente esse: superarmo-nos a nós próprios e conquistarmos o futuro.

Tem perto de 50 obras publicadas. Da literatura infantil aos títulos históricos, passando pelo romance ou a elaboração de manuais escolares, a Maria João Lopo de Carvalho é uma referência da literatura nacional. Dos géneros que referimos qual lhe dá mais prazer?

Completam-se. São desafios diferentes. Não posso dizer que me dá menos gozo ir buscar-me a mim própria aos doze anos e escrever de acordo com essa voz interior que ainda cá mora; como também não posso deixar de sentir um enorme gosto em tornar simples uma história complexa e com ela levar os leitores a refletirem sobre o nosso passado coletivo. Ao fim ao cabo, sou apenas uma cantadora de histórias. E é esse o meu maior prazer!

O que podemos esperar de Maria João Lopo de Carvalho no futuro próximo? Mais incursões históricas, aventuras no espetro infanto-juvenil, um romance…?

Tudo se conjuga. Para já o que posso dizer é que a ultima palavra deste romance «Padeira de Aljubarrota» é «mar».Talvez seja um presságio do futuro…



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