Maria Rueff – Cabaret Alemão

Maria Rueff

O Teatro do Bairro trouxe Berlim dos anos 30 a Lisboa, numa peça protagonizada por Maria Rueff e Sofia de Portugal. Falo do Cabaret Alemão que vai estar em exibição, todas as segundas e terças, até 17 de junho.

O ambiente é relaxado e descontraído, assim o requer o espaço. Em plano de fundo está uma longa cortina encarnada e aveludada, que serve de cenário a todo o espetáculo. Sim, espetáculo. Foi a isso que assisti durante cerca de 60 minutos.

«Allein In Einer Grossen Stadt» ou, se preferirmos, «Sozinha na Grande Cidade», de Marlene Dietrich, abre o certame, ao som da voz grave e colocada de Maria Rueff, que com vestes negras e acetinadas, como manda o cabaret, se faz acompanhar. Momentos depois, é tempo de partilhar o palco com Sofia de Portugal. A partir daqui a dupla fica imparável e o tempo voa ao som do piano e do acordéon que enchem a peça de musicalidade.

A história passa-se no seio de um cabaret, como se dos anos 30 se tratasse, período que data o apogeu deste género artístico e a sua interrupção pelo regime nazi. Está recheada de temas cantados entre o alemão e o português, entre os quais se insere o «Beijem os Fascistas» ou «Küss Die Fascisten» de Hanns Eisler e Kurt Tucholsky, e que se fazem acompanhar por singelas coreografias. Assistimos a diálogos que, preenchidos de sarcasmo, retratam o cenário português, a relação com a Europa e a forte influência da Chanceler alemã em Portugal.

Uma mostra para rir, refletir e fazer pensar, pois à arte também isso lhe compete. «A arte tem a obrigação de espelhar às vezes coisas que as pessoas podem intuir, mas ao verem percebem a fotografia», afirma Maria Rueff. Assim surge a ideia de trazer ao palco algo que espelhasse o efeito da crise nos portugueses e a forma como se reflete nas relações pessoais.

O texto é da autoria de Luísa Costa Gomes e a encenação de António Pires. Um trabalho que levou algum tempo a ficar pronto, dada a pesquisa que envolveu. A memorização das letras em alemão foram um quebra-cabeça para Maria Rueff. «Foi uma das coisas mais difíceis no sentido de marrar», porém toda a peça está envolta em momentos complicados «porque são textos com uma acidez que tem que se passar às pessoas». Trata-se de um humor diferente, um humor para fazer pensar: «Não é um humor que as pessoas, se calhar, estão habituadas a ver-me fazer, que é muito mais ágil e muito mais imediato. Este é um humor para fazer pensar».

A comediante portuguesa não esconde o prazer e orgulho que é trabalhar com Sofia de Portugal e com a restante equipa. Diz ser um trabalho de que se orgulha e que vem recuperar o que Lisboa perdeu: os cafés-teatro. «Quando eu me estreei, [Lisboa] tinha muitos cafés-teatro, onde se pode estar descontraidamente a beber um copo e a ver um espetáculo, portanto não tem que se ir para uma coisa assim muito séria», recorda.

«Portugal está muito bem entregue aos que virão combater o que não está bem»

 Os cortes no financiamento para a cultura em Portugal foram tema de conversa. Maria Rueff diz que se trata de «esvaziar» o povo, porque «quando se priva um povo de cultura, de educação, é torna-lo ignorante e não há forma mais eficaz das grandes ditaduras de controlar os ignorantes». Sustenta que o grande problema passa por «impedirem as pessoas de conseguirem, com esses valores, de fazer grandes peças, grandes autores e do próprio público ter que escolher entre comer um bife ou ir ver uma peça de teatro».

A comediante retrocede cerca de 20 anos no tempo e recorda o quão precário era ser ator quando se formou. «Ser ator era quase, de facto, ir assim para uma espécie de carmelita descalça e entregarmo-nos à miséria», isto porque «era uma profissão quase de miséria porque não havia esta coisa de vários canais de televisão, só fazia televisão quem já tinha dado muitas provas», conta. Contudo, mostra-se crente nas gerações vindouras: «Portugal está muito bem entregue aos que virão combater o que não está bem. Acredito muito no novo sangue!».

Fecham-se as cortinas. O espetáculo termina. Citadas são as célebres palavras do dramaturgo e poeta alemão, Bertolt Brecht: «Que tempos são estes, em que é necessário defender o óbvio?»

 

 

 

 

 

 

 

 



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