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“Maria y Yo”

A Maria dentro de nós.

Miguel Gallardo faz uma feliz comparação. O nosso nível de entrega para com os outros pode ter como alegoria o de uma ilha que pela qual sobem e descem as ondas do obtuso mar. Quando a maré está cheia, e a lua avisa, não há como alcançá-la ou sequer vê-la ao longe. Já se a maré, tímida, se dispersa e vaza, é fácil a travessia até essa ilha, melhor a chegada. É este caminho que todos percorremos, todos os dias, a fim de nos colocarmos perto dos outros, na sua pele, numa dança de empatias e entregas pessoais.

Se é assim com todas as pessoas, não o é menos com Maria, a protagonista do documentário “Maria y Yo”, na altura com 14 anos, e portadora de autismo.

Realizado por Félix Fernandez de Castro, este documentário é baseado num álbum de banda desenhada, com um título homónimo, de Miguel Gallardo, o pai de Maria. Através de cores simples e traços ingénuos, Miguel Gallardo narra-nos as férias que passou nas Canárias com a sua filha Maria. Paralela a esta narração está uma tentativa gigante de compreensão do universo autista de Maria por parte do seu pai.

Miguel Gallardo é um ilustre cartoonista catalão, famoso pelo seu Mokiko, presença rotineira nas colunas do New York Times ou do El País. É ilustrador de livros infantis com os quais colabora também no argumento.

“Maria y Yo”, um documentário na primeira pessoa, pode afugentar pela dureza do tema: pai e filha expõem-se perante a câmara, revelando os obstáculos que a condição de Maria obriga, bem como as dificuldades que tem Miguel para conseguir tornar-lhe os dias melhores – incluindo afugentar olhares de piedade e condescendência. O filme podia não ultrapassar esta triste e pesada realidade, não fosse Miguel Gallardo desenhista e Maria a Maria dos seus olhos.

Na verdade, Miguel Gallardo desde sempre pôs à disposição de Maria as suas valências de ilustração, e são cadernos e cadernos de pequenos desenhos, notáveis pela sua simplicidade expressiva, que Maria carrega consigo. Lá estão todas as etapas de crescimento de Maria e todas as pessoas que ela já conheceu. Com o auxílio destes rascunhos o documentário desenvolve-se, cheio de sentido de humor, e consegue de facto afugentar as piores marés e colocar-nos do lado de Maria, sensíveis a um transtorno que tem características comuns a todos nós.

Gallardo explica no documentário que o desvio de Maria é comparável a alguém a assistir a 20 televisões ligadas em canais diferentes, com o volume elevado. Assim Maria refugia-se em gestos simples, em rotinas seguras, que suavizem o ruído externo. Maria tem uma memória fabulosa e o seu mapa mental, como que por paradoxo, são os nomes de todas as pessoas que ela já conheceu (todas elas registadas por Gallardo em desenho), e que vai repetindo em listas sem fim. Não há ilha que não se atinja.

Através desses nomes Maria organiza o seu dia, através de diários caprichos como os de fazer sempre o mesmo percurso de casa para a praia, sem qualquer desvio ou, o mais enigmático, o de fazer passar, entre os dedos, grãos de areia, muito perto da cara, ou pequeninos papéis – gesto que faz par com um sorriso. Gallardo diz pensar que nesses momentos, em que Maria se ri enquanto a areia desliza pela mão fora ao favor do vento, a sua filha tem em si todos os segredos do universo.

Testemunhamos, enfim, o melhor que há nas pessoas em Miguel Gallardo, um pai absolutamente concentrado em trazer a felicidade para a sua filha (já que Maria é desprovida de luas que dêem avisos sobre as marés) em aligeirar os outros filmes a preto-e-branco sobre autismo, e mais que tudo, em mostrar a todos os contornos da condição de Maria, tão inexplicável e misterioso. É ele que afirma, em tom bem disposto, que não quer que Maria “seja tratada como normal”, mas antes como uma “princesa”.

Finalmente, ao tomar Maria como exemplo – a mais difícil das ilhas – Gallardo mostra-nos o mais importante de tudo: a simples verdade de que as pessoas precisam umas das outras. Sabemos que saímos da Cinemateca com um pouco mais de humanidade. Gallardo, no fim da sessão, havia dito que o documentário mudou a vida de Maria. Decerto que aos espectadores também o documentário mudou a vida. E nós agradecemos.



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