Mariana Rosário e Eduardo Guerra Frazão – por Mário Pires

Respirar e criar

Fazê-lo “debaixo d’água”

Em Maio, no Teatro Rápido (TR) fomos surpreendidos pela sala 1, onde a acção se passava debaixo de água. Mariana, Hugo e Eduardo constituíram a equipa que nos fez mergulhar na estória de dois irmãos que cresceram sem mãe. Filipa juntou-se aos três para dar apoio à encenação. E eis que surgiu, à tona de água, um projecto muito feliz.

Mariana Rosário e Eduardo Guerra Frazão são ambos apaixonados por teatro e foi no meio dessa paixão que se conheceram, no âmbito de aulas com o grande António Feio. Mantiveram o contacto, partilharam a universidade, mas a vida afastou-os para que se reencontrassem numa escola onde ambos eram professores de teatro.  Em Outubro do passado ano, começaram a trabalhar no material, sem que tivessem propriamente um objectivo definido.  Perante o desafio de Alexandre Gonçalves (director do TR), lançado em Fevereiro último,  Eduardo recuperou, em conjunto com Mariana, o material que já existia. «Queríamos criar algo sobre as relações familiares, sobre o crescimento, o desenvolvimento do indíviduo.  Maio tinha como tema Mater (mãe) e eis que no brainstorming surgiu a ideia», conta Eduardo. O espaço da banheira foi algo em que pensaram de imediato, «queríamos algo que se assemelhasse ao plano de um filme, ou melhor, uma única cena com vários planos, uma vez que os espectadores podiam sentar-se em pontos diferentes da sala», acrescentou Eduardo. Do brainstorming surgiram linhas para o texto , que Mariana concluiu em apenas 24h. «Depois de trocar ideias com o Eduardo e de improvisarmos aspectos da cena, fui para casa e escrevi o texto.» Ao princípio, este texto ficou  muito literário, admite Mariana, para duas personagens que provinham de uma classe baixa: tratavam-se de duas pessoas outrora entregues ao cuidado de instituições e que, por isso, cresceram sem mãe.  À equipa juntou-se Hugo F. Matos, arquitecto de formação e com  mestrado  em  cenografia, que “tropeçou” nos dois amigos no âmbito do Teatro do Azeite. «A Mariana e o Eduardo ligaram-me a dizer que tinham um projecto para apresentar ao Teatro Rápido e eu fui ter com eles. Com a imagem da banheira, a sinopse e a proposta do projecto fiz os primeiros esboços do espaço.», conta Hugo que acrescenta ter desenhado enquanto os dois actores interpretavam a cena.  Com a ideia na mão, havia que encontrar os meios para a concretizar: uma banheira e vários azulejos. «Não foi fácil, pois partimos para este projecto sem quaisquer fundos.» Conseguiram apoios e assim construíram o espaço cénico que, para Mariana «simbolizava o desequílibrio da relação entre as personagens, entre os dois irmãos.» «A cenografia acabou por ser mais uma personagem», sublinha Hugo, «pois com o tempo os azulejos iam-se partindo, degradando, e isso simbolizava a degradação da relação que, assim, passava para a plasticidade do espaço».

Os figurinos também foram pensados por Hugo e traduzem a relação algo “perversa” entre os irmãos: ela de decote, ele nu, na banheira. A cena acontece durante o banho dele e a conversa vagueia pelas memórias de infância, nas quais ecoa uma frase «a água purifica». Por isso, o que se passa debaixo dela não tem mal. Ou terá?

Sobre a experiência de actores no TR, Eduardo e Mariana confessam que estiveram muito presos ao espaço, por questões logísticas, e que isso os levou a  manter as personagens mesmo durante os intervalos. «Esses momentos serviram para apurarmos a essência dos dois irmãos. «É um desafio que deixo aos actores que por aqui passam, a de não sair das personagens mesmo durante os intervalos.», diz Mariana Rosário.

Da experiência no TR Mariana salienta como foi enriquecedor, rápido e verdadeiro. Hugo aponta o carácter cinematográfico do projecto, algo que as condições físicas do TR e a limitação de tempo das peças (quinze minutos) proporcionam.  «Desenvolver um trabalho numa condicionante muito específica, que te é entregue nas vésperas da estreia. Num espaço onde não há a quarta parede entre ti e o público e sem recursos a maquinaria de cena», assim responde Hugo quando perguntamos pelo grande desafio do TR. Já Mariana salienta a oportunidade de testar a honestidade artística; afinal, entre os actores e o público pode haver apenas a distância de um palmo. Filipa Marcos define o TR como um «espaço cru». Eduardo sublinha a «possibilidade de crescer num só espectáculo que se repete 110, 120 vezes num mês e que exige muita objectivação, que começa no momento em que concebes o projecto para proposta. Tens que saber muito bem o que queres”contar” em apenas quinze minutos.»

Mariana e Hugo continuam a dedicar-se ao ensino do teatro e da cenografia, respectivamente; Eduardo está ligado à Associação Usina, que  promove projectos de intervenção social, e na qual participa em acções de teatro debate. Os três continuarão a dedicar-se à criação de projectos artísticos na área do teatro.



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