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Mariana Van Zeller

Nasceu em Lisboa, estudou em Nova Iorque e trabalha por todo o lado. Mariana Van Zeller é jornalista no portal Current TV para o qual produz documentários, a paixão da sua vida, do Chiado à fronteira iraquiana.

Nasceu em Lisboa, estudou em Nova Iorque e trabalha por todo o lado. Mariana Van Zeller é jornalista no portal Current TV para o qual produz documentários, a paixão da sua vida, do Chiado à fronteira iraquiana. A família preocupa-se, mas Mariana não quer largar a profissão que é também o seu mais querido passatempo. A RDB falou com ela ao telefone, pouco depois de ter ganho um Webby Award.

Qual foi o teu percurso académico e pós-académico em Portugal?

Universidade Lusíada de Lisboa. Fiz um curso de Relações Internacionais de quatro anos, no último estive de Erasmus em Roma. A seguir, já não académico, trabalhei durante dois anos na SIC, primeiro como estagiária no departamento de internacional e depois a SIC Notícias abriu quando eu lá estava. Comecei a trabalhar para um programa de viagens. A seguir candidatei-me à Columbia University, candidatei-me três anos. A primeira vez foi logo a seguir ao curso na Lusíada e não fui aceite. Da segunda vez puseram-me numa lista de espera e ao terceiro ano, como já estava farta de não ser aceite e como era o meu sonho estudar jornalismo lá, pus-me no avião, fui para Nova Iorque e bati à porta do reitor. Expliquei-lhe que há três anos que me candidatava e que queria ser jornalista nos EUA e ele era completamente fascinado por Portugal, adorava portugueses, e eu tive imensa sorte em entrar. Um mês depois de ter chegado aconteceu o 11 de Setembro e a SIC ligou-me. Era a única jornalista portuguesa que tinham em Nova Iorque e durante as primeiras 48 horas estive a fazer vivos e reportagens para a SIC. Foi o meu big break (risos).

Como foi a experiência na Columbia University? Eras activa politicamente, participavas em muitas actividades extracurriculares?

Não era activa politicamente, mas adorei a Columbia. Foi a minha janela para o jornalismo nos EUA como portuguesa. Adorei por vários motivos. Foi aí que tive o primeiro contacto com documentários de longo formato. Foi lá que percebi que o meu sonho para o resto da vida era fazer long format documentaries. Gostei e aprendi imenso.

Como é que foste parar à equipa da Vanguard no Current TV?

A seguir à Columbia fui para Londres trabalhar para uma produtora de documentários, onde estive um ano, e depois começou a guerra no Iraque e eu queria ir para o Médio Oriente aprender árabe. Então fiz as malas e parti para a Síria onde fui tentar aprender árabe na Universidade de Damasco, onde estive seis meses a aprender árabe e também a procurar estórias para fazer documentários. No final, acabei por fazer um documentário como jornalista “undercover” na fronteira entre a Síria e o Iraque a fazer uma estória sobre os militantes mujahidin que cruzavam a fronteira para lutar contra os norte-americanos. Esse documentário apareceu no Chanel 4, no Reino Unido. Trabalhei um ano na tal produtora inglesa e na Síria estive quase dois anos como freelancer a fazer documentários para Channel 4, PBS norte-americana e CBC canadiana. Depois ouvi dizer que o Al Gore ia abrir uma televisão para jovens adultos e que procurava jornalistas que soubessem filmar, editar e fazer reportagens sozinhos, viajando à volta do mundo. Candidatei-me, ligaram-me a dizer que estavam interessados, e desde aí trabalho aqui há quatro anos no Vanguard, que é o departamento de documentários do Current. Fazemos documentários de meia hora todas as semanas sobre vários assuntos, desde direitos humanos a economia. Tenho o trabalho dos meus sonhos que é viajar à volta do mundo e contar estórias que penso serem importantes.

O interesse por documentários e reportagens alargadas foi adquirido nos EUA ou é anterior? Estou a perguntar porque são géneros com pouca expressão em Portugal.

Foi na Columbia University. Em Portugal, até há cinco anos atrás, acho que agora começou a ser um bocado diferente, não havia grande exposição a documentários. Eu nunca tive. E na Columbia um dos cursos era o de documentários e vi logo que era isso que queria fazer para o resto da vida.

Recentemente ganhaste um People’s Voice Webby Award na categoria News & Politics: Individual Episodes pelo documentário “Obama’s Army”, que retrata o recenseamento jovem nas últimas eleições norte-americanas. É certamente gratificante, mas diria que o verdadeiro privilégio foi presenciar de perto as eleições que elegeram Obama. Concordas?

Absolutamente, concordo completamente. Foi uma das reportagens que mais me fascinou fazer, embora tenha sido aqui nos EUA onde eu moro e não num país exótico. Foi a paixão da juventude que mais me fascinou. Não havia um candidato que representasse a nossa geração e finalmente viu-se que sem os jovens, sem a presença e a determinação da juventude, Obama não teria ganho as eleições de maneira nenhuma. Ele deu aos jovens a confiança e as ferramentas, deu-lhes responsabilidade e fez uma campanha de baixo para cima. No “Obama’s Army” estivémos a seguir um jovem de 23 anos, acabado de sair da faculdade, que deixou tudo: deixou o apartamento em Nova Iorque, deixou o trabalho num banco onde tinha começado recentemente uma promissora carreira, porque acreditou no Obama e foi trabalhar para a campanha. Ele abriu discursos a falar para mais de 10 mil pessoas e tinha 23 anos. Foi este tipo de responsabilidade que Obama deu aos jovens que fez com que a nossa geração aqui nos EUA sentisse que fazia parte e que tinha um papel fundamental nesta campanha. Deu-lhes poder. Nunca tinha presenciado algo assim, havia festas em casa de amigos para ver os debates.

Como é que alguém decide ir trabalhar, por exemplo, para a Síria num contexto de alto risco? A tua família tem opinião formada sobre esse tipo de viagem?

(Risos) Tem. O meu pai tem imenso orgulho em mim e acho que grande parte da minha necessidade de descobrir o mundo vem do meu pai. Ele diz-me sempre que tem imensos ciúmes. A minha mãe odeia (risos). Telefona-me sempre todas as semanas a pedir de joelhos para eu não ir para nenhum sítio perigoso. Em geral, a minha família tem imenso medo das reportagens que eu faço.

O risco é um factor omnipresente em basicamente tudo o que fazes. Como é que se lida com a ansiedade?

Sou por natureza uma pessoa muito calma, tenho uma grande capacidade de me adaptar às circunstâncias e isso tem-me ajudado imenso. Tenho muita, muita, muita sorte em fazer estas viagens com o meu marido que também serve de guarda-costas (risos). Ele é o meu cameraman e produtor e viajamos pelo mundo os dois. Temos uma extrema confiança mútua.

Qual foi o episódio mais perigoso em que te viste envolvida?

(Pausa) Talvez tenha sido na Síria a trabalhar na fronteira durante a Guerra do Iraque. Não tinha visto de jornalista para lá estar, estávamos como “estudantes” e havia, por um lado, o perigo da polícia secreta da Síria descobrir que éramos jornalistas e, por outro lado, estávamos numa zona de grande presença da Al-Qaeda e então corríamos o risco de sermos sequestrados. Houve vários episódios. Uma vez fomos a um mercado com uma câmara de filmar pequenina, para fingir que éramos turistas, era eu que estava a filmar, a fruta e algumas pessoas. Na altura já sabia falar um bocadinho de árabe e um dos homens começou aos gritos de “Americanos, americanos! Estão aqui americanos!” e fomos cercados por centenas de pessoas que começaram aos gritos. Havia uma criança de oito anos com uma faca atrás de nós e tivémos que correr durante para aí quinze minutos. Escondemo-nos atrás de um edifício até eles desaparecerem, mas foi um momento de grande tensão. Houve vários outros episódios na Síria, não foi fácil.

Quando não estás a trabalhar consegues desligar a 100% do trabalho?

Não (risos). Estou sempre a ler jornais e revistas à procura da próxima estória. Não considero isto um trabalho, é uma paixão, por isso nunca é um grande peso ou stress. O meu hobby é o meu trabalho.

Com tanto sucesso, reconhecimento e, presumo eu, gratificação pessoal, o regresso a Portugal não está nos teus planos próximos, certo?

Próximos não. Vivi em Portugal 25 anos da minha vida e agora quero conhecer outros países.

Já viajaste por todos os continentes. Onde te sentes em casa?

(Pausa) Sinto-me em casa em todos os continentes porque me adapto bem aos ambientes. Diria que me sinto em casa em qualquer sítio onde viva por mais que uma semana.



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