Marie Antoinette

A redescoberta de Sofia Coppola como a cineasta pop por excelência. Dia 19 de Outubro nos cinemas.

”Marie Antoinette”, o contexto:

Depois de “The Virgin Suicides” e “Lost in Translation”, um novo desafio para a sempre ambiciosa Sofia Coppola: filmar a vida (ou parte dela) da Rainha Maria Antonieta, a filha mais nova de Maria Teresa de Habsburgo e de Francisco I da Áustria (os imperadores da Áustria) e, posteriormente, mulher do delfim francês Luís, que em 1774 torna-se o rei da França, com o nome de Luís XVI. Maria Antonieta, a figura histórica, foi aquilo que se conhece: casou-se aos 16 anos e, quando se tornou Rainha de França, exerceu grande influência política sobre seu marido, mesmo sendo Maria Antonieta uma mulher que desconhecia a real situação dos plebeus franceses. Era uma mulher impopular, conhecida devido às suas extravagâncias, peculiares festas e derivados assuntos supostamente mais levianos. Era pejorativamente apelidada de “a Austríaca”. Marcou uma época e tornou-se uma figura carismática. Podia não ser a mulher mais leal do mundo, mas era certamente uma esposa dedicada e uma mãe atenciosa. E foi esse lado mais humano, de uma mulher no local errado à hora errada, que Coppola quis filmar.

”Marie Antoinette”, a estética, o filme e o exercício de estilo:

”Marie Antoinette” pode ser analisado de diferentes formas. Antes de mais, como outra viagem de Sofia Coppola ao imaginário de uma rapariga que, em virtude de determinadas circunstâncias, se vê forçada a redescobrir-se, a formar uma nova identidade, com os inevitáveis novos prazeres e incertezas daí resultantes. Sofia Coppola constrói um retrato de determinada fase da vida de Maria Antonieta (o filme não se estende até ao final da vida da Rainha), uma mulher que, vemos aqui, se vê envolvida demasiado cedo em todo um ritual de tradições pomposas da corte de Versailles. Nesse aspecto, destaque inevitável para a tremenda interpretação da iluminada Kirsten Dunst, cada vez mais uma actriz fundamental no actual panorama da 7ª arte mundial. Kirsten constrói na perfeição a personagem de jovem adolescente à procura de si mesma com a pressão extra incutida pela sua posição social adquirida demasiadamente cedo.

Enquanto exercício de estilo de Sofia Coppola, “Marie Antoinette” é fabuloso: visualmente deslumbrante e esteticamente irrepreensível, o filme assegura Coppola como uma das mais talentosas novas cineastas da actualidade, detentora de um estilo muito próprio e pessoal já no terceiro filme. As marcas estão lá: a atmosfera pop é incrivelmente sedutora, os não raros silêncios idem e a mordaz descrição e crítica a certos costumes também. Contudo, enquanto filme, falta alguma riqueza ao argumento de “Marie Antoinette”, filme assente nas imagens, música e atmosfera e onde, por vezes, sente-se uma história algo presa e sem grande desenvolvimento. Contudo, toda a elegância estética e requinte atmosférico atenuam esse ocasional vazio argumentativo. “Marie Antoinette” não é um filme fácil: vai ser amado, odiado, idolatrado, desprezado. Não marcará tanto como um “Lost in Translation” mas solidificará a carreira de uma realizadora em estado de graça.

”Marie Antoinette”, as canções:

Como sempre, um dos trunfos maiores de Sofia Coppola. Depois dos Air em “The Virgin Suicides” e de Kevin Shields enquanto coordenador de boa parte da música de “Lost in Translation” (com temas também de malta como os Phoenix ou Death in Vegas), a realizadora decidiu centrar-se na década de 80 como base sonora central de ”Marie Antoinette”, não obstante pontuais desvios para projectos mais contemporâneos. No capítulo dos clássicos destaque para os New Order, The Cure ou Bow Wow Wow, com Kevin Shields a reciclar «I Want Candy» e «Fools Rush In». No que concerne a bandas mais actuais, menção inevitável para a presença dos The Strokes ou para a entrada na banda-sonora de três temas dos The Radio Dept., uma óptima e surpreendente descoberta. Sofia Coppola consegue, pegando em canções já de si quase todas fantásticas, transportar-nos para um cenário onde a atmosfera pop incutida pelas canções assume contornos de presença quase de origem e não de mero acessório sonoro supostamente decorativo.

Trocando por miúdos, «I Want Candy» (Bow Wow Wow) é indissociável do Palácio de Versailles, «Natural’s Not in It», dos Gang Of Four, é o motor do genérico do filme e a força quase sobrenatural com que arranca a obra e «Ceremony» (New Order) é Maria Antonieta em auto-descoberta pessoal e Real (no sentido literal). Mais uma banda-sonora de excepção, que toma como fundamental o facto de ser muito mais que um simples aglomerar de temas: é parte integrante e fundamental do filme.



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