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Mário Barroso

Entrevista com o realizador de "Um Amor de Perdição", nova adaptação do romance de Camilo Castelo Branco ao cinema que estreia no dia 23 de Abril com distribuição da Atalanta Filmes.

“O Crime do Padre Amaro”, estreado em 2005 nos cinemas nacionais, foi durante três anos o filme português mais visto de sempre. Nesta adaptação do clássico homónimo de Eça de Queirós, o realizador Carlos Coelho da Silva transportava a história para os dias de hoje, com cenas de sexo arrojadas, muita polémica e ainda mais críticas negativas. No entanto, apesar de ter sido estreado no grande ecrã, o filme foi inicialmente concebido como uma mini-série para a SIC, transmitida posteriormente com cenas inéditas.

Também foi assim que nasceu o projecto de “Um amor de perdição”, nova adaptação do romance de Camilo Castelo Branco ao cinema. O realizador Mário Barroso revela que este foi um “desafio” do então director de programas da SIC, Manuel Fonseca, que pretendia produzir uma série de filmes em que fosse adaptado à modernidade um clássico da literatura portuguesa, para passar no grande e no pequeno ecrã. Mário Barroso confessa que “pensou em muitas hipóteses” e a escolha pelo romance de Castelo Branco deveu-se ao facto de ser um dos mais “exequíveis e rápidos”.

Para Mário Barroso, a ideia era interessante, uma vez que permitia fazer duas versões “radicalmente diferentes” da mesma obra, já que “há uma grande diferença entre o cinema e a televisão”. São ambos “suportes com necessidades diferentes”, uma vez que, na televisão, “a imagem corresponde ao enredo” e no cinema é “a história que permite criar imagens”. Mas Manuel Fonseca não resistiu à guerra das audiências, foi substituído no cargo por Francisco Penim e o projecto ficou na gaveta. No entanto, Mário Barroso não desistiu da ideia, que passou para as mãos do produtor Paulo Branco e acabou por se tornar realidade. Chama-se “Um amor de perdição” e chega agora às nossas salas de cinema.

Não é a primeira vez que o cinema adapta o clássico de Camilo Castelo Branco, antes pelo contrário: em 1921 houve uma versão muda, assinada por George Pallu, tendo sido filmada novamente em 1943, por António Lopes Ribeiro, e em 1979, por Manoel de Oliveira. Mário Barroso refere que só viu esta última, obra que “adorou” na altura e que reviu antes de iniciar as filmagens da sua própria adaptação, tendo “tornado a achar fascinante”, apesar de não ser uma “adaptação convencional”, visto que Manoel de Oliveira optou por “filmar o texto” quase integralmente, numa “démarche que existe muito pouco”.

Contudo, Mário Barroso realça que a sua versão “não tem nada a ver com a adaptação tradicional”, uma vez que faz “uma transição para a modernidade”. Assim, prefere dizer que, em vez que “adaptada”, é “livremente inspirada” na obra de Camilo Castelo Branco. “Amor de perdição” é, porventura, o expoente máximo da obra do exímio romancista português, uma novela sobre o amor proibido entre Simão Botelho e Teresa Albuquerque, filhos de famílias rivais. O livro é uma espécie de equivalente de “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare, mas com a novidade de inserir um terceiro elemento à trama, construindo um triângulo amoroso em que o terceiro vértice é Mariana, a filha de um ferreiro que também se vai apaixonar por Simão.

Em “Um amor de perdição”, não é tanto a história de amor que interessa, como faz questão de sublinhar Mário Barroso, mas antes o amor obsessivo daqueles jovens – especialmente de Simão –, que os levam à auto-destruição. Estamos habituados a essas histórias amorosas doentias de obsessões, que levam a atitudes extremistas, como em títulos como “Boxing Helena” ou “Misery – Capítulo final”, mas quando essa frustração é contida, acaba por se transformar numa atracção inevitável rumo ao abismo. É isso que acontece no Simão de “Um amor de perdição” e quem se aproxima de si acaba por ser também empurrado. Daí o acrescento do artigo indefinido um no título. Mário Barroso resumiu tudo na perfeição, quando o descreveu anterioremente como “um Romeu e Julieta sem Julieta”.

Aliás, Mário Barroso revela que Teresa, a Julieta desta história, “inicialmente nem existia fisicamente, só em voz”. No entanto, como já havia uma narradora, o ralizador temeu que se tornasse demasiado confuso tantas voz-offs, acabando por dar corpo à personagem. Assim, surgiu Ana Moreira para encarnar Teresa, numa versão quase fantasmática com um forte impacto. Mário Barroso reconhece que a escolha inicial era por uma “actriz mais nova”, mas ao “olhar para ela” achou-a “muito frágil” e decidiu escolhê-la “porque é alguém que marca e não se dilui no resto”. Além disso, revela que Ana Moreira já era para ter sido a Salomé do seu anterior filme, “O milagre segundo Salomé”.

Tal como Ana Moreira, a escolha do resto dos actores não foi premeditada. Mário Barroso, a viver e a trabalhar em Paris, confessa que “conhece pouco do que se passa em Portugal e não tinha nenhuma ideia” para aquelas personagens, que apenas “tinha criado na cabeça”. Assim, viu vários candidatos em várias audições e acabou por alterar as suas personagens em função dos actores que foram surgindo e convencendo-o. Simão deixou então de ser “um miúdo frágil” para ser o jovem Tomás Alves, um miúdo rebelde, impulsivo, amoral e que dita as suas próprias regras, fazendo lembrar o outro jovem com uma estranha atracção pelo abismo de “O capacete dourado” ou os adolescentes perdidos e alheados de Gus Van Sant.

Aconteceu o mesmo com a escolha de Patrícia Franco para o papel de Rita Botelho, a irmã mais nova de Simão, ou de William Brandão para o papel de Zé Xavier. Este último, que é “um condensado dos criados” da casa da família Botelho, “devia ter sido mais velho que o Simão, porque ele conduz e este não”. Além disso, William Brandão “fala como filho de emigrantes” e não como alguém estabelecido em Portugal há muito tempo. No entanto, Mário Barroso refere que se “esteve nas tintas” para isso, uma vez que o jovem actor “era genial”.

Toda esta família “é muito complexa”, onde todos se alimentam uns dos outros de uma forma quase vampiresca. Mário Barroso sublinha que esta “não é uma família tradicional a que estejamos habituados” e, por isso, “criou várias relações que não têm a ver com o livro de Camilo Castelo Branco”. Assim, transborda paralelamente uma enorme tensão sexual entre todas aquelas personagens, algo que Mário Barroso encontra também tanto no romance como na versão cinematográfica de Manoel de Oliveira.

Para o realizador, enquanto que a relação entre Teresa e Simão é “platónica”, a relação entre Mariana e Simão “é de um grande desejo sexual e violência”. Até a relação entre os irmãos tem um duplo sentido e certas insinuações, o que, consciente ou inconsciente, confere uma certa perturbação ao filme. Mário Barroso confessa que acredita que “a cumplicidade entre irmão pode conter, muito provisória e psicologicamente, algo de incestuoso”. No entanto, é sempre tudo “muito subtil e apenas sugestionável”.

Depois de ter sido apresentado no Festival de Cinema de Locarno, “Um amor de perdição” estreia entre nós. Mário Barroso gostava que os espectadores gostassem do filme tanto quanto ele, apesar de reconhecer que “não é um blockbuster como o “Titanic””. Quanto ao futuro, tem em agenda um novo projecto de ficção, que será também produzido por Paulo Branco, mas apenas daqui a “um ano e meio”, uma vez que até lá, o realizador vai estar ocupado com um “documentário sobre os cem anos da república portuguesa”. “Mas depois gostava de voltar a fazer ficção”, conclui.



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