Mark Eitzel | “Don’t Be a Stranger”

Mark Eitzel | “Don’t Be a Stranger”

O senhor escritor de canções

Quem esteve no Lux no passado dia 8 de Fevereiro a ver o antigo líder dos American Music Club aquando da edição #11 do Black Ballon, viu um Mark Eitzel em grande forma lírica e, podemos também dizer, física.

Vítima de um problema cardíaco em Maio do ano passado, Eitzel recuperou mente e espírito e conseguiu fazer um dos mais bonitos e emblemáticos discos destes últimos tempos, ainda que o mesmo tenha demorado cerca de três anos a ser concluído.

“Don’t Be a Stranger” é uma coleção de onze fantásticas canções de “amor”, de embalar, do sonho ao pesadelo. Eitzel, sem dúvida um dos mais brilhantes compositores de pedaços de vida em formato canção das últimas décadas, entrega-se neste disco de uma forma sublime e corajosa conseguindo o seu melhor registo desde o brilhante “The Invisible Man” de 2001.

Sem nada a provar a não ser a si próprio, o autor de “Western Skies” serve-nos “Don’t Be a Stranger” numa bandeja de prata, composta de iguarias feitas à base de ingredientes agridoces que matam a nossa fome de boa música.

O espírito irreverente de Mark Eitzel é um das características mais marcantes na elaboração das suas músicas que se caracterizam por memórias de uma vida que, aos 53 anos, está cheia de peripécias e acontecimentos. Como o próprio já afirmou, as suas criações surgem da simples observação quotidiana, de telefonemas de fãs durante a madrugada ou idas à Disney.

A voz de Eitzel está mais subtil e continua melódica, lancinante, intensa, até mesmo quando é filtrada através de um pequeno megafone. A musicalidade que resulta da conjugação da respiração do homem de São Francisco com o brilhantismo das suas cordas vocais leva-nos para paisagens onde o sonho se mistura com a realidade, mesmo que tal signifique um coração partido ou o regresso a velhas feridas e traumas.

É fácil amar canções como «I Love You But You’re Dead», «Well All Have to Find Our Way Out» ou «Nowhere to Run». E é simples reconhecer a genialidade de um homem que se refugia na intimidade da sua música, mesmo que o próprio diga, por exemplo, que este disco tenha resultado de “demos medíocres” e que o grande responsável pelo “sucesso” do mesmo seja o produtor Sheldon Gomberg.

Sem esquecer que o acompanha pela estrada da vida, Eitzel, modesto e pragmático, faz também questão de recordar que este disco apenas foi para estúdio graças a um amigo que patrocinou a sua gravação depois de receber um prémio da lotaria.

Mas não é, definitivamente, a sorte que torna Mark Eitzel num cantor de referência incontornável. É, acima de tudo, a sua poesia e talento que transformam simples canções em algo especial.

Em “Don’t Be a Stranger” a idiossincrasia e a hostilidade misturam-se com alguns clichés e, deste caldeirão de experiências e sentimentos, resultam baladas tristes para pessoas desoladas («Lament for Bobo The Clown») desejos de fugir à maldição de cantar («Break the Champagne») ou odes a gente que ganha a vida mascarada de conhecidas figuras do universo da animação e são vítimas de agressão («Costumed Characters Face Dangers in the Workplace»).

Também a harmonia provocada por suaves guitarras é habitual neste (grande) disco. «I Know the Bill is Due» é um exemplo desse virtuosismo, neste caso acompanhado por uma das mais intensas prestações vocais de Eitzel. Outro exemplo de bom gosto é «All My Love», um original dos American Music Club, aqui assumindo-se como uma canção pautada por um piano planante e uma bateria muito cool.

Ao contrário de outros discos, em “Don’t Be a Stranger” Eitzel trocou laivos de intensidade sonora por uma fatia mais doce e pacífica que leva ao entendimento das vicissitudes de uma realidade omnipresente. Com essa mudança ficamos todos a ganhar nesta “lotaria” criativa que é o acto de escrever e dar a ouvir canções.



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