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Markur @ Red Bull Music Academy

Depoimento sentido de um dos participantes portugueses em Londres.

Tentando resumir o que a Red Bull Music Academy em poucas palavras é complicado dada a carga emocional que os participantes escolhidos assimilam. No entanto, friamente e um evento que percorre o globo numa base anual celebrando a música e quem a esta se dedica.

Durante duas semanas um aluno junta-se a um grupo multi-cultural e entre si partilham experiências, estúdios, jam sessions e cabines de clubes. Daqui partem novos projectos, amizades e revoluções sonoras sempre coordenadas por uma equipa de tutores, alguns ex-alunos outros produtores, músicos e DJs de renome convidados que ainda partilham conhecimento em enriquecedoras palestras. As Lectures deste ano incliram A Guy Called Gerald, Trevor Jackson, DâM-Funk, Modselektor ou Henrik Schwarz.

Para lá chegar é preciso passar um apertado processo de selecção, sendo a primeira barreira a ultrapassar um famoso questionário que capaz de dissecar a alma de um artista… ou a pelo menos a paciência. Para além disso, é pedida uma prova áudio como um argumento complexo que receberá nova análise exaustiva e comparativa.

Portugal já teve uma um número considerável de participantes, João Barbosa aka J-Wow dos Buraka Som Sistema, Ka§par, Mushug (dos Octa Push), Violet (das A.M.O.R.) são alguns dos 12 felizardos seleccionados até hoje.

Em 2010 a Academia escolheu Londres como base e Marco Rodrigues aka Markur (metade dos Photonz) e Luís Pinto aka Infestus conseguiram o estatudo de Almumni. Marco estreou se no I termo e Luís está actualmente a meio do segundo.

Na RDB de Março e Abril vão estar dois artigos semelhantes, sendo este um deles, acerca da RBMA e cada um dos participantes portugueses. As palavras do Marco que se seguem serão certamente poucas, mas o suficiente para demonstrar a importância da experiência.

Porque decidiste concorrer?

Decidi concorrer porque a Violet das A.M.O.R. me pôs a pensar nisso. Ela achava que eu tinha chances e não parava de dizer o quanto a Academy seria uma espécie de paraíso na Terra para alguém como eu, que penso em música 24/7.

E que argumentos achas que foram decisivos para te escolherem?

Não faço ideia. Eu apenas tentei mostrar o meu melhor a preencher a application – tentei deixar o ego de lado e ao mesmo tempo despejar todos os momentos que achava relevantes enquanto parte dos Photonz. Falei de como via a música e fiz o CD mais kick-ass que consegui.

Como imaginavas a Academia?

Imaginava uma circunstância linda, mas menos imune do que é a certas coisas que me costumam irritar.

E o que encontraste?

Não há maneira de explicar sem cair completamente na lamechisse. É tudo lindo. Eu só pensava em como era possível eu estar a lidar tão bem com toda a gente e como o ambiente podia ser tão mágico. Só sorrisos e eventos surreais (não apenas eventos tipo festas, etc.. mas pequenas coisas que aconteciam durante o dia, que nascem de estares com 29 novos amigos a interagir com ídolos teus todos os dias) e as condições mais flawless.

Como era o teu dia-a-dia?

Acordava tarde e ia quase a correr para a Academy para chegar às 12h – perdia o breakfast quase todos os dias – para a primeira lecture do dia. Depois da lecture havia um intervalo para comer e trabalhar em faixas, ou fazer entrevistas e contribuições para a rádio, e depois a segunda lecture do dia. Depois das lectures é studio time até ao jantar – neste período também haviam muitos workshops de Logic ou de gravação em estúdio.

…e à noite?

Depois de jantar era altura de ir ver alguns dos participante tocar o seu gig, na maioria das vezes em espaços nocturnos brutais da cidade. Depois dos gigs quase todos voltavam para a Academy para fazer experiências com som quase até de manhã. Era sempre a altura mais wild, sobretudo porque não tínhamos schedule de noite. Nos últimos dias ia sempre tudo acabar no quarto 111 no hotel.

Como correram as actuações? Tiveste alguma extra-academia?

As minhas actuações correram todas muito bem. O gig official foi um dj set back-to-back com o Jackmaster (Wirebloock / Numbers) na Dalston Superstore e foi lindo. Uma festança linda – até os fundadores da Academy estavam on the floor shaking! Tive um gig extra-academia que foi também incrível no Queen of Hoxton, na noite Kill Em All, onde toquei com o Gonçalo Pereira aka ZNTN (Astrolab).

Como se desenrolava da dinâmica criativa entre os membros da Academia?

Na maioria das situações era bastante anárquico. As pessoas andavam de sala em sala a começar projectos e a montar sintetizadores. Há certamente músicas com participações (mesmo que pequenas) de 10 pessoas; muita coisa foi começada que não acabou. Muitas vezes montava-se um set up só para curtir, encontrar sons esquisitos, gravar e acabou, sem originar uma faixa com pés e cabeça.  De qualquer forma eu gostava de tudo – da anarquia e também de quando conseguiamos consolidar faixas.

Tecnicamente, o que aprendeste de novo ou relevante?

Eu tive sorte porque fiz aquilo que eu sentia que precisava de fazer, que era sair do ambiente de software e criar setups analógicos ou de hardware e sacar música daí. Aprendi a ligar todo o tipo de maquinaria e a programar esses synths para depois gravar takes em áudio – tentei fugir um bocadinho do MIDI. A soma das minhas idas à sala do equipamento para ir buscar ou trocar cabos deve dar uma distância gira. Também aprendi a trabalhar em Logic.

E teoricamente, que palestra te disse mais e porquê?

É cruel fazerem-me escolher entre as de Cosey Fanni Tutti, Dam-Funk e Trevor Jackson. O facto de ser fã faz-te ouvir melhor e depois cada uma destas tinha muito sumo para mim. Eu vou escolher a da Cosey Fanni Tutti porque foi a primeira e eu tava completamente nas nuvens como fan. Foi um evento surreal contínuo para mim desde o começo ao fim. Também gostei da maneira como trouxe poder a uma das muitas “correntes” da Academy, a dos que não são músicos mas gostam de pegar nas coisas e sacar som ou ruído, como eu. Ouvir dizer “o que nós andávamos à procura não eram melodias em si, era uma carga de energia” foi algo que me galvanizou.

Porque aconselharias a candidatura a outros DJs/produtores nacionais?

É óbvio e toda a gente já entendeu que ser escolhido para a Academy traz muita promoção e muitas oportunidades de aprendizagem e de fazer contactos, mas aquilo que faz mesmo diferença é a mudança de perspectiva e as pessoas. Pertencer àquele grupo que foi escolhido para o Term 1 é algo que me deixa super inspirado e motivado. É incrível saíres da Academy a pertencer a um grupo de produtores, músicos e DJ’s incríveis com quem podes colaborar, que podem e querem ajudar-te nalguma coisa que precises. O património que fica a nível das pessoas é surreal. É também muito nivelador estar em contacto com pessoas que consideras génios absolutos na música e reparares que são muito humildes, trabalhadores e esforçados. Não é nascer com “qualquer coisa” mas sim trabalhar, experimentar, falhar, levantar e tentar outra vez. É a perspectiva mais libertadora possível.



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