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Marlos ten Bhömer

Aos 30 anos, Marloes ten Bhömer é já considerada uma das maiores revolucionárias da História Contemporânea do calçado.

O trabalho da holandesa Marloes ten Bhömer cruza a linha que alguns insistem em colocar entre moda e arte. Os sapatos que desenvolve têm sido expostos em museus e galerias por todo o mundo. Os couture shoes – apelido que ela lhes dá – são esculturas pensadas para andar, mas os seus principais clientes são coleccionadores privados e museus.

Alterar a percepção e desafiar as ideias pré-definidas sobre um acessório presente em todos os roupeiros – projectar sapatos que parecem não o ser – foi uma ideia que surgiu ao ver um velho documentário sobre empregados fabris que soldavam pequenos pedaços de metal para criar a ilusão de um grande bife. Outra das suas influências é o sistema dos sapatos clássicos de ballet, próximos de movimentos que vão contra as posições naturais e feitos especialmente para colocar os pés em posições impossíveis de atingir descalço.

Marloes ten Bhömer pesquisa a construção enquanto um meio para explorar a estrutura do sapato e abandona propositadamente as convenções do calçado. A estratégia passa por obter novas possibilidades e redescobrir o sapato, enquanto critica o estatuto convencional do sapato feminino como objecto cultural.

Talvez devido ao seu percurso, computadores e materiais inovadores assumem o papel principal no processo criativo. Na Higher School of Arts, em Arnhem, estudou 3D design e ao mesmo tempo trabalhou com o designer Fredie Stevens, responsável pelos sapatos da Viktor & Rolf. Em 2002 fez o curso de design de calçado na London College of Fashion e em 2003 terminou o mestrado em Design de Produto na Royal College of Art, em Londres, culminando com um estágio na Tod’s.

Desde muito cedo que o seu trabalho tem chamado a atenção da crítica e de organizações artísticas por todo o mundo, bem como de designers como Alexander McQueen – para quem trabalhou num projecto de engenharia de calçado – ou a dupla inglesa Boudicca, para quem desenvolveu alguns projectos.

Para Marloes ten Bhömer, o design de calçado combina o espectro de questões: conhecimento dos materiais, engenharia e intuição. Bhömer procura ignorar ou criticar convenções para criar produtos invulgares – os sapatos que concebe precisam de ser estruturalmente entendidos.

Fazer sapatos de uma forma não convencional e ainda assim fazê-los com exactidão técnica é o seu verdadeiro desafio. O desenvolvimento técnico é controlado por ela na totalidade, consultando alguns dos profissionais mais competentes – mestres do calçado e da sua indústria, engenheiros, ortopedistas e os tradicionais sapateiros.

Da criação automatizada de moldes até ao corte das suas componentes a partir de moldes 3D, existe no trabalho de Marloes um foco especial na tecnologia de ponta. Os sapatos podem ser produzidos em fibra de carbono industrial, usado na indústria automóvel de competição e na construção de aviões, ou em “leather-mâché“, uma técnica pessoal recorrente inspirada no papier-mâché.

Nomeada na categoria de Design de Produto para os prémios Brit Insurance Designs 2009, o seu mais recente projecto – RotationMouldedShoe – pode ser visto até 14 de Junho no Design Museum em Londres. O sapato é apresentado numa instalação que o dá a conhecer passo a passo: do desenvolvimento de materiais à forma como se molda e desenforma, passando por uma mistura de testes de materiais e de erros de processo, e finalizando no par acabado.

WOWdesign é outra exposição da artista, a decorrer até 31 de Maio no Krannert Art Museum, em Illinois. “After hours” ilustra mais uma vez o processo do RotationMouldedShoe, mas agora apresentado com a Rotationalmouldingmachine – a máquina que molda o sapato, pensada com o designer e engenheiro mecânico Nick Williamson. Os visitantes podem espreitar o estúdio de Bhömer e aprender mais sobre o seu processo criativo. O método pioneiro de fazer sapatos – e de os mostrar – começa com borracha líquida lentamente colocada no molde que vai girando na Rotationalmouldingmachine até o sapato estar pronto. Ao pormenor. Outro dos trabalhos que pode ser visto aqui é Beigefoldedshoe, um sapato completamente feito à mão. “Construct” mostra uma série de fotografias que ilustram todas as fases de desenvolvimento do objecto e o seu processo criativo.

A primeira edição especial a lançar sob a marca MarloestenBhömer ainda não tem data marcada, mas os sapatos mencionados podem ser encomendados no site da artista.



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Existem 7 comentários

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  1. David Carvalho

    Eu acredito num futuro onde design+arte+moda como queiram deixa de ter rótulos e fronteiras e se juntam num só com uma base sólida acente na coisa mais importante seja qual for a disciplina: criatividade…

    Por isso adoro não só a aproximação da Marlos como o resultado.

  2. João Pedro Filipe

    O mais relevante no trabalho de MARLOES TEN BHÖMER não é o resultado final de cada sapato mas sim o processo e as novas possibilidades que ela encontra no decorrer desse processo. Os seus sapatos não devem ser vistos de forma descontextualizada e é por isso que ela nos faz questão de mostrar o que está por trás. Estar a por em gavetas áreas criativas parece-me redutor e nas artes a própria historia mostra que nunca ouve galhos para macacos – Salvador Dali e Andy Warhol são apenas alguns exemplos.

  3. João Pedro Filipe

    A diferença entre arte e design existe para quem quer que exista. Design = Desenho. A teoria do design diz que o design = forma + função mas também diz que a moda é um fenómeno anti-design. Abolimos o termo design de todos os sapatos não rasos? O design de moda deve ficar restrito aos básicos funcionais? Não me parece que neste caso concreto da Marloes a função seja a principal preocupação mas sobre o ponto de vista de pesquisa de materiais e formas de construção de calçado ela trabalha como qualquer designer deveria trabalhar. Ela é a prova disso mesmo – nem tudo foi feito antes e há muito a explorar.

  4. David Carvalho

    Acho que na "maior parte" das vezes eles tem em atenção valores como usabilidade, funcionalidade e afins, agora é preciso bom senso das pessoas que observam para compreenderem o "show", muitas vezes várias peças fazem apenas parte desse "show" :) óbviamente existem exepções…

  5. Isidropaiva

    Como disse e muito bem ontologicamente design = forma + função, mas design também é processo, e não tem que ser um processo meramente taxativo e direccionado para o funcional. O desenho do Design deve ser entendido enquanto metodologia projectual, uma metodologia de pensamento, o que é de facto é o desenho, tanto nas artes, moda, design, arquitectura: PENSAMENTO/ PROCESSO, quer seja mental, ou racionalizado mecanicamente, e isso é o desenho enquanto processo de procura de “novas possibilidades que ela encontra no decorrer desse processo” (citando o João Pedro). Quanto a esse design de básicos, ainda vive dos do design de massas o chamado design democrático, e que politicamente / historicamente teve o seu Tempo, esse “designs” de pós Guerra de tão defendido por Munari (Forma -Função)e outros. Se virmos ao longo da historia as práticas artísticas encontravam-se todas elas a par, design, moda, arte, arquitectura, e logo no inicio do século XX trabalho de designers e arquitectos como Charles Macintosh, que cruzam as disciplinas de uma forma descontraída. Depois de todos os movimentos do século passado de (des)unificação e unificação das práticas artísticas, falar de gavetinhas certamente que não faz qualquer sentido. O que se deve pensar hoje é as possibilidades que ainda temos pela frente, e as novas problemáticas, sejam elas quais foram deve ser ultrapassadas, pelos AGENTES CRIATIVOS (designer, arquitectos, artistas, Faschion designers, e mesmo cientistas) que cada vez mais tendem a quebrar preconceitos que se tem vindo novamente a estabelecer, ainda por advento de uma regularidade secular enraizada, desses cérebros embebidos pela taxinomia, do cartesianismo…


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