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Materiais Diversos 2012

O corpo como ponte entre dois continentes. Entrevista a Tiago Guedes

Com direcção artística de de Tiago Guedes, o festival de artes performativas Materiais Diversos apresenta, de 14 a 29 de Setembro, a 4ª edição em Alcanena, Minde e Torres Novas, com vinte e dois artistas, dos quais nove são brasileiros.

Desde 2009 a impulsionar a cultura contemporânea. O que podemos esperar do Festival Materiais Diversos em relação às edições anteriores?

Em 2012, o Festival Materiais Diversos apresentará uma programação feita de espectáculos portugueses e brasileiros numa vibrante mostra do que se anda a fazer em cada País nas áreas da dança, do teatro e da música. A quarta edição do festival solidifica as parcerias locais com várias associações locais e desenvolve dois espectáculos onde a comunidade é convidada a participar. O encenador Martim Pedroso com trinta habitantes e Ana Borralho e João Galante com cem elementos dos concelhos de Alcanena e Torres Novas. Este ano também nos abrimos à música com três concertos (Noiserv, Miúda, A2 e Nice Weather for Ducks) e teremos uma relação mais próxima com o Parque Natural das Serras D’Aire e Candeeiros, com várias actividades ao ar livre.

No Ano de Portugal no Brasil/Brasil em Portugal, o Festival continua apostar em Alcanena, Minde e Torres Novas. Como se concretiza este desafio artístico perante a diferença e a semelhança cultural entre os dois Países?

O Brasil está em plena ascensão a vários níveis. Culturalmente, as condições de que os artistas dispõem para produzir têm vindo a melhorar de ano para ano. Descobri uma série de espectáculos de vibrante inovação. Tanto no teatro como na dança, as propostas a apresentar reflectem pensamentos artísticos muito apurados e muito ancorados na questão da memória e da história. É esta reflexão que me interessa mostrar, este respeito pelo passado e a relação com a memória individual e colectiva.

Os coreógrafos brasileiros Cristian Duarte, Denise Stutz e Ângelo Madureira & Ana Catarina Vieira vão apresentar trabalhos seus pela primeira vez em Portugal. Como surgiu esta possibilidade?

Tive o prazer de descobrir o trabalho destes coreógrafos na Plataforma de Dança Carioca e no Festival Panorama do Rio de Janeiro no final do ano passado. Após grande entusiasmo, conseguimos que o Festival fosse integrado no Ano do Brasil em Portugal, tal como conseguimos o inerente apoio à vinda desses artistas.

Enquanto programador, mas também como coreógrafo, quais são os objectivos, vontades e preocupações para as duas semanas do evento?

Os principais objectivos são solidificar as relações com as associações locais, que têm um papel muito importante na organização geral do festival; continuar a apresentar espectáculos que são descobertas artísticas para o nosso público; ter atenção à variedade de disciplinas artísticas a apresentar (este ano teremos três grandes concertos ao ar livre); e proporcionar a quem nos visita uma experiência mais próxima com o Parque Natural das Serras D’Aire e Candeeiros, proporcionando um conjunto de actividades ao ar livre.

A integração da população local nas peças “Penthesilia” de Martim Pedroso e “Atlas” de Ana Borralho & João Galante é uma manifestação intencional da programação?

Claramente. Desde a primeira edição que o FMD apresenta propostas artísticas cuja população é convidada a participar activamente. Este ano os projectos participativos são ainda mais ambiciosos. O Martim Pedroso trabalhará dez dias num workshop intensivo com trinta pessoas locais provenientes de diversas associações de Alcanena, e Ana Borralho e João Galante mergulham num ATLAS com cem pessoas dos Concelhos de Alcanena e Torres Novas num projecto em que a palavra é dada em exclusivo a esses participantes.

O diálogo e a reflexão em torno da arte contemporânea fora do circuito urbano e descentralizado dos habituais circuitos de programação é um elemento que se destaca. Porquê esta escolha?

Quando voltei de França, onde trabalhei três anos como coreógrafo residente no Theatre Le Vivat, em Armentières, queria muito desenvolver um projecto onde o meu trabalho não fosse o centro. Daí ter pensado num festival onde o centro são outros artistas e as associações locais que já desenvolviam actividades culturais. Encontrei na vila de Minde essa força associativa e, falando com essas associações, apercebi-me que conciliando esforços poderíamos montar um projecto interessante. Daí a convencer outros parceiros locais, autárquicos e nacionais, foi um trabalho contínuo e que neste momento nos permite desenvolver este projecto de festival.

Tiago Guedes

Tiago Guedes

O Festival Materiais Diversos é um exemplo de transversalidade e colaboração entre organizações. Como se desenvolveu esta rede de apoio?

As diferentes associações ligadas à música (Conservatório e Banda Filarmónica), à dança (Escola de Dança do CAORG), às artes plásticas (Museu de Aguarela Roque Gameiro) e ao teatro (Grupo de Teatro Boca de Cena de Minde) foram convocadas a participar no festival desde o início. Todos se sentiram envolvidos e todos têm participado de várias maneiras. O facto de muitas pessoas da equipa serem também locais ajuda ao envolvimento associativo. Todas as famílias, de uma forma ou de outra, colaboram connosco.

No actual contexto de cortes orçamentais, a realização do festival esteve em causa? Quais foram os maiores obstáculos?

Foram efectivamente os cortes financeiros: 38% por parte do Governo de Portugal e 33% por parte da autarquia. Pese embora sejamos solidários com o esforço que todos temos que fazer, estes cortes põem em causa o desenvolvimento do festival no futuro.

No “Fora de Palco”, onde sobressaem as actividades de fim-de-semana, como Aulas de Consciência Corporal, Piqueniques com Artistas, entre outras, nas Mesas Rectangulares haverá oportunidade para debate. Que tipo de resultados esperas desta partilha?

No nosso festival os espectáculos são sempre complementados com actividades paralelas. Acredito que quantas mais portas de entradas tiver o público mais interessante será a experiência de descobrir o trabalho dos artistas. Desta forma, os piqueniques com artistas, as conversas pós-espectáculos, as aulas e workshops dadas por artistas ou as mesas rectangulares de discussão têm-se apresentado como excelentes complementos à entrada nos projectos que apresentamos. Para o nosso público é já normal que isso aconteça e já vêem essas acções como parte integrante das actividades principais.

Para finalizar, qual é o papel que consideras que o Festival ocupa actualmente no panorama artístico, tanto a nível nacional como internacional?

O Festival tem ganho bastante reconhecimento a nível nacional por ser um foco de apresentação de trabalhos recentes de artistas portugueses e de estreias internacionais. Internacionalmente tem captado a atenção de vários programadores que nos visitam para descobrir os trabalhos que se fazem em Portugal e que mais tarde os apresentam nos seus teatros. Tentaremos sempre fazer com que o nosso festival funcione como uma plataforma de lançamento dos artistas portugueses para a internacionalização, accionando os nossos contactos e convidando vários programadores a estarem connosco.



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