Matthew E. White

Matthew E. White

“É plantada uma semente, é regada e conforme o tempo passa brota alguma coisa”

Talvez já tenhamos ouvido música deste senhor e nem tenhamos dado por isso. Matthew E. White, que esteve na cabine de produção de músicos como Justin Vernon (vulgo Bon Iver) ou dos The Mountain Goats, editou no passado ano o seu disco de estreia em nome próprio, “Big Inner”, que tem lançamento internacional no próximo mês.

O que fica registado é precisamente uma brisa que volta a trazer interesse ao movimento americana, que tem sido associado a caminhos sinuosos da indústria discográfica nos últimos anos. Mas não é só isso: o músico norte-americano cercou-se uma banda completa – a residente da sua editoria Spacebomb – e orquestrou um verdadeiro tour-de-force que condensa uma quantidade infindável de terrenos, reunidos sob uma massa sonora que vai recontando a história da música. Não nos surpreendamos se uma melodia acústica se deixar contaminar por uma portentosa secção de metais ou por um padrão rítmico que vai do céu à terra.

Em vésperas dos primeiros concertos no Velho Continente – a estreia acontece na próxima semana, no festival Primavera Sound em Barcelona –, conversámos com o músico.

Matthew, trabalhaste na produção de música dos Megafaun, da Sharon Van Etten ou dos The Mountain Goats. Mas enquanto músico, noto que exploras territórios um pouco diferentes. Quem é afinal o Matthew E. White, o músico, e como nasceu este disco?

Quando trabalhas para alguém, o objectivo é expandir a voz pessoal desse artista de maneira única, com uma habilidade única definida que eles te pedem para usares. Quando escrevo para mim próprio, tenho a oportunidade de expandir a minha própria voz através da escrita de música, arranjos e produção. Toda a gente tem um background musical, tem professores, tem heróis, e são diferentes, então quando tens a oportunidade de reflectir todos esses ensinamentos num disco, o meu objectivo é que a reflexão tenha um carácter único que é puramente da pessoa.

Quanto ao álbum, nasceu sob a lente da Spacebomb Records, uma editora que eu comecei com base num modelo de banda residente, e construída numa comunidade de músicos em Richmond Virginia que é imensamente talentosa. O “Big Inner” foi a primeira coisa que fizemos, um disco cuja viagem foi liderada por mim, mas que foi nutrida e trazida à vida pela comunidade da Spacebomb, uma banda residente que tem um enorme talento e é formada por músicos das redondezas que emprestaram as suas habilidades a este projecto para fazer algo enquanto uma comunidade que fosse maior do que qualquer coisa que eu pudesse fazer sozinho.

Foram músicas que já existiam ou foram escritas especificamente para este disco?

Foram todas escritas especificamente para este disco.

Encontramos um espectro gigante de influências nas músicas, desde a soul à tropicália, do folk ao gospel. Como é que tudo isto convergiu para a massa sonora que ouvimos em “Big Inner”?

Penso que o objectivo de todos os artistas seja pegar na música de que gostam e focá-la em algo deles próprios. Esse processo é uma coisa intangível, não é quantificável. E é isso que faz a música tão interessante, quem sabe como é que isso realmente acontece?! Eu sento-me, escrevo música, esboço ideias e levo-as até aos músicos. Conforme o tempo passa é plantada uma semente, é regada e brota alguma coisa. Essa viagem é um mistério maravilhoso e é por isso que as pessoas o continuam a percorrer.

“Big Inner” é um nome ambíguo, tanto se pode referir a um álbum de estreia em grande, como a uma experiência muito profunda, ou mesmo ao “iniciante” [“beginner”, no original]. A qual deles se refere?

Bem, a todos. Foi por isso que escolhi esse nome. Abrange uma data de sentidos. A coisa maravilhosa acerca das palavras, e às vezes as pessoas esquecem-se disso, é que elas podem significar muitas coisas ao mesmo tempo. Não existe um significado definitivo para o nome do disco, existem muitos, isso é intencional.

Encontramos muitas camadas nas músicas e mil variações – no caso de «Steady Pace», é um tema que se baseia nas variações constantes. Como é que se põem todas estas camadas em marcha?

Cada música tem a sua história. No caso da «Steady Pace», eu escrevi o refrão e, no processo de trabalhá-lo, os tipos da Spacebomb arranjaram uma progressão de acordes e uma ideia de secção rítmica para outra parte, que depois se transformou no verso. Depois, o final é mais ou menos uma expansão da ideia do verso. Quando as coisas se juntam assim estruturalmente tens de ser cuidadoso para que as peças encaixem de forma a que não caia tudo por terra, e no fundo não existem regras definidas para isso, é uma questão de julgamento. Nesse caso, faço o meu melhor para tomar boas decisões.

Dei por mim a trautear a melodia religiosa do final do «Brazos», parece que pegas no coro de gospel e o levas para o estúdio. És uma pessoa religiosa?

Não, a religião não entra no processo. Apesar de a música gospel ser uma grande influência, não cresci necessariamente nessa tradição. A questão da religião significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Se vou à igreja todos os domingos? Não. Se estou confortável a falar sobre coisas espirituais? Sim. Mas também um ateu está confortável para falar sobre isso. Se calhar o melhor é sentarmo-nos com uma bebida e falar melhor sobre isso aí em Portugal.

Qual é o truque para se fazer crescer uma barba dessas?

Persistência.

 

“Big Inner” pode ser ouvido na íntegra aqui.



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