“MAUS” | Art Spiegelman

“MAUS” | Art Spiegelman

Uma representação crua e sincera do que é ser Humano

Existem livros que, mal os terminamos de ler, nos deixam o corpo num estado de pura euforia, uma sensação intensa e imediata que vai desvanecendo com o passar dos dias. Enquanto outros, sem nos apercebermos após a sua leitura, plantaram sementes mais fundas, que nos acompanharão o resto da vida. É por isso que, o derradeiro teste para qualquer obra, tem de ser o teste do tempo. “MAUS”, de Art Spiegelman, terminou de ser publicado em 1991 e passados 23 anos continua a ser uma das obras de maior referência sobre a Segunda Guerra Mundial – e uma das melhores BD’s da História. Por isso afirmar hoje que “MAUS” é uma obra maior, é afirmá-lo em plena consciência do valor destas palavras.

O livro já tinha sido editado em Portugal, numa versão com dois volumes (como a original) pela Difel, em 1996, encontrando-se actualmente esgotado. Uma vez que este é um daqueles livros que deve estar sempre disponível para o conhecimento de todos, esta nova edição da Bertrand era não só importante como obrigatória.

“MAUS” nasce a partir de uma série de entrevistas conduzidas pelo autor ao seu próprio pai – Vladek Spiegelman -, pretendendo ser um retrato gráfico da sobrevivência de um judeu ao holocausto. Art Spiegelman acabou por retratar, em paralelo, as conversas que teve com o pai durante este processo criativo, o que acabou por nos dar uma maior dimensão da pessoa que foi Vladek Spiegelman, algo que enriquece ainda mais toda esta narrativa.

“MAUS” | Art Spiegelman

Em termos gráficos o livro foi muito audaz na altura, começando pelo “simples” facto do autor ter optado por desenhar animais antropomórficos para contar esta história, uma decisão que lhe conquistou tanto elogios como críticas severas. Contudo, Art Spiegelman sabia muito bem o que fazia ao enveredar por este caminho, criando metáforas fortes e directas ao retratar cada povo envolvido nesta história – começando no simples facto de os judeus serem retratados como ratos e os alemães como gatos. É de salientar, em adição, que todas as personagens são desenhadas sem qualquer tipo de expressão vilã ou heróica como é muitas vezes típico na banda desenhada, uma abordagem que o autor privilegiou para tornar os julgamentos morais imparciais para os leitores.

Mas não só a nível de simbologia “MAUS” surpreendeu. Também o planeamento das suas pranchas, com vinhetas minúsculas e traço minimalista, são ainda hoje uma referência no género. Esta apresentação visual simplista – apesar da violência atroz que estará sempre impregnada no holocausto – tornam a leitura de “MAUS” mais apelativa para um maior número de pessoas, convidando-nos a todos a ler e reflectir sobre um dos períodos mais negros da humanidade.

Uma das preocupações maiores de Art Spiegelman foi sempre a de criar um retrato honesto do holocausto, mas também um retrato honesto do seu pai. Isso nota-se especialmente quando o autor revela, preocupado, que o seu pai encaixa no perfil racista do típico estereótipo de um judeu (estereótipo esse que tem vindo a ser descrito há centenas de anos – muito antes do popular “Mercador de Veneza” de William Shakespeare). Outro aspecto que poderá deixar o leitor surpreso é o facto de Vladek ser racista com os afro-americanos, apesar de ter sobrevivido a um dos maiores genocídios xenófobos da História. Se “MAUS” é a todos os níveis uma lição de vida, é-o porque se preocupa em dar-nos uma representação crua e sincera do que é ser Humano, mostrando-nos aquilo que temos de melhor e de pior dentro de nós.

Um outro tema com que “MAUS” lida é o sentimento de culpa experienciado pelos judeus sobreviventes, incluindo aqueles que não viveram durante o holocausto, como o próprio autor. Nesse sentido existe muito do próprio Art Spiegelman neste livro, que a partir da sua experiência pessoal nos mostra uma dinâmica familiar daqueles que sobreviveram. Apesar da sua mãe já não existir quando este projecto foi iniciado, a sua presença é uma constante ao longo da história, nomeadamente a forma como o seu suicídio afectou o autor, algo muito bem demonstrado a partir de uma curta de BD antiga que foi inserida no livro.

O termo “novela gráfica” foi popularizado pela primeira vez nos Estados Unidos graças ao trabalho “A Contract with God”, de Will Eisner. Posteriormente houve três livros – apelidados hoje de “os grandes três” – cuja densidade narrativa vieram reforçar o título conquistado por Eisner, sublinhando o quanto a BD podia ser literária: “Watchmen”, “The Dark Knight Returns” e, claro, “MAUS”, a primeira BD a vencer o prémio Pulitzer.

Nesta nova edição em um volume da Bertrand, é de salientar o trabalho de tradução de Joana Neves, que conseguiu manter bem visíveis as diferenças na linguagem entre pai e filho Spiegelman, algo muito focado no inglês original, uma vez que o autor, ao contrário do pai, cresceu na América aprendendo a falar inglês desde o berço.

O que aconteceu na Alemanha de Hitler nunca terá desculpas, mas é preciso ter sempre em mente que o fantasma do preconceito não tem nacionalidade ou líder, que nunca foi exterminado e que é nos momentos de maior adversidade e medo que as pessoas se entregam a ele. É por isso que obras como “MAUS” são de uma importância maior porque, apesar das palavras ou desenhos nunca serem suficientes para retratar a dor de uma época como esta, ao menos que sejam suficientes para que as impeçam de alguma vez voltarem a acontecer.



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