MaZela @ Casa Capitão (21.02.2026)
Entre amor e ódio o caminho é estreito, mas...
Maria Roque, natural de Castelo Branco tem vindo, pé ante pé a trilhar o seu caminho, nos seus termos, no seu tempo, mas dando sempre passos seguros. Hoje é altura de dar mais um desses passos. O momento de começar a mostrar o que aí vem no pós-“Desgostos em Canções de Colo”, esse simples mas também complexo e belíssimo EP.
«Bordado», o novo single, dado a conhecer na antecâmara deste concerto, serviu para abrir o apetite, com ideias que se solidificam e novos caminhos que serão percorridos, irá certamente integrar o alinhamento que MaZela se prepara para apresentar. É uma canção bonita onde amor e luto coexistem lado-a-lado.
O sótão da Casa Capitão afigura-se como o cenário perfeito para nos acolher: MaZela e nós, seus acólitos musicais. É aconchegado e isso assenta que nem uma luva no cenário, com um candeeiro de pé e uma mesa redonda baixa de três pernas (que serão familiares para quem já tiver visto Mazela ao vivo). Depois há dois bancos. Do lado esquerdo impera a simplicidade ; uma guitarra acústica, um microfone e um suporte com folhas de papel. Do lado direito é diferente. Uma guitarra eléctrica ao lado de um amplificador e à frente uma parafernália de pedais de loop e de efeitos, que ficará a cargo de Alexandre Mendes.
Começamos com «Naveguei (onde os outros vão)», onde as camadas sonoras que a guitarra eléctrica cria, ora para coexistirem entre si, ora para nos levam de forma solitária, tudo ligado pela voz suave e quase sussurrada de Maria Roque.
Segue-se «Fuga Habita no Meu Quarto». O passado é crucial no caminho que decidimos seguir. É esse o papel destas canções, que integraram o “Desgosto” (irei abreviar o nome daqui em diante apenas por uma questão prática, porque este desgosto em particular tem um lugar especial por aqui).
Em «Luz no Escuro», diz-se que “mete medo a ninguém” e aqui o que se destaca é a forma assertiva com que esse verso é cantado. Estas canções são tão bonitas.
Depois ouvimos uma canção nova, tão nova que ainda não tem nome, tocada pela segunda vez, ainda em busca da sua forma final, onde Mazela canta “Cansar de amor / a solidão / e de oração / os meus pecados / não foi mal / fiz por anseio / agora sei / sentir primeiro”. E peço desculpa se alguma palavra não for a correcta, porque foi mesmo tudo de ouvido e on-the-fly. Aqui a intervenção da guitarra do Alexandre é minimalista, talvez ainda à procura do seu lugar, ou talvez não.
«Em Órbita» é a canção que encerra o “Desgostos” e onde sabemos que Marte e Saturno nunca verão o mar e «Entre Amor e Ódio», surge com convite para fazermos a vez da Cátia Mazari Oliveira (A garota não). E é uma das canções mais bonitas que foram compostas nos últimos tempos neste cantinho à beira-mar plantado, e poucos o sabem.
Chega a vez de «Bordado», escrita para os seus avós e dedicada aos de todos; aos que ainda cá estão e aos que já partiram. Há uns parágrafos atrás escrevi que está canção era sobre amor e luto, mas também é sobre saudade.
Antes de terminar há ainda tempo para uma versão de «Canção Sem Final», d’A garota não. Porque é a preferida de Maria Roque, e porque o mundo precisa de canções como esta. Podem decretar o fim da arte e a gente faz uma canção sobre isso. Sempre!
O único coisa a apontar a este concerto é que foi curto, mas isso é algo que o tempo se encarregará de mudar. Para melhor.
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