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Mazgani

“Tell the people” em discurso directo.

Shahryar Mazgani nasceu no Irão, mas aos cinco anos mudou-se para Portugal, estabelecendo-se em Setúbal até à data. Foi aqui que começou a escrever as suas letras, a compor as primeiras canções e a tocar guitarra. A primeira vez que ouvimos falar dele foi em 2005, dando nome ao colectivo que a revista francesa, “Les Inrockuptibles”, destacou como uma das bandas mais promissoras a seguir. Já este ano, Mazgani, desta vez em nome individual, ficou em terceiro lugar no concurso internacional de composição, o “International Songwriting Competition”. Pelo meio, dois discos de originais lançados: “Song of the new heart”, em 2007, e agora “Tell the people”.

Nasceste no Irão, mas vieste para Portugal com cinco anos, onde permaneces até à data. Sentes-te mais iraniano ou português?

Cresci e construí a minha identidade aqui, em Portugal, penso, sonho e falo em português e o meu coração é português. No entanto, sempre falei farsi em casa e a os meus pais sempre procuraram transmitir-me a cultura iraniana. A vontade é que, quem ouvir a minha música, não se lembre de nada disso. Se ouvirem a minha música e pensarem que é um tipo de Setúbal ou do Irão que a está a cantar é porque estou a fazer algo muito mal e a falhar redondamente. Quem faz bem o seu trabalho faz desaparecer a pessoa que está por trás e se a canção for boa, esquecemo-nos do resto.

Como é a música do Irão? Foi importante para a tua iniciação musical?

A música iraniana e persa é uma música muito rica e de uma grande beleza. É uma escola e uma tradição que passa de pai para filho, numa relação de muita seriedade e honestidade. É de uma beleza sublime e é um território em que não me atrevo a aventurar.

E porquê a mudança para Setúbal?

Na altura tive muito pouco a dizer sobre o assunto. Vim à boleia dos meus pais que, devido às circunstâncias específicas do Irão nessa altura, com a instituição do regime fundamentalista do aiatola Ruhollah Khomeini, estavam numa situação difícil, uma vez que têm uma religião diferente, a baha’i. É costume dos regimes abafar as vozes minoritárias que podem ganhar protagonismo no futuro. Assim, decidiram vir para Setúbal, porque tinham lá amigos. Já estou em Setúbal há trinta anos e é a minha casa. Desde essa altura que não voltei ao Irão, não é fácil por causa dessas circunstâncias, mas tenho curiosidade em lá ir.

Como vês a situação actual no Irão?

É um fenómeno complexo, de difícil leitura. Acompanho com atenção e emoção o que se passa no pais e tenho muita esperança no futuro do Irão e da humanidade em geral, mas deixo a actualidade política para quem é mais idóneo.

Entretanto, acabas de lançar o teu segundo disco, “Tell the people”, que é um pouco diferente do primeiro, “Song of the new heart”. Este está mais perto do blues e da tradição americana, enquanto o anterior era um disco de canções mais clássico, com mais arranjos. Arrisco a dizer que o primeiro era mais Leonard Cohen e este é mais Nick Cave. Como nasceu este álbum?

Acho que é um disco mais cru e o processo de gravação teve muito a ver com isso. O disco foi pré-produzido com algum tempo e a sua gravação foi mais imediata, com o objectivo de captar o momento e de ir mais ao encontro dessas sonoridades de raiz, como blues. Enquanto o primeiro disco era mais polido, este é mais old school. Houve uma tentativa de captar tudo de uma forma mais visceral e de captar as emoções e uma procura consciente em romper com a estética mais clássica do disco anterior.

A escolha de Pedro Gonçalves para produtor teve a ver com isso? Quando foram para estúdio já  sabiam o que querias, ou ele foi importante para essa sonoridade do disco?

Sim, a escolha teve essa intenção. O Pedro Gonçalves é um músico com um profundo conhecimento musical e uma abordagem muito intuitiva aos temas. Em conjunto com ele, pré-produzimos o disco com cuidado, definimos a geografia a trilhar e quando entrámos em estúdio já estava tudo traçado. Passámos dez dias no meio do campo, em Vila Velha de Ródão, num processo em que o engenheiro de som, o Hélder Nelson, também foi determinante, porque tem uma abordagem muito próxima, que dá primazia ao elemento orgânico do processo. Ele capta muito bem o espaço, em vez de o procurar emular.

A poesia continua a ser importante para um letrista como tu?

A poesia continua a ser muito importante. Aliás, as letras são o que me ocupa mais tempo nas músicas. O lado harmónico e melódico das músicas é muito simples. O móbil é sempre contar histórias de uma forma minimal e de poucos acordes.

Este parece-me um disco mais inquieto, mais perturbado, não só pela sonoridade, mas também pelas letras e pelas suas temáticas. Concordas?

Inquieto é uma boa palavra. Mas o que houve foi a procura em manter a raiz e a identidade, a procura em ousar mais, no sentido de ir mais longe em territórios que não conhecia. É isso que faz o trabalho ganhar confiança e atrevimento. Por isso é que, se calhar, abracei mais aquilo que me inquieta, porque é nesse território, o da falha, onde as coisas são mais honestas e que se canta mais alto e de forma mais sentida.

Tens tocado muito em formato banda, mas também a solo. Qual dos dois formatos prefere?

Há vantagens em ambos os formatos. A solo permite-me voltar à génese das canções e reencontrá-las. Além disso, permite-me gerir o tempo de outra forma e improvisar. Com banda, há a emoção dos decibéis, a química, a estrada torna-se numa aventura mais entusiasmante com a partilha e a camaradagem. No fundo, que eu gosto mesmo é de tocar.

Entretanto, ficaste recentemente em terceiro lugar num concurso internacional de composição, o “International Songwriting Competition”, entre cerca de 15 mil canções. O que significou esta distinção?

Significou, por exemplo, a possibilidade de desaparecer o grau de separação entre os artistas participantes e o júri, por exemplo, que era constituído por um panteão de gigantes, como o Tom Waits ou o Frank Black. Mas no fundo, o móbil era ser ouvido pelo Tom Waits, de saber que ele ia ouvir a minha canção em casa. O objectivo não era ganhar nem estar em competição, até porque não faz sentido competir com música.

Também já antes tinhas sido distinguido pela revista francesa “Les Inrockuptibles” como uma das 20 bandas mais promissoras de 2005.

Essa distinção foi importante na altura, porque a banda tinha, literalmente, meses de existência. Foi mesmo surreal, porque tinha imenso respeito pela revista e, de repente, ela diz que éramos uma das bandas mais promissoras. Claro que isso de início é importante, porque deixas de procurar por aprovação e passas a acreditar no teu espírito crítico. Por isso, deu alento e, claro, deu bastante tempo de antena também, porque muita imprensa especializada segue com atenção a “Les Inrockuptibles”.

Uma vez que depois o álbum de estreia ainda demorou até estar pronto, não temeu ficar rotulado à música que valeu essa distinção, “Unageing Games”?

Não, nem por isso, nunca me passou pela cabeça. Até porque a música foi apenas um pequeno hit. Quem gosta de fazer música e o faz de forma honesta, sabe que esse trabalho não se resume só a isso, é apenas um episódio de uma fase mais visível.

Cantas maioritariamente em Inglês. Nunca sentiste necessidade de te expressares noutra língua?

Já cantei e gravei em português, no tributo ao Adriano Correia de Oliveira. Não coloco nada de parte, nenhuma opção. Quero cantar e é isso que me move. Ouvir alguém, cantar, quando é bonito, não precisa de nenhuma razão. Canta-se porque é bonito, apenas isso.

E a internacionalização, interessa-te?

Este novo EP, “Tell the people”, vai ser agora lançado na Bélgica, na Holanda, no Luxemburgo, na Escandinávia e no Canadá. Além disso, já estão alinhavadas algumas datas na Holanda e na Escandinávia também. A ideia é alargar um pouco o circuito. A internacionalização é uma possibilidade séria para esta geração de música, não só por causa da internet, mas porque já não somos um país periférico. Além disso, vivemos uma fase de indefinição, em que ninguém sabe ao certo para onde estamos a ir, mas em que é certo que nada vai voltar ao que era. Os artistas são cada vez mais responsáveis pelas suas carreiras e o mundo já não está longe para ninguém.

E por Portugal, o que vai acontecer?

Posso revelar que houve um disco gravado conjuntamente com o EP. Foram quinze temas gravados e que faltam apenas misturar, por isso há um álbum à espreita, que deve sair no final deste ano ou no princípio do próximo. Depois, o objectivo é organizar também uma digressão cá. Quanto a longo-prazo, a intenção é poder continuar a fazer isto.



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