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Med 2010

Entre os dias 23 e 26 de Junho, o centro histórico de Loulé recebeu 22 mil pessoas na 7ª edição do Festival Med. Quatro dias que provaram que o Festival é mais do que uma celebração da música do mundo e onde a portuguesa esteve em grande destaque.

Entre os dias 23 e 26 de Junho decorreu em Loulé a 7ª edição do Festival Med. Milhares de pessoas percorreram as ruas do centro histórico da cidade (média de 5500 por dia) e assistiram a dezenas de concertos das mais variadas expressões artísticas, sempre num clima de festa e convívio. Com esta edição, o Med consolida a sua posição como o primeiro Festival de Verão em que vale a pena estar presente.

Escrever sobre o Med não se resume a descrever o que se passou em cima dos diversos palcos. Ao contrário de outros Festivais, o “recinto” do Med é o próprio centro histórico da cidade. As grandes marcas de fast food não estão presentes (nem mesmo o Psicológico). A restauração está espalhada um pouco por todo o recinto, num género de arraial com mesas corridas e cheiro a sardinha assada no ar. Foram também criados três espaços especiais da responsabilidade dos chefs Chakal, Bernardo Sousa Coutinho e Jonnie Pratt.

Pelas estreitas ruas de Loulé, que formam um género de labirinto, foram montadas dezenas de bancas de artesanato que dividiram o espaço com cartomantes, vendedores de poções e bares improvisados. O negócio tradicional ficou aberto até mais tarde (inclusive os deliciosos folhadinhos de Loulé). Os cafés e tascas transformam-se para receber os visitantes. Um deles criou a “Bodeguita del Med” que à semelhança do original bar de Havana “Bodeguita del Medio”, servia Mojitos, para além de muitas outras bebidas.

Os seis palcos obrigaram a um constante fluxo de pessoas que se tornou bastante complicado, nomeadamente no último dia do festival, nas ruas mais estreitas. Enquanto tudo isto acontecia, os habitantes, à janela, observavam com atenção a algazarra à sua frente, esboçando sempre um sorriso a quem passava. A programação do Festival era comunicada através de colunas espalhadas pelas ruas e eram dadas dicas para chegar aos palcos por caminhos alternativos.

No público era possível encontrar pessoas de todas as idades e nacionalidades. Muitos estrangeiros de férias no Algarve aproveitaram a ocasião para visitar o Festival. Os louletanos marcaram também a sua presença indicando que este Festival consegue agradar aos visitantes e também à população local, cumprindo assim um dos objectivos traçados, a formação de públicos.

Obviamente que Festa que é Festa precisa de música…

DIA 23 – DE PAI PARA FILHO

O grande destaque da noite de quarta-feira foi a actuação de Femi Kuti no palco Matriz (localizado junto à igreja, que serviu de ecrã gigante para todos os concertos deste palco). Com raízes profundas no Afro-Beat, o músico nigeriano (filho de Feli Kuti) conseguiu transmitir uma vibração única que contagiou o público do início ao fim do espectáculo. Rodeado de excelentes músicos e com bailarinas que não tiveram um minuto de descanso, Femi Kuti montou um espectáculo que vai muito para além do Afro-Beat com divagações funk e jazzísticas. Foi essa diversidade e imprevisibilidade que criaram um dos momentos altos de todo o festival.

Na mesma noite, no palco Cerca (do lado totalmente oposto do recinto), actuou aquele que foi considerado por um crítico inglês “o melhor guitarrista do mundo”, Vieux Farka Touré. Seguindo as pisadas do seu pai, Ali Farka Touré, Viuex tem com a guitarra uma relação muito especial. Ritmos africanos com pinceladas reggae e a electricidade rock, com uma simplicidade única e alegria no rosto. O concerto perdeu algum fulgor sempre que uma balada surgia no alinhamento, mas rapidamente ganhava novo ânimo quando os dedos de Viuex acariciavam as cordas da sua guitarra.

DIA 24 – AND THE AWARD GOES TO…

A noite arrancou no Castelo com a actuação de Mazgani que apresentou “Song of Distance”, disco editado este ano. Quem acompanha a carreira deste músico terá notado a evolução na sonoridade que apresenta, um som com variadíssimas influências (folk, country), mais “composto”, que ganha uma outra dimensão ao vivo. Tal como em muitos concertos no Med, grande parte do público não conhecia quem iria pisar o palco e o início do concerto sofreu um pouco dessa “apatia”. Mérito para Mazgani que conseguiu com a sua música e, principalmente, com a sua presença, proporcionar um excelente concerto.

Os Cacique 97 são uma daquelas bandas que fazem sempre uma grande festa por onde passam e encaixam na perfeição no ambiente de festivais como o Med. Na realidade os Cacique são um “super grupo”, composto por alguns dos melhores músicos portugueses que fazem parte de diversos projectos (Francisco Rebelo e João Gomes tocaram também na última noite do Festival nos Orelha Negra). No palco e em disco, os Cacique fazem uma homenagem ao Afro-Beat e aos seus maiores impulsionadores e essa mistura explosiva – funk, jazz e percussão – colocou o Med a dançar.

Para ter oportunidade de assistir ao concerto de Goran Bregovic no palco Matriz deixámos a festa dos Cacique. No “papel”, a presença do sérvio em Loulé seria um dos principais atractivos musicais do Festival, já que é bastante conhecida a receptividade dos sons balcânicos pelo público português. Autor de diversas bandas sonoras, de onde se destaca “Undergound” de Emir Kusturica, e com dezenas de álbuns e trabalhos editados, Goran Bregovic trouxe consigo a sua “Wedding & Funeral Band” e o som que todos estavam à espera, um mistura de fanfarras ciganas dos Balcãs, com rock, klezmer, música ligeira italiana e até rembetika grega.

O concerto em Sines foi escolhido pela revista inglesa Songlines, como sendo o local indicado para entregar o prémio de Melhor Artista 2010. O galardão foi entregue por Simon Broughton, editor da revista. Visivelmente feliz com este prémio, o sérvio ainda brindou o público com «Kalashnikov» para um final de concerto delirante com o público ao rubro.

De regresso ao palco da Cerca ainda foi possível assistir à actuação surpreendente e frenética de King Khan & The Shrines. Rock psicadélico com pitadas de R&B em que o dourado de King Khan – canadiano com raízes indianas – fez-se notar e muito. O vocalista e líder da banda é um entertainer puro e a alma do projecto. Uma surpreendente actuação com algum headbanging nas filas da frente.

DIA 25 – QUEM VIU O HOMEM-TIGRE?

Provavelmente a organização não esperava tão grande afluência, mas na realidade o Castelo foi demasiado pequeno para o “rei” Paulo Furtado e quem tentou entrar depois de terem sido dados os primeiros acordes acabou espalmado à entrada, sem qualquer possibilidade de se movimentar. Infelizmente foi isso mesmo que aconteceu. Felizmente que o sucesso de The Legendary Tiger Man é inquestionável e a sua convocatória para o Med foi uma aposta ganha.

No mesmo palco mas umas horas antes, os Galandum Galundaina apresentaram a música tradicional mirandesa. A recepção foi calorosa e foi interessante perceber como os dois extremos de Portugal se uniram por momentos. O projecto de Paulo Preto, Paulo Meirinhos, Manuel Meirinhos e Alexandre Meirinhos visa a preservação do mirandês (a comunicação com o público foi sempre efectuada em mirandês) e da tradição transmontana.

Do Castelo para a Matriz. Da música tradicional para a música clássica. Pedro Burmester, Mário Laginha e Bernardo Sassetti são os três melhores pianistas portugueses. Juntos formaram o projecto 3 Pianos onde tocam clássicos e composições originais. Até ao dia 25 de Junho de 2010, este projecto apenas tinha tocado em locais como o CCB para plateias “diferentes” daquela que se encontrava em frente ao palco no Med.

“Para nós é uma grande honra estar aqui em Loulé”, disse Bernardo Sassetti na primeira pausa entre temas. Para além das pausas servirem de momento de interacção com o público, os três músicos aproveitavam para apresentar os temas que tinham tocado e “rodar” de forma a passar pelos três pianos, já que a disposição dos mesmos obrigava que um dos pianistas ficasse “escondido” do público. Mais um momento único proporcionado pelo Med.

Os Anaquim têm tido um bom ano. Editaram o primeiro disco de originais através de uma grande editora, têm o seu single «A vida dos outros»” na boca de muitos portugueses e uma agenda de concertos preenchida. O projecto aproveitou a porta deixada aberta por grupos como os Deolinda e Virgem Suta, apostando na língua portuguesa e na música popular para criar temas simples, orelhudos e bem-dispostos. A alegria dos temas é coerente com a postura da banda em palco, sempre muito comunicativa. «O meu coração», tema que em disco conta com a participação de Ana Bacalhau, foi o momento alto do concerto com José Rebola a imitar a vocalista dos Deolinda. Um excelente concerto numa magnífica noite de Verão.

DIA 26 – MAIS MÚSICA PORTUGUESA

A noite começou com o “super-grupo” da Flor Caveira de “música tradicional progressiva”, os Diabo na Cruz. Jorge Cruz, B Fachada e companhia pisaram o palco instalado no Castelo (o único com direito a bancada, daquelas que parece que vai cair a qualquer momento) pouco passava das 20:30. À sua espera estavam centenas de pessoas que conheciam de cor muitas das músicas da banda. De destacar a expressividade de B Fachada que parece estar sempre à vontade seja qual for o género e “andamento” e a postura rock n’ roll de Jorge Cruz. À saída do castelo eram muito que trauteavam a «Dona Ligeirinha», que provou ser um êxito por terras algarvias.

Do Castelo para a Cerca. Embora geograficamente os espaços sejam muito próximos, o encerramento de um “atalho” que praticamente unia os dois espaços, logo no 2º dia, obrigou a contornar quase todo o recinto, criando algumas complicações de “trânsito”, já que alguns bares decidiram colocar bancadas no meio das estreias ruas do centro de Loulé. Bom para o negócio, mau para quem não gosta de se sentir como uma sardinha em lata.

Uma outra banda nacional muito acarinhada pelo público presente em Loulé foram os Virgem Suta que continuam a dissecar até à exaustão o seu disco de estreia, com destaque para «Dança de Balcão», «Tomo Conta Desta Tua Casa», «Linhas Cruzadas», «Vóvó Joaquina» e «Ressaca». A boa disposição e “rodagem” é evidente ao vê-los em palco. Para quem já os tinha visto, como é o meu caso, este concerto não acrescentou nada de novo. Parece-me que está na hora de trabalhar em novos temas porque existe talento que não deve ser desperdiçado.

Tal como Paulo Furtado e os 3 Pianos, os Orelha Negra não seriam à partida um nome que se associe a um Festival de World Music mas na realidade a edição deste ano do Med veio provar que esse género de rótulo não tem qualquer importância mas sim a qualidade dos projectos. Assistir a um concerto dos Orelha Negra no palco do Castelo, ao ar livre, numa noite quente de Verão em Loulé foi sem dúvida uma experiência arrebatadora. Sendo um conjunto de músicos que gostam de roçar a perfeição, o concerto pode até ter tido alguns problemas “técnicos”, mas o balanço final foi claramente positivo. Dar a conhecer um som marcadamente urbano a um conjunto de pessoas que de outra forma não teriam acesso ao mesmo (ao vivo) encaixa num dos objectivos traçados para este festival: a formação de públicos. Foi interessante observar crianças acompanhados dos seus avós atentos ao som produzido em palco, aos samples de Sam The Kid e por vezes hipnotizados com a atmosfera criada. Mais uma aposta ganha pelo Med.

A RDB agradece à organização do Med pela oportunidade de acompanhar o Festival e ao Ria Plaza Resort pelo alojamento e serviços prestados.



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