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medEia – alkantara festival

Versão contemporânea, adaptada pelos Doop Paard.

“And she gives it
She wants to give it
She wants him to take it
She wants to be one with him
And they are
One
For a while”

A lenda da mitologia grega, na versão de Eurípedes de 435 a.C., resume-se a uma tragédia sobre uma grande paixão: a de Medeia por Jasão. Esta trai, através do seu conhecimento sobre as artes mágicas, o seu reino e família para concretizar o seu romance. Porém, já como fugitiva e com dois filhos, vê-se vítima da ganância do seu marido que decide casar com (mais) uma filha de um rei. Ao enfrentar o exílio, Medeia, não desesperada, mas preenchida de um sentimento frio e calculista contra a infidelidade do marido, assassina os seus próprios filhos.

Nesta versão contemporânea de “Medeia”, adaptada pelos Dood Paard (Cavalo Morto), a narrativa desta lenda é feita por um coro invulgar, que, por vezes, se distancia das suas funções clássicas teatrais originais, na sua postura e interpretação dos acontecimentos.

Este surge composto por dois homens e uma mulher, numa perspectiva de ampliação da história contada para além do conflito interior da personagem feminina, mantendo a sua função teatral de não intervir na acção trágica, mas dar-lhe ritmo e impulsionar uma emoção dramática. Assumindo um atitude como que “mimética” e como prolongamento do anterior, cada actor encarna o seu papel como um terço da personagem, sem fim em si mesmos, mas partilhando uma “esquizofrenia” de pensamentos em conjunto.

Todavia, aqui, o coro não adopta a tarefa exclusiva de comentar “passivamente” os acontecimentos dramáticos: é um coro que sente a sua incapacidade de agir com inquietação e até ironia perante a essência da fragilidade humana. Questiona-se como espectador ideal que reage aos acontecimentos e ao comportamento das personagens como filtro dos sentimentos da opinião pública em tom moderador e crítico. E promove quebras de acção para nos questionarmos enquanto público; porque em última análise, “nós assistimos à sua assistência”. Todo este processo confere um movimento circular à acção dramática.

Na sua intenção dramatúrgica, a companhia que foi fundada em Amesterdão, no ano de 1993 e que funciona sem director (seguindo a tradição holandesa e flamenca), sustenta, através de Oscar van Woensel: “O coro não é capaz de agir. Ele pode apenas descrever o que acontece e o que ele pensa sobre isso, mas ele não pode fazer nada. Esta é uma metáfora para nós, enquanto cidadãos da Europa Ocidental. Nós olhamos para o mundo, mas há nada que possamos fazer sobre isso”.

O espectáculo experimental avant-garde, resulta de um esforço colectivo de confronto político, moral e social, utilizando uma linguagem simplificada de Inglês a que a companhia holandesa chama “Euro Inglês”, com o propósito de sublinhar o carácter universal da história. Usando colagens de letras de música pop Americanas e Inglesas (entre elas, músicas dos The Beatles, The Doors , Joy Division, Madonna, The Cure e Public Enemy), serve-se de uma linguagem comum, que evoca, tal como a mitologia grega, a memória colectiva da sociedade contemporânea.

Com um cenário minimalista e simbólico, a acção desenvolve-se com a aproximação entre as personagens de guarda-roupa escuro e o público. O coro está colocado em frente a telas brancas por ele desfraldadas e por ele rasgadas sucessivamente em cada acto (Medeia “falling into pieces”?) – factor que o impulsiona a avançar na direcção da assistência. Ainda intercalando cada acto, depois dos actores rasgarem as anteriores, são içadas t(v)elas (trocadilho com “puxar os cordelinhos”?), onde são projectadas imagens, aparentemente aleatórias, em slide-show, acompanhadas de música e em velocidades diferentes; dando a noção de intemporalidade e universalidade espacial a “Medeia”.

Embora despido de complexidades cénicas, entrelaça (tal como os seus fios de sisal a suportar as telas coladas/rasgadas), numa encenação desviada na sua abordagem dramatúrgica, temas tão controversos (e alguns contraditórios) como o Amor, a Vingança, o Ódio, a Adoração, a Loucura, a Solidão, a Lealdade, o Individualismo, a Traição, a Existência Social, o Consumismo, a Afirmação Feminina, a Relativização de Valores, o Sofrimento, entre outros.



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