Medeiros/Lucas no Musicbox

MEDEIROS/LUCAS @ MUSICBOX (08.03.2017)

Mal entramos no Musicbox percebemos ao que vamos. Vai ser um noite de partilha e de celebração. Não só entre a banda e os muitos amigos que responderam afirmativamente ao convite (se já viram o vídeo para a magnífica «Fome de Vento» sabem que são bastantes) mas também àqueles que se sentem ligados pela força das palavras e da música que conferem uma alma enorme a este projecto.

A viagem de MEDEIROS / LUCAS está neste momento a meio. Começou em 2015 com “Mar Aberto”. Prosseguiu em 2016 com “Terra do Corpo”. 2017 deverá trazer o terceiro capítulo, que fechará esta abençoada trindade. Este foi o momento escolhido para fazer um balanço do que foi conseguido até aqui. Foi também o momento escolhido para fechar este ciclo, antes de começar a próxima etapa.

«Bilhete para Filomena» é a primeira canção da noite. São apenas quatro ou cinco versos que pelo voz grave de Carlos Medeiros enchem a sala. Avançamos depois para “Terra do Corpo”, ou do mar para a terra. «Safra de Gente» é uma canção pesada e metáfora para um povo que é escravo do trabalho mas que termina dizendo que “O Homem quer-se vertical”.

«Sede» surge simples e minimalista; uma batida acompanhada por umas programações e nós a estalarmos os dedos. Depois somos sugados pela batida hipnótica que pauta a canção. Nem nos lembramos que o Carlos Barreto não está ali. É uma canção enorme e dá-nos sede de mais.

Rui Souza, teclista, é o primeiro convidado a subir ao palco para tocar a «Ladeira da Calheta», uma lenga-lenga com uma percussão frenética que é de repente albaroada por uns teclados que surgem num registo contemplativo mas que, gradualmente, se juntam ao registo da percussão. Segue-se «Fome de Vento», intensa nas suas palavras e bela nos acordes, que aqui surgem mais soltos do que no álbum.

«Fado Marujo» leva-nos de volta ao mar para que não nos esqueçamos que ele é parte de nós. A percussão surge num registo tribal, em contraste com a voz de Carlos Medeiros, que surge, grave, pausada e compassada mas a meio algo acontece e ambos se encontram. O improviso torna-se regra, canção após canção e mantém os nossos sentidos alerta.

Ricardo Martins, baterista ex-Lobster, sobe ao palco para tocar “uma coisa calminha” nas palavras de Pedro Lucas. Todos se riem e ninguém acredita, ao que acrescenta “calmo mas com força”. Faz sentido. Escutamos «Sístole Perdida» de olhos fechados e coração cheio porque a bateria nas mãos do Ricardo Martins se assegura disso mas também não é menos verdade que teria sido bom ver o Filho da Mãe e o Tó Trips ali. Depois é Jibóia que sobe ao palco para a ofegante «Pulmão» porque “coisa alguma é feita sem ares no pulmão”. Canção após canção, Meideiros assume-se com um vértice. A palavra aqui tem força, alma própria e sempre que surge observamos os restantes instrumentos a cederem-lhe o espaço necessário.

É a vez de Mitó Mendes, que estava ali mesmo ao nosso lado, subir ao palco e dizer que é uma honra estar ali. Concordamos em concordar que é recíproco e escutamos «Búzios» onde a guitarra de Pedro Lucas surge raivosa e a voz de Mitó incisiva. «Transparência» é passado, presente e futuro, uma demonstração cabal (dúvidas existissem) do quão únicos são MEDEIROS / LUCAS.

Antoine Gilleron é o último convidado da noite e, tal como acontece em “Terra do Corpo”, toca trompete em «Corpo Vazio». É o exemplo perfeito de como um pequeno apontamento pode elevar toda uma canção e nós flutuamos com ela.

O encore trás «Navio», convenientemente dedicada aos marinheiros do Cais Sodré… É um regresso ao mar, onde tudo começou.



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