Meifumado

O primeiro ano da editora independente portuense, revisto na rua de baixo.

”A Meifumado faz um ano e continua a cagar na precaução …”
meifumado fonogramas

Nasceu há pouco mais de um ano com o utópico objectivo de “criar e editar boa música”, ignorando as “convenções implícitas” de uma editora. Editaram cinco discos, com estéticas e conceitos diferentes, e olham para o futuro da mesma forma com que viveram o passado, sem preocupações comerciais e muita vontade de criar e divulgar ideias.

Em conversa com um dos membros honorários da editora, Paulo Zé Pimenta (também responsável por dois discos editados), ficámos a saber que o primeiro ano de actividade, “comercialmente não foi nada por aí além”, mas o “barco ainda não afundou… muito”.

A subsistência da editora vive do facto de todo o trabalho de elaboração de um disco, da produção às capas, ser feito “dentro do círculo Meifumado”, onde cada um dos elementos é um verdadeiro “multifunções”. Para além disso, foram bastante importantes as colaborações exteriores de pessoas “que assumem um real interesse” pelo trabalho da editora. Surgiram assim as colaborações de Rita Barbosa no vídeo da Zany Dislexic Band, Joana Areal no Fado Superstar do Kalaf-Type e Francisco Pacheco no Anticorpos. O próprio logo da editora foi feito por um amigo. Tudo isto sem qualquer contrapartida financeira.

Eles prometem continuar a trabalhar em novos projectos porque sentem que existem muitas pessoas a pensar como eles ou que pelo menos têm “uma base sensorial apropriada para o desenvolvimento e realização de ideias próprias”.

A rua de baixo acredita na Meifumado, gosta da Meifumado e vai ajudar a Meifumado utilizando as “armas” que dispõe, o que equivale a dizer, este pequeno espaço cultural que se situa num cantinho da Internet. O resto cabe a todos vocês.

Antes da pequena revisão dos lançamentos da editora neste primeiro ano de actividade, fiquem a saber que os discos da Meifumado encontram-se à venda na Fnac, bem como noutras lojas mais pequenas em tamanho mas enormes em importância, como é o caso da Flur e Ananana (Lisboa) e Matéria Prima (Porto). Podem também adquirir os discos através do site da distribuidora – Sabotage – e num futuro próximo através do próprio site da Meifumado.

mei001 – the zany dislexic band – Julho 2004

O álbum que apresentou a Meifumado ao mundo é estranhamente melodioso e perturbante. Faixas instrumentais sabiamente fabricadas com a utilização de uma guitarra, um baixo, uma bateria e teclas, que nos transportam numa longa viagem plena de espontaneidade e livre de condicionalismos estéticos. São 45 minutos de música, influenciada claramente pelo jazz, mas que parece querer ir mais além. São faixas inacabadas que servem de apresentação a um projecto. É a calma que existe antes de qualquer erupção.

mei002 – ppelectro – running themes – Dezembro 2004

Se o nº1 da Meifumado é orgânico, jazzístico e apaziguador (num certo sentido), o primeiro projecto de Paulo Pimenta editado é tecnológico, mecânico e perturbador. “Tirem esse disco antes que alguém se atire da janela”. Esta é a frase que podemos encontrar no press release que acompanha o disco e que explica o lado mais psicótico/caótico dos temas, que se forem ouvidos na cama com uns auscultadores, podem-se tornar doentios e febris. Por outro lado, o disco tem um aspecto festivo (mesmo com suores frios), que puxa para a dança, nem que para isso seja preciso consumir alguns cogumelos mágicos.

mei003 – kalaf+type – a fuga – Novembro 2004

A inconfundível voz de Kalaf junta-se aos ambientes nocturnos e ambíguos de Type, num disco em que a palavra se transforma num verdadeiro instrumento e abre caminhos num universo sem limites que é a música. Sedutor, quente, directo, “a fuga” é um excelente disco urbano, que se ouve enquanto se bebe um copo de vinho tinto, depois de um dia de trabalho. Os temas surgem como um refúgio, que nos embalam, que nos aconchegam, que se moldam com o passar do tempo. Estamos perante um disco político, contemporâneo e marcante, que aproveita um espaço que tinha sido pouco explorado na música em Portugal.

mei004 – preto – quietude – Março 2005

”Quietude representa um sentido mais alargado de silêncio, é a qualidade de estar atento ao que se passa à nossa volta, atento às relações (…) é uma condição para ser mais consciente”. É assim que João Roquette apresenta o seu trabalho de estreia como Preto, um disco onde a electrónica abraça o jazz e nos desperta os sentidos. Construídos durante os últimos 4 anos, os temas que compõem a “quietude”, reflectem a nova fase artística de Roquette, bastante diferente do projecto Precyz, onde trabalhou com a brasileira Cynthia Zamorano. Um disco para ouvir e sentir.

mei005 – pz – anticorpos – Julho 2005

Surpreendente. Este é o melhor adjectivo que podemos empregar depois de ouvir o mais recente lançamento da Meifumado. Electrónica muitas vezes minimal que contrastam com alguns arranjos mais elaborados, palavras directas, simples, rimas fáceis quase a roçar o pimba (no bom sentido), que reflectem o estado de espírito de Paulo Pimenta (o mesmo de ppelectro). Uma visão crítica da sociedade, da indústria discográfica, do mundo, de si próprio, repleta de sarcasmos e metáforas que inevitavelmente nos fazem sorrir. “Anticorpos” é um disco inteligente, original e sem dúvida único.



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