“Memórias de um Amigo Imaginário” | Matthew Dicks

“Memórias de um Amigo Imaginário” | Matthew Dicks

A linha inventada que separa a imaginação da realidade

Quando somos demasiado pequenos para ter noção do mundo que nos rodeia, podemos dar-nos ao luxo de automaticamente nos considerarmos as pessoas mais corajosas que fazem parte dele. Falamos com os insectos em voz alta. Travamos lutas infinitas entre os aviões e os soldados, as bonecas e os peluches. Fazemos as perguntas mais descaradas à senhora que está à nossa frente na fila, porque nem sequer temos uma pequena ideia do que falar com estranhos representa. Tudo isto é muito normal para as crianças. São corajosas porque não sabem o que as espera. E o que acontece quando essa criança vai ter de continuar assim durante muitos e muitos anos, mesmo quando todos os outros meninos já cresceram e começaram a ter noção da vida?

É o caso de Max Delaney, um menino extremamente inteligente mas com características especiais: para além de sofrer de uma doença algures entre o autismo e a esquizofrenia, tem aquilo que nos habituamos a ouvir falar como um amigo imaginário (mas dos mais duradouros e inteligentes que houve por aí).

Apesar de ter sido imaginado e criado por Max para se parecer com uma pessoa, Budo não é real. Ou, pelo menos, é isso que toda a gente nos levou a acreditar. Budo tem memória, inteligência, vontade própria, capacidade de se movimentar pelo mundo e de ouvir toda a gente sem que ninguém o ouça, a não ser Max, o Deus de Um Só.

A sua memória ficou gravada para a posterioridade no livro de Matthew Dicks, “Memórias de Um Amigo Imaginário” (Planeta, 2013), que põe em causa muitas questões do mundo dos adultos vistas pelos olhos de alguém que não pode interagir com ele, apenas observá-lo e existir da melhor maneira que sabe, dentro da cabeça e fora dos olhos de um rapaz de 7 anos.

Existir para Budo é a melhor coisa do mundo, e isso apenas é possível enquanto Max acreditar que precisa dele. E, quando as coisas más acontecem, sabemos que precisamos de um amigo e que só ele nos trará algum conforto. Precisamos que ele nos diga que somos bons, fortes, os mais corajosos do mundo. Que diferença faz se este amigo pode sentir ou se apenas existe na nossa cabeça? Max nem gostava que lhe tocassem, nem precisava de beijos ou abraços. A linha ténue entre aquilo que sabemos que é real e aquilo em que queremos acreditar.

Numa linguagem calorosa, simples da maneira como se fala a uma criança mas cheia de truques de quem muito conviveu com elas para as compreender, as memórias de Budo transportam-nos para o problemático universo infantil, fértil em imaginação, onde o crescimento não é prioritário mas ainda assim inevitável. Apesar disso, Budo apenas nos fala em existir. Se deixar de existir, as suas memórias também deixarão de ter importância. Mas este livro é para isso mesmo, para que Budo nunca deixe de existir. Para que a sua história fique gravada como a de tantas outras histórias de amigos imaginários que ficaram por contar. Uma espécie de verdadeira e derradeira homenagem a todos os amigos verdadeiros. Sejam eles reais ou imaginários.



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